

Titulo original:
Ttulo: Vanessa
Autor: Clarice Peters
Ttulo original: Vanessa
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1991
Publio original: 1989
Gnero: Romance histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Chamada de feia e desajeitada pelo jovem visconde Peregren, Vanessa enfrentou-o e discutiu com ele durante um baile, no meio do salo, para horror e delcia da alta
sociedade.
Banida de Londres, ela foi embora apoiada no dio que sentia pelo arrogante nobre de cabelos ruivos e olhos verdes. O que Vanessa no sabia  que tinha um encontro
marcado com o amor, em Paris, depois de muitos desencontros.


Captulo I

  Naquela manh de abril, um homem alto, de cabelos ruivos e olhos verdes, desceu a escadaria da manso. Parecia estar irritado. Seu futuro sogro tinha vindo visit-lo 
num horrio imprprio, pois ainda eram onze horas. Qualquer um que conhecesse o Honorvel Philip Ham-met, quarto visconde Peregren, sabia que raramente iniciava 
suas ati-vidades antes do meio-dia. Entretanto, parecia que seu sogro se tornaria uma exceo.
  Apesar de ter se vestido rapidamente, suas roupas apresentavam a elegncia habitual: casaca azul de qualidade excepcional, cala cinza-prola, no muito justa, 
e gravata.
  O sr. Curtis Hunnicutt possua muitas falhas, desculpveis pelo fato de ter concebido uma filha adorvel como Lydia, a debutante da temporada que tinha conseguido 
o mximo: o noivado com lorde Peregren.
  Ao entrar no salo Crimson, ele pediu ao sr. Hunnicutt que permanecesse sentado. Ainda bem que Lydia no tinha herdado a aparncia do pai, que era careca, magricela 
e encurvado.
  - Bom dia, sr. Hunnicutt. Espero que me perdoe por t-lo feito
esperar. Aceita um cherryi
  - Qu?! No, n0 quero, obrigado. No iria ajudar, tudo j est bastante atrapalhado.
  - Acredito que tenha uma razo para vir me visitar a esta hora da manh, no?
  - Sim - respondeu o visitante, enquanto abria e fechava nervosa mente sua caixa de rap.
  - Se  o contrato de casamento que o preocupa, asseguro-lhe que tudo est em ordem. Meus advogados me informaram que est pronto para ser assinado.
  Peregren sorriu, contrafeito. Ele no conseguia descobrir por que o futuro sogro estava to hesitante. E sua declarao, em vez de acalm-lo, deixou-o to nervoso 
que ele disparou a falar:
  -        Meu senhor, garanto-lhe que no tinha a mnima ideia do que estava ocorrendo. Juro! Minha esposa garantiu-me que tambm no sabia de nada. Pensamos que 
tudo j estava acertado. Sua proposta de casamento, o contrato... Agora est tudo arruinado.
-        Como? - indagou friamente o visconde.
  O tom glido fez Hunnicutt sentir calafrios. Normalmente no era covarde, mas naquele momento desejava que o nobre diante de si fosse outro, e no Peregren, que 
era conhecido por ter um temperamento compatvel com a cor de seus cabelos.
- Devo concluir que algo aconteceu a Lydia, em Brighton?
  - Bem... Ela no est l - o sr. Curtis disse, por fim, meio engasgado. - Milorde, por favor, no me mate! Minha filha fugiu com um homem para Gretna.
  O rosto do visconde se anuviou tanto que o sr. Hunnicutt caiu de joelhos a seus ps.
- Meu senhor, imploro-lhe, no me desafie para um duelo!
  - Solte minhas pernas! - rosnou o nobre, e Hunnicutt deixou-se cair no tapete. - Oh, diabos! Levante-se e tome um clice de cherry!
  - Sim, milorde. No. Quer dizer... - O sr. Hunnicutt levantou-se e caminhou at o bar.
  - Considerando a sua idade, um duelo seria injusto. Se entendi direito, sua filha fugiu para Gretna com um homem. As questes so: quando e como?
  - H mais ou menos uma semana. Ela deveria encontrar a tia em Bath, mas deixou uma carta com uma amiga, pedindo-lhe que me entregasse hoje. O que foi feito h 
uma hora.
- Ela mencionou Gretna, na carta?        ,    -
  -  uma desmiolada! - exclamou Hunnicutt, assentindo com a cabea. - E deve estar louca, para abandon-lo dessa maneira.
  Apesar de no ser uma pessoa convencida, Peregren teve de concordar com o seu ex-futuro sogro. Mesmo sendo uma jovem encantadoramente bela, Lydia no teria como 
negar as vantagens de um casamento com ele, que, alm de possuir uma renda anual superior a quarenta mil libras, tinha duas propriedades, uma em Derbyshire e outra 
em Kent, e um ttulo de nobreza. Havia sido considerado o melhor partido da temporada daquele ano, 1817. E a srta. Lydia Hunnicutt simplesmente o havia desprezado.
  - Desde que estejam casados, acredito que no terei de ir atrs deles - considerou o visconde. -  claro que sempre posso desafiar o marido para um duelo - continuou, 
como se estivesse falando consigo mesmo. - Espero que ele seja um oponente significativo. Detesto duelos desiguais.
  - O infeliz se chama Francis Fabersham. O pai dele  um mdico.
Conheci vagamente a prima de sua me.
- Francis Fabersham? - O visconde franziu o cenho, tentando lembrar se conhecia o homem. - Sua filha me abandonou, e, para desafiar o culpado, tenho de encontr-lo 
primeiro. Portanto, vamos manter a notcia em segredo, por enquanto. Quantas pessoas sabem do acontecido? - perguntou, sem esconder a irritao.
  - Somente minha esposa, a amiga de Lydia, Penelope Horne, e eu Ah! Minha esposa foi informar os Whitmore sobre a fuga.
- Por qu?
  - A srta. Whitmore era noiva de Francis Fabersham, sir. O noiva do deles foi anunciado esta semana.
-  um consolo saber que no fui o nico abandonado.
  Na rua Upper Wimpole, a srta. Vanessa procurava a caixa de remdios, pois sua me encontrava-se prostrada no sof.
- Meu corao! Nessa, acredito que este espasmo ser fatal.
  - Por favor, mame, no diga isso - replicou Vanessa, enquanto fazia a me cheirar os sais.
  O que deu resultado, pois a sra. Whitmore parou com o drama e comeou a tossir violentamente.
  - Assim est melhor - disse a filha, escondendo um sorriso. -A senhora deu o maior susto na sra. Hunnicutt. Tive de mand-la embora. No podia ajudar em nada, 
parecia to desconcertada e infeliz!
  - Era o que merecia! - declarou lady Whitmore. Seu rosto plido comeava a adquirir cor. - Imagine, a filha dela roubou o seu noivo!
Que jovem odiosa! Eu sabia que no era boa coisa... Bonita demais.
- Por favor, mame...
  Vanessa conhecia a me e sabia que ela no ia guardar consigo os comentrios desabonadores. Era uma leitora fantica de romances e achava que devia dar vazo s 
emoes. E a fuga dos noivos era um prato cheio que ela no se conformaria em desperdiar.
  A srta. Whitmore, entretanto, considerava-se uma pessoa prtica. Algum na famlia tinha de s-lo! O pai s se preocupava com sua criao de cavalos e o campeo 
que sonhava conseguir, e nem se lembrava das duas filhas. A me estava sempre concentrada em suas doenas, medicamentos e poes. Na verdade, desde a mudana delas 
para Londres, a fim de apresentar Clara  corte na temporada, as preocupaes do dia-a-dia tinham cado sobre os ombros daquela jovem de vinte e quatro anos.
Vanessa possua um certo charme e uma beleza diferente. Os cabelos eram loiros e os olhos azuis, o corpo era esguio e flexvel, sem as curvas cheinhas, exigidas 
pelos padres da poca; de olhar penetrante, demonstrava ser uma pessoa inteligente, que preferia se divertir a ficar flertando. Sabia que sua irm mais nova, Clara, 
era mais bonita
do que ela. Mas, apesar desta ltima ter condies de se tornar um sucesso na sociedade, no poderia ser apresentada  corte antes que a mais velha ficasse noiva, 
e por isso Vanessa havia aceitado o pedido de casamento de Francis Fabersham, um amigo de longa data.
  - Por que aquela moa detestvel tinha de roubar o seu pretendente, minha filha? E logo depois de termos feito a participao do noivado no Gazette... Ns estamos 
arruinadas, minha querida, arruinadas!
  - Dificilmente, mame. Foi apenas um incidente infeliz. E, na realidade, no sabemos ainda se essa histria  verdadeira.
  - Voc acha que os Hunnicutt inventariam uma coisa dessas? -perguntou a sra. Whitmore, fungando.
  - Eles no tm imaginao para tanto. Mas lembre-se de que esto falando sobre o Francis que conhecemos, e acho difcil ele ter fugido com a srta. Lydia.
  - , isso realmente parece estranho - concordou a me, interrompendo a torrente de reclamaes.
  -  impossvel! O comentrio do momento na corte  sobre a sorte da srta. Hunnicutt por conseguir ficar noiva do visconde. Por que iria troc-lo por um homem pobre, 
sem ttulo, e que nem  muito bonito? No faz sentido. Francis  um rapaz comum, prtico e maante!
  - Pode ser. Mas isso no muda o fato de que vo rir de voc e coloc-la em ridculo.
- Por que fariam isso?
  - Porque voc foi abandonada, minha filha. S espero que isso no destrua as chances de Clara. Ela estava to feliz com a festa de ontem... Sir Giles foi muito 
atencioso com sua irm. Voc acha que deve ir ao baile de lady Chumley?
  - Coragem, mame. Devemos agir normalmente. Clara est ansiosa por esse baile e lady Chumley foi muito corts em nos convidar. Afinal, quase no nos conhece. Talvez 
eu at ache um novo pretendente.
  Vanessa sabia que a me planejava um casamento brilhante para sua irm, mas ningum podia ter previsto o acontecido.
  Aquela noite, ao entrar no luxuoso e concorrido salo de baile de lady Chumley, ela percebeu como estava errada. A julgar pela calorosa recepo que tinha tido 
da anfitri, a histria j tinha se espalhado. Tentou ao mximo aparentar indiferena, mas, conforme as horas passavam, ia ficando cada vez mais corada com os comentrios 
que ouvia. Sentia vontade de degolar Francis.
  A disposio geral era de pena da pobre Vanessa, que tinha sido abandonada pelo noivo. Exceto o sr. Cyril St. Charles, um almofadinha, que louvava a sua coragem 
enquanto danavam.
  -        Uma outra dama qualquer estaria prostrada em desespero - comentou, enquanto pisava na barra do vestido dela, fazendo com que o cetim verde rasgasse.
  Por sorte, lady Chumley arrumou-lhe agulha e linha. Vanessa foi para a biblioteca a fim de consertar o estrago. Na verdade, estava feliz por ter uma desculpa para 
fugir dos olhares penalizados e dos murmrios. Sentada em uma poltrona atrs de um biombo chins, comeou a rir. No conseguia imaginar Francis capaz de um ato daqueles. 
Estava curiosa, quando o encontrasse ia faz-lo contar tudo.
  Vanessa no era a nica a achar o baile uma penitncia. O sobrinho da anfitri, visconde Peregren, depois de dez minutos no local, j tinha perdido o bom humor. 
Em geral, evitava aquelas festas, mas lady Chumley era sua tia favorita e no pudera deixar de ir. Ela  que tomara conta dele e do irmo, depois da morte de sua 
me, quando eram crianas. E desde a morte de seu pai, h cinco anos, era a parente mais prxima, mas nem por ela iria aguentar a curiosidade alheia. Infelizmente, 
no havia como acabar com os falatrios.
  - Philip, no faa uma cara to carrancuda - comentou a anfitri, enquanto o levava para um canto retirado. Estava preocupada, pois percebia o aborrecimento dele. 
- Os Hunnicutt no tero mais coragem de aparecer por aqui. Aquela mulherzinha deu com a lngua nos dentes!
  - Provavelmente ela j contou a novidade para todos os conhecidos de Londres - comentou o visconde, amargo.
  - Pode ser que todos j saibam, mas voc no lhes deve dar a satisfao de se mostrar perturbado com isso.
  - Querida tia - ele forou um sorriso -, espera que continue agindo como se nada tivesse acontecido?
  - Isso mesmo! Normalmente, o que estaria fazendo em um baile como o de hoje?
  - Acredito que jogaria um pouco e conversaria com Bertram. - Ele se referia ao segundo filho de lady Chumley.
  -  isso! V conversar com Bertie. D-lhe alguns conselhos, pois acredito que esteja outra vez apaixonado por uma mulher totalmente
inadequada.
      Outra atriz? - Lorde Peregren suspirou, pois conhecia a tendncia do primo para se apaixonar por artistas.
  - Pior. Uma bailarina. Estou desesperada. Acho que ele nunca vai assentar a cabea. - E encaminhou o sobrinho na direo do filho.
  - Mame est exagerando - comentou Bertram, mais tarde. - Ela  cantora de pera.
Realmente, faz muita diferena! Bertie, voc  incorrigvel.  jovem demais para se envolver com tantas mulheres.
  - At parece que voc  um velho. Sou apenas quatro anos mais novo, e voc s tem trinta e quatro! Amanda  diferente. Talvez a tenha visto na pea Salom.
  - Nessa poca, estava fora da cidade. De qualquer forma, sou a pessoa menos indicada para lhe dar conselhos sobre os seus relacionamentos.
  - J soube do acontecido. - As feies do jovem assumiram um ar srio. - Venha, vamos at a biblioteca. Papai tem uma garrafa de vinho Madeira que guarda para 
emergncias. Acredito que esta seja uma delas.
  - Imagine! Ser trocado por um joo-ningum! - reclamou o visconde, assim que entrou no aposento.
  - Lydia deve ter ficado louca. Voc sabe alguma coisa sobre esse Francis Fabersham?
  - Desde hoje cedo, consegui algumas informaes.  um caipira, com poucas posses, nenhum ttulo e conhecido por ser uma pessoa maante. Talvez no devesse culp-lo 
pelo ocorrido, mas sim  srta.
Whitmore, de quem ele era noivo.
- Por qu? - Bertram, que enchia os clices, fitou-o surpreso.
  - Porque, se ela fosse uma mulher bonita e charmosa, teria conseguido segurar o noivo. Ela deve ser uma dessas solteironas sem atrativo algum.

Capitulo II

Quando ouvira a porta abrir, Vanessa pensara que era lady Chum-ley a sua procura. Ia se levantar, mas parara, surpreendida pelas vozes masculinas. Por no querer 
ser pega escondida atrs do biombo, guardou a agulha e a linha para tentar sair discretamente. Ento ouvira o nome de Francis e, para seu desgosto, algum chamando-a 
de solteirona. Quem teria a coragem de insult-la de tal maneira?
  - Solteirona? - Do outro lado do biombo, Bertie se viu na obrigao de defend-la. - Perry, voc est exagerando!
  - Ento, ela  uma beleza? - lorde Peregren perguntou cinicamente. - Voc a conhece?
  - Mame nos apresentou. Ela pode no ser considerada uma beleza, ao contrrio da irm - Bertie teve de ser honesto, pois era um conhecedor do sexo frgil -, mas 
 uma pessoa distinta, com certo charme.
  - Voc  bondoso demais, primo - comentou o visconde, enquanto observava o clice de Madeira que tinha na mo. - Conheo esse tipo de mulher. Se ela fosse pelo 
menos atraente, no teria sido abandonada.
  - No pode dizer isso. Se a conhecesse, perceberia que  uma boa pessoa, afvel e simptica.
  - Meu cavalo tambm  afvel e simptico - bufou o visconde,
com certa grosseria.
  Vanessa ficou paralisada e chocada com o que ouvia. Tinha reconhecido a voz do filho da anfitri, mas no conseguia imaginar quem seria o outro homem. Iria descobrir, 
nem que isso fosse a ltima coisa que fizesse. Estava furiosa, mas tambm apreensiva. E se os dois cavalheiros a descobrissem? Como poderia sair da biblioteca?
O visconde foi at a estante, ficando bem prximo do biombo.
  - Bertie, no perca a cabea pela cantora. As mulheres so famosas pelo esprito mercenrio.
  - Amanda no  assim. Lydia tambm no, ou no teria trocado voc por um homem pobre e sem ttulos.
  - No, no  - admitiu o lorde. - Mas aprendi uma lio com isso. No vou entregar meu corao a nenhuma mulher!
  - No me diga que estava apaixonado por Lydia! - exclamou Bertie, alarmado.
  - No, no a amava - reconheceu o visconde -, mas o amor no  o fator mais importante em um casamento.
  - Voc  um cnico! Quer dizer que no sente amor por mulher alguma?
  - Amor, no. S atrao. Senti atrao por Lydia e fui enganado.
Voc, meu caro primo,  um romntico nato.
  - E voc no parece estar sofrendo tanto assim. Acho que, na verdade, sente-se humilhado.  isso.
  - Concordo. Talvez devesse agradec-la por ter me salvado da "forca" e daquela famlia horrorosa que tem.
- Voc deve agradecer a Fabersham!
  - Ou posso enviar flores  srta. Whitmore. Provavelmente est apavorada com a perspectiva de terminar a vida sozinha, como titia.
  Vanessa que j tinha identificado o dono da segunda voz, encontrava-se furiosa com os comentrios que ouvia. No tinha ideia do que acabaria fazendo se fosse obrigada 
a suportar mais um minuto aquela conversa. Felizmente, os dois resolveram sair  procura de lorde Chumley, a fim de saber a origem do vinho Madeira.
  Branca de raiva, Vanessa saiu do esconderijo. Como lorde Peregren ousava fazer comentrios daquele tipo sobre ela? Era o homem mais detestvel e arrogante que 
j tinha encontrado. Nesse momento, a anfitri entrou na biblioteca  procura dela.
  - Minha pobre criana, voc est plida! No deixe que essa terrvel situao a perturbe. J aconselhei a mesma coisa ao meu sobrinho, lorde Peregren.  constrangedor!
- Lady Chumley, gostaria de no falar no assunto.
  - Entendo - concordou a nobre senhora, compadecida. - Perry tambm no quis falar sobre isso. No pense que quero interferir, minha querida,  que tenho alguma 
experincia na vida da corte, e j que sua me  nova na cidade, pensei que poderia ajud-la, com alguns conselhos.
  - Oh, lady Chumley - Vanessa sentia-se agradecida -, desculpe-me por ter sido rspida. A senhora tem sido to boa conosco! - Tentou sorrir, sem sucesso. - De fato, 
mame no tem experincia com
a sociedade. Alm disso, no anda muito bem de sade.... A senhora  bondosa por se importar com os meus problemas. Na verdade, estou meio perdida, apesar de lorde 
Cyril St. Charles ter elogiado a minha coragem em aparecer na corte depois do que aconteceu.
  - No se preocupe com os comentrios... Escute, procure aparentar indiferena diante do falatrio. No se mortifique.
  -  o que tenho tentado, mas  to difcil. Sinto-me at agradecida a lorde Cyril por ter rasgado meu vestido. Pude vir para c...
Fugir no adianta - repreendeu a velha dama. - Voc precisa se divertir. Tem de sair desta sala. Vai ver, antes que a noite termine, estar danando.
  Uma Vanessa alarmada foi arrastada pela anfitri, que achou o marido e exigiu que este danasse com a jovem. Lorde Chumley ficou atordoado com o pedido da esposa.
  -        Eliza, toda vez que danamos juntos escuto reclamaes sobre os pises que dou em seus ps...
         Edward... - Mas a senhora foi interrompida pelo filho.
         Papai, estvamos a sua procura. Perry quer saber onde o senhor conseguiu aquele Madeira.
  -        Na Espanha,  claro. Escute, Eliza, no sei por que voc quer que um velho como eu dance com uma bela jovem. Por que no convida Bertie ou Perry para 
valsar com ela? - Virou-se para o filho e disse: - Dance com a srta. Whitmore. Isso o far esquecer aquela atriz.
E, contente consigo mesmo, o lorde foi para o salo de jogos.
- O que est acontecendo? - o filho perguntou  me.
- Nada importante...
-        Preciso achar minha me... - disse Vanessa, tentando fugir.
Entretanto, um homem de cabelos ruivos impedia-lhe a passagem.
S podia ser lorde Peregren. Apesar da raiva que sentia dele, no pde negar sua beleza. Os olhos verdes eram lindos, e o corpo, atltico. Parecia estar se divertindo 
com a situao, o que a deixou irritada.
  - O senhor poderia fazer a gentileza de me deixar passar? - perguntou friamente.
  - Somente se me disser seu nome. - O visconde sorria. - Tia, por favor, apresente-nos.
  - Claro, Perry. Srta. Vanessa Whitmore, apresento-lhe meu sobrinho, o Honorvel Philip Hammet, visconde Peregren.
- Meus amigos me chamam de Perry.
- Eu o chamarei de lorde Peregren.
  - Por acaso estou em sua lista negra, senhorita? - inquiriu o nobre, erguendo as sobrancelhas. - Ou compartilha da minha opinio de que em nossa sociedade todos 
se tratam com familiaridades excessivas?
  - No  que acabamos de nos conhecer. E, por favor, no conclua que compartilhamos algo, seja essa sua opinio ou qualquer outra coisa, milorde.
Peregren ficou surpreso com a resposta dela. Em geral, as mulheres concordavam com tudo o que dizia. Ento, esta era a noiva de Fabersham? Sua aparncia era agradvel, 
sem ser excepcional. Os penetrantes e grandes olhos azuis eram o que mais chamava a ateno. Bertie estava certo, a jovem tinha um certo charme. Estranho, tinha 
a impresso de que ela no gostava dele. Claro, devia ser por causa de Lydia.
  - Bertram, por que no convida Vanessa para danar? - insistiu lady Chumley.
- Oh, sim! - ele concordou, diante do olhar faiscante da me.
  - Lady Chumley, receio que minha me esteja a minha procura. Por favor, me d licena.
  - Deixe de besteira, criana. Sua me est bem. - A senhora segurou firmemente o brao de Vanessa.
  - Bertie no sabe danar. Ser que a senhorita daria o prazer de me acompanhar nesta valsa? - perguntou o visconde.
  - No, obrigada. Com certeza vocs dois conseguiro achar outras parceiras.
- Provavelmente. Mas estou convidando a senhorita.
- Por Deus, diga sim! - interveio lady Chumley, aflita.
  - Bem, srta. Whitmore? - lorde Peregren estava intrigado com a demora dela. - Vai ser divertido. Danando juntos, vamos dar mais motivos para essa gente toda falar.
  Ele estava certo, e Vanessa, depois de breve hesitao, apoiou a mo no brao que lhe era oferecido, e foram para o salo. A surpresa dos outros convidados era 
evidente.
  O visconde fitou-a e percebeu em seu rosto uma expresso distante e orgulhosa. A maioria das jovens ficariam felizes em ter sua ateno, mas aquela parecia indiferente 
a isso, e tinha jeito de ser geniosa. Talvez Fabersham tivesse tido razo em fugir dela.
  Quando passaram por sua me e irm, que se encontravam junto a sir Giles, Vanessa teve de conter o riso. Elas ficaram boquiabertas quando viram com quem danava.
  O visconde perguntou onde conhecera sua tia, e ela respondeu que havia sido numa livraria. Imediatamente, buscando um ponto comum entre os dois, ele comentou:
- Ento, gosta de ler? Eu tambm. Poesia, principalmente.
  - Nesse caso, deve ter lido o ltimo livro de sir Walter Scott... -Ela no resistiu em tentar peg-lo mentindo.
  - Claro que li. Ele  meu autor favorito! Mas como descobriu? -perguntou ele, sorrindo. - Arriscou por ele ser escocs, como seus antepassados, ou tem sangue cigano 
e  dada a adivinhaes?
- Como sabe que tenho antepassados escoceses?
  - Enquanto Bertie e eu procurvamos meu tio, encontramos sir Giles Hathaway, que nos informou sobre a histria de sua famlia e sua rvore genealgica. Parece 
estar muito interessado em sua irm... Clare, no?
-        Clara - corrigiu Vanessa. - Ele realmente fez isso?
  Ela imaginava se o interesse de sir Giles era srio. Sua irm e sua me ficariam felizes com essa informao.
  -        Agora que a senhorita j conhece meu autor favorito, deixe-me adivinhar o seu. No parece ser o tipo de mulher que tem pacincia para ler poesia, e no 
creio que esteja interessada em artigos cientficos. O que nos deixa com os romances para jovens. Mas no estou certo se esse  o seu tipo de leitura...
  Vanessa admirou-se com a concluso, mas no o demonstrou: se ele pensava que iria conquistar sua amizade com aquele sorriso charmoso, depois do que dissera na 
biblioteca, estava muito enganado. O que ela sentia transparecia em seu rosto, e o visconde no estava acostumado com pessoas que antipatizassem com ele. Ento, 
resolveu esclarecer a situao:
  - Senhorita, tenho a impresso de que no simpatiza comigo, o que me deixa triste... - disse, mas na verdade estava irritado com o fato.
  - Milorde, acabei de conhec-lo e no tenho motivo para desgostar do senhor.
- Talvez seja por algo que ouviu sobre mim - sugeriu ele.
-        Com certeza, j ouvi muitos comentrios a seu respeito...
Vanessa estava deliciada por t-lo deixado perturbado com a situao, ainda que fosse passageira.
  - Ouso perguntar o nome da pessoa que lhe falou de mim. Pode ser algum de meus inimigos...
  - No. No foi um de seus inimigos, milorde. Acredito que seja um de seus melhores amigos.  uma pessoa de confiana.
  O visconde tentou lembrar qual entre os seus amigos poderia conhec-la.
- S pode ser o Bertram - arriscou.
  - Oh, no! No conheo bem seu primo, mas ele  cavalheiro demais para sair por a fazendo comentrios maldosos, ao contrrio de certas pessoas que do sua opinio 
sem conhecer as circunstncias nem
as pessoas envolvidas.
  O visconde mostrava-se cada vez mais irritado. Ser que ela estava fazendo algum tipo de brincadeira? Essa era a ltima vez que danava com uma amiga da tia, prometeu 
a si mesmo.
    Sei que provavelmente no simpatiza comigo por causa do comportamento de Lydia...
  - De jeito nenhum, milorde - interrompeu ela. - No o culpo pela fuga de sua noiva.
Mesmo assim, deve ter ficado chocada quando soube do acontecido, confesse.
  - Fiquei chocada, mas no terrivelmente perturbada - assegurou ela, tranquilamente. - Surpreende-me que algum como Francis, um caipira e joo-ningum, como algumas 
pessoas maldosas o chamaram, pudesse roubar a eleita de um dos deuses da corte. E espero que no fique to desiludido com a experincia a ponto de no voltar a entregar 
seu corao a nenhuma outra mulher.
  - Eu estava errado, srta. Whitmore, o problema no  antipatia.
A senhorita me despreza. Por qu?
  - Fui injusta, milorde. Perdoe-me. Normalmente, meu comportamento no  to terrvel. Ouso dizer que um cavalo  mais afvel e simptico do que eu. Provavelmente 
o senhor vai continuar com a impresso de que sou uma solteirona sem atrativos e sem modos.
  - A senhorita estava na biblioteca! - exclamou ele, finalmente reconhecendo as prprias palavras.
  A essa altura, eles tinham desistido de danar e permaneciam em p no meio do salo, se encarando, esquecidos dos outros casais que rodopiavam em volta.
- Estava consertando meu vestido, atrs do biombo chins.
  - O que lhe deu a oportunidade de bisbilhotar a nossa conversa, no?
  - No esperava que algum fosse entrar na biblioteca para beber, no meio de um baile.
  - Se a senhorita se esforar mais um pouco, quem sabe no acaba aprendendo o que as pessoas podem ou no podem fazer aqui em Londres?
  - Posso ser uma caipira, lorde Peregren - ela no ia deixar aquela ofensa sem resposta -, mas reconheo pessoas com boas maneiras quando as vejo, e o senhor no 
 uma delas.  verdade - continuou, impedindo-o de falar - que no sabia que eu estava l, mas isso no o autoriza a ofender pessoas que no conhece. Se Lydia tivesse 
casado com o senhor, teria as minhas sinceras condolncias. Essa moa teve boas razes para preferir Francis. Nunca em minha vida tinha encontrado uma pessoa to 
mal-educada e arrogante!
  Tendo falado o que queria, Vanessa marchou para a sada, deixando o visconde furioso, em p no meio do salo.

Capitulo III

  - Decidi que voc precisa sair de Londres, Vanessa - comunicou a sra. Whitmore no caf da manh, no dia seguinte. - Quase tive um ataque apopltico quando a vi 
discutindo com o visconde. Tive de to
mar um calmante para conseguir dormir esta noite.
  - Ns no estvamos discutindo - Vanessa explicou, enquanto enchia uma xcara de caf -, apenas tnhamos opinies diferentes sobre o mesmo assunto.
-        Por que voc discutiu com ele, Nessa? - quis saber Clara.
Ela parecia uma boneca de porcelana de Dresden, sentada ao lado da me, com uma expresso petulante no rosto.
  Voc nunca saber, se depender de mim, pensou Vanessa, enquanto espalhava a gelia na torrada. Que mulher, em s conscincia, gostaria que os outros soubessem 
que o ilustre visconde Peregren a tinha chamado de solteirona? "Nunca!"
  - Ele fez comentrios desagradveis sobre Francis - ela explicou com uma meia mentira. - Resolvi defend-lo, j que os dois nem se conheciam, e acabamos nos excedendo.
  - Comentrios desagradveis? - estranhou Clara. - Voc sempre foi a primeira a dizer coisas horrveis do Francis! Que ele no  inteligente, que  um homem aborrecido...
  - Eu sei. Mas uma coisa  quando eu falo isso, e outra quando um estranho faz esse tipo de comentrio maldoso.
- Ele no  um estranho...  um visconde! E isso  bem diferente.
  - Ela est certa - concordou a me. - E, depois, o visconde tinha uma boa razo para dizer o que disse sobre Francis. Apesar de ser louvvel de sua parte defend-lo, 
no entendo po que o fez, j que foi abandonada por ele. Ns ficamos numa situao difcil com o que voc fez.
  Como nem a me nem a irm tinham coragem de olh-la de frente, Vanessa sabia que algo errado estava por vir.
    Situao difcil? Como assim, mame? - perguntou suavemente, procurando se manter calma.
 - Estou tentando arrumar um bom casamento para sua irm, e a temporada mal comeou. Esperava que Clara conseguisse um ttulo de nobreza, algo que no aconteceu 
com voc na sua poca de debu-tante - disse a me, sem pensar -, j que no  bonita o suficiente. Ao ouvir aquilo, o estmago de Vanessa apertou-se de tristeza, 
e ela perdeu completamente o apetite.
 - Haver outras festas - continuou a sra. Whitmore, indiferente aos sentimentos da filha mais velha -, e sua irm ter boas chances...
coisa que no acontecer se voc continuar discutindo com o visconde Peregren. A influncia dele na corte  enorme.
- No me importo com isso - respondeu Vanessa, num murmrio.
 - Pois deveria! - exclamou Clara. - Sir Giles disse que o visconde  um dos homens mais ricos da Inglaterra,  membro do Four Hors Club, alm de ser um exmio atirador 
e espadachim. Voc tem sorte de ser mulher, se no ele a teria desafiado para um duelo.
-  o homem mais exasperante que j conheci!
 - Voc  muito egosta, Nessa. Se eu no conseguir conquistar sir Giles, a culpa ser sua!
 - Eu, egosta? - Vanessa no acreditava no que tinha ouvido. - Quem desistiu da prpria mesada para que voc tivesse mais dinheiro para comprar vestidos? Quem convenceu 
papai a nos deixar vir para Londres? Ele no queria gastar dinheiro com esta viagem e s concordou que vissemos porque encontrei este lugar por um preo irrisrio!
 - Grande coisa! Eu jamais poderei receber um amigo nesta casa - refutou Clara, jogando os bonitos cabelos para trs.
- Por favor, crianas. No quero ver ningum brigando.
 - Se eu no conseguir fazer um casamento brilhante, a culpa ser toda dela, mame!
- Como pode me culpar por uma coisa dessas?
 - Sir Giles  amigo ntimo de Peregren. Ele nunca proporia casamento para a irm de uma mulher que o visconde detesta.
 - Ento, talvez seja melhor voc no casar com um homem que faz tudo o que o milorde quer. J imaginou que tipo de marido ser?
  Clara levantou-se, jogou o guardanapo em cima do prato e, antes de sair dramaticamente da sala, voltou-se e disse:
  - Voc  impossvel e insuportvel, Nessa! Mame, a senhora precisa proibi-la de permanecer em Londres. Ela vai fazer de mim uma solteirona, tambm!
  - Se pelo menos voc tivesse brigado com algum menos importante, Vanessa... - suspirou a sra. Whitmore. - Odeio ter de lhe pedir isto, mas para sua irm ter um 
mnimo de chance quanto a um bom casamento, vai ter de sair da cidade. Pense em Clara.
  Pelo jeito, ela era a vil daquela histria. Vanessa empurrou o prato e levantou-se.

  - Parece que todo mundo aqui s pensa em Clara, a comear por ela mesma. E imaginar que foi por causa dela que terminei nesta confuso.
 - O que quer dizer com isso? EIa nem conhece lorde Peregren, o que seria bom se tivesse acontecido. J que ele no  mais noivo de Lydia, precisa de uma noiva...
  - Mame, no lembra como insistiu para que eu ficasse noiva, pois assim Clara poderia ser apresentada  corte nesta primavera?
  - Eu fiz isso? Mas ns no a foramos a aceitar Francis! E, depois, voc no tinha nenhum outro pretendente.
  -' Mame, eu sei. - Vanessa gostaria de no ter de ouvir aquele tipo de comentrio. - Bem, se querem tanto que eu v embora, ento vou.
  -        Vai mesmo? Minha querida, voc sempre foi uma pessoa sensa ta. Clara ficar to agradecida!
  Vanessa sabia que no iria receber nenhum agradecimento da irm, mas talvez fosse melhor para todos se ela sasse de Londres. Para onde iria?, pensou amargurada, 
lutando contra as lgrimas.
  Uma carruagem de aluguel parou na praa St. James e dela desceram dois cavalheiros. O primeiro, lorde Peregren, dirigiu-se rapidamente para a casa. Logo atrs 
vinha seu irmo, Reginald. A aparncia deles era terrvel.
  Dunne, o mordomo, manteve-se impassvel enquanto recebia os chapus e luvas dos dois. Se fosse um homem dado a jogos de azar, teria apostado seu ms de salrio 
como o visconde tinha passado a noite e parte da manh em seu clube, o White's.
  Na verdade, o mordomo quase acertara o palpite. Depois do baile nos Chumley, o visconde tinha ido beber no White's, e, logo em seguida, fora para o Watier's onde 
jogara imprudentemente e perdera uma soma considervel de dinheiro. J ia desistir do jogo quando recebera um recado urgente de seu irmo, que se encontrava num 
bairro de m fama.
  -        Como pde ir parar naquele buraco, Reg? - perguntou-lhe lor
de Peregren assim que sentou numa poltrona, na biblioteca.
  Reginald sorriu. Poderia ser considerado irmo gmeo do visconde, nao fossem os dez anos de diferena existentes entre eles e a expresso sorridente e despreocupada 
do mais novo.
    Dispense-me dos sermes, Perry. A ressaca est me matando. Minha cabea di como o diabo.
E o que merece. Como pode agir como um adolescente? - peloo que ouvi falar, voc conheceu muitos lugares daquele tipo h alguns anos. E, depois, aprendi minha lio 
- Reg respondeu, sor" rindo. - No voltarei mais l.
  O lorde no acreditou muito na promessa do irmo, pois j tinha ouvido outras parecidas antes. Desde que ele tinha terminado seus estudos, em Oxford, parecia que 
o tdio o dominava. Era um jovem inteligente, de vinte e dois anos, e precisava ter uma ocupao. Tinha pensado em mand-lo para o Exrcito ou a Igreja, mas havia 
chegado  concluso de que seu irmo era alegre e vibrante demais para se adaptar a qualquer uma das duas carreiras. Esse ltimo pensamento o fez sorrir.
  - Graas a Deus, um sorriso! - exclamou Reg, e resolveu mudar de assunto. - Como foi o baile de tia Liza? Eu tinha prometido aparecer, mas... Vou ter de pedir-lhe 
desculpas.
- Foi interessante. Bertie est apaixonado de novo.
  - De novo? - O jovem no se conteve e soltou uma gargalhada.
- Algum conveniente desta vez?
-  claro que no! Uma cantora de pera.
  - Pelo menos os meus vcios so melhores. No corro atrs de atrizes e danarinas.
- S espero que no se apaixone por uma certa dama que conheci...
- Quem? - perguntou Reg, intrigado.
  - A srta. Whitmore. No consigo lembrar o primeiro nome dela.
Victoria. No. Valeria. No.  Vanessa!
  - Voc  um demnio! Lydia o abandonou ontem e j tem um novo caso.
  - No! - O visconde saltou, parecendo ter sido atingido por um raio. - Ela no  minha nova paixo! E se algum dia eu disser que estou apaixonado por ela, pode 
me internar num hospcio. Nunca vi uma mulher to cheia de opinies, cabea-dura, briguenta e mal-educada.
  Imediatamente, Reginald quis saber o que ocorrera e no pde deixar de rir quando soube da histria toda. Ento, comentou:
  - Foi vergonhoso da sua parte dizer o que disse na frente de uma senhora. Ela provavelmente ficou magoada. , mesmo, muito feia?
  - Acontece que eu no tinha ideia de que ela estava na biblioteca.
Bertie diz que  uma mulher passvel. Pode ser que isto ocorra nos bons dias dela...
- Voc deveria pedir desculpas  moa...
- Nunca! Jamais! No que se refere a mim, ela  caso encerrado.
  Na quarta-feira  tarde, Vanessa saa de uma das melhores livrarias de Londres, juntamente com sua criada pessoal. Carregavam, cada qual, alguns livros: uma coleo 
de poesias de Byron, a obra mais recente  de Jane Austen e, ela no tinha resistido, o ltimo livro de sir Walter Scott.
  - Vocvai acabar com os seus olhos - repreendeu a velha criada, com a familiaridade que a longa convivncia permitia.
  -  Se isso acontecer, posso sair passeando por ai de culos - respondeu Vanessa, erguendo o narizinho.
-        No brinque com essas coisas, menina!
  Polly no ia deixar ningum fazer pouco de sua patroa, nem ela prpria Uma vez tinha brigado com a criada de Clara porque ela repetira um comentrio maldoso da 
patroa sobre a irm. Ela criara Vanessa desde pequena e a adorava.
- Talvez devesse ter comprado aquele romance para a minha irm.
- A senhorita  boa demais para ela! E mais bonita, tambm!
  - Querida Polly - Vanessa olhou-a com carinho e a teria abraado, se pudesse -, no deve dizer essas coisas: fico convencida. Agora, temos de pensar num lugar 
onde eu possa me esconder at que Clara consiga o seu baro.
 Enquanto a carruagem de aluguel as levava de volta para casa, discutiram o assunto. A velha criada estava determinada a acompanh-la.
  Elas poderiam voltar para a casa dos Whitmore, em Wiltshire, mas Vanessa achava que no aguentaria o pai falando sobre cavalos o tempo todo. Talvez pudessem ir 
visitar tia Margaret, em Paris, mas j fazia cinco anos que no se viam e no sabia como ela receberia a ideia.
  Por incrvel que parea, quem achou a melhor soluo foi sua me, que conversava com uma amiga quando Vanessa chegou em casa.
  - Nessa, venha aqui! - chamou a sra. Whitmore, da pequena sala de visitas. - A sra. Bender teve uma ideia brilhante.
  - Um novo tnico milagroso? - A jovem sorriu e cumprimentou a amiga da me.
 As duas podiam passar horas conversando sobre remdios, pomadas, unguentos, tnicos e cordiais.
  -        No, no . Sente-se e escute. Contei para a sra. Bender o seu problema... Ela vai viajar e gostaria que voc a acompanhasse.
_ desculpe-me, madame, mas para aonde a senhora vai?
    Vou visitar vrias amigas, no interior. Provavelmente a viagem vai durar  uns quinze dias, e seria agradvel ter a sua companhia.
- Mas o que a senhora  vai fazer durante esse tempo e onde ficar hospedada?
- Tenho alguns compromissos. No ficaremos em estalagens, no se preocupe - garantiu a sra. Bender. - Fui convidada para me hospedar na casa de conhecidos. Lady 
e lorde Michelbain fazem questo de que eu fique com eles pelo menos uma vez por ano.
- No  a soluo ideal, minha filha?
  -  muito simptico a sra. Bender me convidar, mame, mas no quero incomodar, dar trabalho...
  - Minha criana, ningum se incomodar se eu levar uma amiga.
E ficarei feliz em ter a sua companhia, pois assim a viagem ser mais interessante. Estava contando a sua me que detesto viajar sozinha, e ela sugeriu voc como 
acompanhante.
  -  a resposta para os nossos problemas. Uma estar ajudando a outra. E voc ficar hospedada em timas casas...
  - E estarei longe de Londres, fora do caminho de Clara, certo? -interrompeu Vanessa, sem esconder a mgoa.
  - Por que voc tem sempre de ser to difcil? - A sra. Whitmore parecia confusa.
  - No sei, mame - respondeu a filha, sinceramente. - Algumas vezes penso que foi uma maldio que algum jogou em mim quando eu era beb.
  - Tenho certeza de que no foi isso, pois eu teria ficado sabendo se algum o tivesse feito. E no tenho a mnima ideia do que voc acha to engraado para estar 
rindo! - exclamou lady Whitmore, desconfiando que a filha brincava com ela.
  - Desculpe-me. - Os ombros de Vanessa at tremiam com o riso.
Ela virou-se para a sra. Bender e disse: - Obrigada pelo convite. Ficarei feliz em aceit-lo.
-        Tomarei conta de voc como se fosse a minha prpria filha!
A jovem no ficou contente com aquela promessa. Vira a filha da sra. Bender uma vez: era uma mocinha tmida e sem personalidade. Vanessa tentou vencer o desnimo 
e pensar nos pontos positivos daquela situao. Pelo menos no teria de enfrentar a lngua afiada das faladeiras de Londres.

Capitulo IV

Na semana que se seguiu o visconde teve dias cheios, especialmente porque Bertram resolveu que a melhor cura para um amor perdido era um novo amor.
           No quero mais saber de jovens com cara de professora! - comunicou acidamente a Bertie e Reg, enquanto voltavam para casa depois de mais um baile. - Mesmo 
porque esta ltima que vocs
arrumaram ria e falava at pelos cotovelos.
 - Millicent no tinha cara de professora. Ela tem apenas vinte anos e  uma pessoa alegre - protestou o primo.
 - Pois pode ser alegre com outro - declarou p lorde. - Bertram, faa-me um favor, pare de me arranjar encontros. No posso ir a lugar algum, sem que voc aparea 
com uma jovem para me conhecer!
 - No o leve a srio! - insistiu Reg. - Quando acharmos a mulher certa, vai nos agradecer.
  O visconde gemeu diante daquele absurdo. Durante as noites no tinha paz, e durante o dia tinha problemas para resolver com relao a suas propriedades. Numa delas, 
o administrador tinha fugido com a renda de metade do ano. Ele deveria ir resolver esse problema pessoalmente. Em geral, no pensaria duas vezes para sair da cidade, 
mas a qualquer momento seu amigo de infncia, herr Johann Schiller, deveria chegar a Londres, vindo de Viena. No se viam havia alguns anos, desde que ele fora morar 
na ustria.
  Com tudo o que estava acontecendo, o visconde no ficou feliz quan-oo, ao retornar para casa na tera-feira de manh, encontrou o sr. Hunnicutt, acompanhado da 
esposa, esperando-o.
- Lord Peregren , recebemos notcias terrveis sobre Lydia - despejou o velho senhor assim que ele entrou.
- Fico imaginando porque acha que continuo interessado na mulher que me abandonou.
- Mas ela no fez isso!
- No!
- Ela no o abandonou. Por isso estamos aqui- Meu irmo foi  at Gretna procur-la e no a encontrou.
- Talvez  eles tenham viajado em lua-de-mel...
  - Milorde, acho que minha filha deve estar jogada em algum lugar na Esccia - disse a sra. Hunnicutt, que afinal resolveu falar pela primeira vez. - Receio que 
a tenham assassinado. Meu instinto de me diz que algo ruim aconteceu.
  - A senhora tem lido muitas novelas de mistrio? Como no sou me, entendero por que no acredito nessa histria.
  - Milorde, como pode fazer brincadeiras sobre este assunto? - lamentou-se o pai. - Viemos at aqui para contar-lhe notcias srias sobre a nossa Lydia...
  - Pois no deveriam ter vindo. Sua filha  caso encerrado no que se refere a mim.
- Ento, o senhor se recusa a ajudar-nos?
- Ajud-los?
- A encontrar Lydia!
  - Ah,  por isso que vieram aqui. No tinha notado que queriam a minha ajuda.
  - Milorde, se o senhor no nos ajudar - a mulher ficou vermelha -, no temos a quem recorrer.
  - Madame, a senhora acredita que tenho de ajud-los a procurar sua filha voluntariosa?
  - Ela no  voluntariosa! Quer dizer, ns achamos que no . Ela no fugiu!
- Sr. Hunnicutt, foi o senhor mesmo quem me deu a notcia.
  - Eu sei. Mas parece que houve um engano. Lydia escreveu que estaria em Gretna, casada com o sr. Fabersham. Mas no est l. Talvez tenha sido raptada e ele a 
tenha forado a escrever aquela carta para enganar-nos.
- Realmente? E eu aqui pensando que tinha sido abandonado.
  - No brinque, senhor. Ela no o fez por querer - defendeu a mulher.
  - Milorde - interveio, cerimoniosamente, o sr. Hunnicutt -, no temos dinheiro para fazer uma investigao.
  O lorde suspirou. Estava comeando a achar aquele assunto desagradvel. Na verdade, estava feliz por no ter se casado, seria terrvel ser parente daquele pessoal 
sem carter.
-        Muito bem, eu pago as despesas de uma investigao.
  A sra. Hunnicutt caiu de joelhos e abraou as pernas do visconde, que tentava se libertar, comeando a achar que agarrar-se s pernas dos outros era caracterstica 
da famlia.
- Por favor, minha senhora, largue as minhas pernas.
- O senhor  to bom! Nem sei como agradecer...
  Se o visconde nos der dinheiro, posso contratar os investigadores imediatamente - disse o sr. Hunnicutt.
  Lorde Peregren no tinha a menor inteno de pr dinheiro na mo daquele homem. Estava achando aquela histria muito esquisita. Poderia, quando muito, ele mesmo 
encarregar um investigador da descoberta do paradeiro de Lydia, pois desconfiava que qualquer soma que entregasse ao velho seria uma tentao, uma vez que ele se 
encontrava em m situao financeira.
- No se preocupe - disse. - Eu mesmo trato disso.
  - Por favor, no quero que minha filha seja tratada como uma criminosa - implorou a mulher, chorosa.
- Garanto que no vou deixar que isso acontea.
  Ento, temendo que o casal nunca mais sasse dali, ele chamou o mordomo e pediu que os acompanhasse at a porta, depois de despedir-se deles.
 Ao ficar s, comeou a imaginar quem poderia contratar para sair  procura de Lydia, quando teve os pensamentos interrompidos pela chegada do irmo, todo amarfanhado.
  - No dormi a noite toda - disse lorde Reginald, esfregando os olhos vermelhos. - O jogo no Watier's  timo!
  - Parece-me que devo me dar por feliz por voc ter ido l e no a um desses bares de m reputao, no ?
  - Segui os seus conselhos - respondeu o jovem, com a maior tranquilidade.
  - Escute, depois que se tornar apresentvel, me procure na biblioteca. Tenho um problema e queria que me ajudasse a resolver.
  Depois de meia hora o irmo se apresentou, com outra aparncia. Banho tomado, roupas limpas e bem passadas, com o cansao dissipado pelas energias da juventude, 
que parecem inesgotveis.
-        Pronto, meu irmo. Algum problema? - perguntou.
Sente-se. Tenho uma misso para voc.
E mesmo? - Os olhos do jovem brilharam. - Johann chegou?
    No  isso... - respondeu o visconde, e contou rapidamente a situao da Lydia Hunnicutt. Quando terminou, disse: - Acho que devo verificar, apesar de haver 
a possibilidade de o sr. Hunnicutt ter inventado essa histria.
  - Por que faria isso? Se voc tivesse casado com a filha, a situaao financeira dele estaria muito melhor.
  - No sei - respondeu o visconde, encolhendo os ombros. - Talvez os credores estejam pressionando.
- E onde eu entro nessa histria? - quis saber Reg.
  Peregren observou o irmo por alguns segundos. Apesar de ser jovem e um pouco irresponsvel, Reginald era quase to bom com pistolas e espadas quanto ele prprio, 
alm de ser de inteira confiana.
  - Preciso de algum que v atrs de Lydia. A famlia dela no quer que o caso vire um escndalo, e eu tenho de permanecer em Londres para esperar Johann. Preciso 
que voc v atrs dos dois fugitivos e me avise quando descobrir alguma coisa. Desconfiam que eles no estejam nem perto da Esccia. Voc poderia comear por Penelope
Horne, a amiga de Lydia. Pode checar com a famlia Fabersham, tambm. E pode ser que os Whitmore tenham alguma informao.  desnecessrio dizer que ficarei lhe 
devendo um favor.
  - Bem, Perry, ontem  noite perdi uma soma considervel no jogo - Reg contou, e parecia envergonhado. - E quando ningum acei
tou minha palavra de que pagaria a dvida, tive de dar meu anel de rubi.
  - Aquele que papai lhe deu? - perguntou lorde Peregren, engasgando com as prprias palavras. - Era o anel favorito dele. Por que voc no me pediu o dinheiro, 
como sempre faz?
  - No gosto de ter sempre de pedir dinheiro,  desagradvel... No me importaria tanto, se no tivesse perdido para Cyril St. Charles.
Imagine que ele disse que o anel combinava com a cor do colete que estava usando, o bandido!
  - Aquele anel est na famlia h anos. Ache Lydia que o conseguirei de volta para voc.
  - Eu concordo com isso, Perry, mas acredito que ter de arranc-lo do dedo de Cyril. O que vai fazer se ele no quiser se separar do anel?
  - Pode deixar que o consigo de volta - disse o visconde, rindo -, nem que arranque o dedo dele junto.
  A primeira parada de Reginald Hammet foi na casa da srta. Horne, que ficou encantada com a visita e confirmou o que ele j sabia. Entretanto, como no tinha lido 
a carta, no pde lhe dar nenhuma outra informao.
- A no ser... Ultimamente ela parecia diferente.
- Diferente como?
  - Tinha muitas dores de cabea - respondeu a srta. Horne enrugando a testa, como se estivesse tentando lembrar alguma coisa. -Sempre teve tima sade antes. E, 
de repente, passou a se interessar
por outras lnguas... italiano, alemo e russo.
  Por mais que tentasse, o jovem lorde no chegou a fazer nenhuma ligao entre estes fatos e o desaparecimento de Lydia. Fabersham no
tinha famlia em Londres. E a me de Vanessa, que ele procurou em seguida, no sabia de nada.
           Alis - declarou a sra. Whitmore para o seu visitante inesperado , agradeceria muito se o senhor no tocasse neste assunto.
           Entendo seus sentimentos, madame, mas  de extrema importncia para o meu irmo, e para a sua filha, que eu encontre o casal.
Ser que poderia conversar com a srta. Vanessa?
  -        Ela no se encontra em Londres - declarou a senhora, com a cara fechada.
  "Se a filha for parecida com a me", pensou, " entendo muito bem a animosidade de Perry em relao a ela."
  Como no tinha descoberto nada em Londres, ele decidiu ver o que acharia em Bath. O visconde estava disposto a dar-lhe uma boa quantia de dinheiro e um guarda-roupa 
completo de viagem, o que o entusiasmou ainda mais.
  Vestido na ltima moda e montando o cavalo preferido do visconde, partiu para a cidade de Bath. Apesar de ele no querer admitir isso para o seu irmo, j vinha 
comeando a ficar entediado com os divertimentos de Londres. Pelo menos, agora, tinha alguma coisa mais interessante para fazer.
  Infelizmente, no conseguiu descobrir nada naquela famosa estao de guas. A tia de Lydia quase desmaiou quando soube quem ele era, e demonstrou a maior boa vontade 
em ajud-lo. No entanto, nem ela nem seus conhecidos souberam dar qualquer notcia da jovem fugitiva.
  Resolveu ir at Whiltshire e soube que o dr. Fabersham, um mdico esforado, no tinha a mnima ideia do que estava acontecendo, pois no via o filho h um ano. 
Ficou imensamente chocado quando soube que Francis tinha fugido para casar.
  -        Meu filho no faria algo desse tipo - garantiu o velho doutor.
- Se fez,  porque mudou muito. - Um sorriso comeou a surgir em seu rosto. - Fugiu com a noiva de um visconde? Isso exigiria uma dose de coragem que nunca imaginei 
que ele tivesse!
O senhor tem alguma ideia de onde ele est?
-        Nenhuma - garantiu o mdico, balanando a cabea.
  Cansado e sem vontade de voltar para Londres, lorde Reginald resolveu passar a noite em uma estalagem. Na manh seguinte seguiria para Brighton, onde Lydia deveria 
estar, se no tivesse fugido. L, tambm, no conseguiu descobrir nada.
Como no sabia o que fazer e j era hora do almoo, parou em uma casa que servia refeies. Estava lotada. Entretanto, isso no se devia ao horrio, como descobriu 
mais tarde, e sim ao fato de que tinham pego duas ladras que, comentavam, haviam roubado jias em vrias casas da vizinhana. O dono do estabelecimento tinha mandado 
chamar o juiz local. Enquanto isso, as duas se encontravam detidas numa sala.
  -        Elas no so ladras comuns - comentou um dos observadores.
- Parecem ser nobres. V l e d uma olhada - insistiu o homem para o jovem lorde Hammet.
  Ele no pretendia ir olhar nada, o que queria era algo para comer. Estava a caminho da sala de refeies quando ouviu uma voz gritando do outro lado.
  -        Lorde Peregren, venha at aqui. Preciso urgentemente de sua ajuda!
  Ao virar-se, viu pela porta de uma sala uma jovem imobilizada por dois homens. Junto dela encontrava-se uma senhora miudinha, com ar assustado, que lembrava um 
passarinho. Outras duas, uma senhora emproada, usando um turbante com pedrarias, e outra, que parecia uma criada de quarto, olhavam a cena.
  -        Por favor, diga e a eles que me conhece, milorde! - pediu a jovem.
Pelo jeito, ela conhecia seu irmo, pensou o jovem lorde.
  - O senhor no pode ser to desumano e me ignorar s por causado que aconteceu no baile de lady Chumley. Eles esto me acusando de ser uma ladra.
  - Voc  uma ladra - declarou a mulher com o turbante. - Assim como a sua amiga a. E pensar que as hospedei na minha casa.
Vocs queriam as minhas safiras.
  Enquanto a mulher falava, a jovem livrou-se dos homens que a prendiam e correu para sir Reginald. Quando chegou perto dele, parou abruptamente.
- Voc no  o visconde - sussurrou.
  - Sou o irmo dele - respondeu o jovem Hammet, baixinho. -E a senhora, quem ?
  - Vanessa Whitmore - ela mal teve tempo de responder, antes que os homens a pegassem e levassem de volta.
- O juiz chegou - gritou uma voz.
Um homem encorpado entrou no aposento.
  -        Por favor, todos voltem para os seus afazeres - ordenou, enquanto enxugava a testa com um leno.
Ele virou-se e viu que ningum tinha se mexido.
  -        Vocs no me ouviram? - rugiu, e os curiosos saram correndo da sala. Voltou-se para o jovem lorde, observou-o e perguntou : - O senhor tem algo com esta 
histria, sir?
  - Parece que sim. Conheo esta jovem senhorita - Hammet indicou Vanessa com a cabea.
- Oh? E quem  o senhor?
Eu - ele no tinha certeza se no estava se metendo numa confuso - sou o Honorvel Philip Hammet, quarto visconde Peregren!

Capitulo V

Por um momento, Vanessa no acreditou no que tinha ouvido. Depois, uma sensao de alvio tomou conta de todo o seu corpo, e algo que nunca tinha imaginado sentir 
ao ouvir aquele nome: a garganta seca, o corao batendo mais acelerado.
  Nunca pensara que ia se meter em tal confuso. Estava viajando h uma semana com a sra. Bender e tinham sido bem recebidas em todos os lugares. Descobriu que sua 
acompanhante era muito considerada no que se referia a poes e tnicos. Por isso, a maioria das conversas versavam o tempo todo sobre esse assunto, o que aborrecia 
Vanessa profundamente, pois desde pequena ouvia a me falar em doenas e remdios. Entretanto, estava gostando da viagem, pois apreciava a paisagem e os jardins 
das manses que visitavam. Mesmo assim, apesar de tudo estar sendo agradvel, tinha chegado  concluso de que no ia aguentar passar quinze dias na companhia da 
sra. Bender. Por isso, tinha mandado uma carta para sua tia na Frana, sondando quanto  possibilidade de uma visita.
  Alguma coisa estava errada naquela viagem com a sra. Bender. Ela no saberia definir exatamente o que era. Tinha at discutido a questo com Polly, que normalmente 
era uma pessoa prtica e que no acreditava em intuio.
- Essa senhora  muito estranha - dissera Polly.
- Mas  amiga de minha me.
- O que no quer dizer nada - respondera a criada.
  A estada delas com os Devlin tinha sido agradvel. A dona da casa ficara feliz por aprender um novo tratamento para gota, do qual tinha ouvido falar, e a sra. 
Bender defendera o uso dos tnicos em qualquer tratamento. Tudo correra muito bem, e na tera-feira de manh as duas damas e Polly haviam partido, de carruagem, 
para a prxima etapa da viagem.
  Menos de uma hora mais tarde, tinham sido alcanadas por dois lacaios dos Devlin, que as acusavam de ter roubado o colar de safiras de sua patroa. Furiosas acusaes 
e defesas foram se alternando. Quando Vanessa demonstrara determinao de ir embora, um dos criados a segurara, e Polly dera uma pancada na cabea dele, com a sombri-
nha, em defesa da patroa. Assombrados, os criados haviam ficado sem ao.
  Mas a vitria das mulheres durara pouco. A prpria sra. Devlin sara em perseguio das "ladras" e as encontrara almoando. Mais acusaes e defesas haviam sido 
trocadas. E o proprietrio da estalagem, preocupado com o que poderia acontecer ali, resolvera mandar chamar o juiz.
  Estavam nesse impasse quando surgira o jovem Hammet. No momento, o maior desejo de Vanessa era livrar-se daquela situao embaraosa.
- Voc  o visconde Peregren? -perguntou o juiz, incerto.
  - Evidente - respondeu o jovem lorde, displicente, como j vira o irmo fazer.
- E afirma que esta senhorita  sua amiga?
  - Sim. A ltima vez que a vi foi no baile de minha tia Eliza, no foi, srta. Whitmore?
  - Pode ser que at seja verdade - interveio a sra. Devlin, meneando a cabea com o fantstico turbante e as mos na cintura -, mas nem um visconde vai salv-la 
da cadeia.
  - Qual  a acusao? - indagou o jovem Hammet, com ar de tdio mortal.
  - Roubo! - anunciou a senhora com um sorriso satisfeito. - Elas roubaram as minhas safiras. Um presente do meu marido.
  - Isso  mentira! - exclamou Vanessa. - E se as safiras eram to preciosas, por que as deixou num lugar onde poderiam ser roubadas?
- Porque no esperava que vocs fossem ladras.
  - Talvez eu no tenha deixado claro que a srta. Whitmore  minha amiga - falou lorde Hammet num tom cortante, que deixou a mulher sem fala.
  - O que a senhorita tem a dizer quanto a isso? - perguntou o juiz, aproveitando o silncio.
  -  um absurdo. No roubei safira nenhuma, se  que esta mulher tinha alguma!
E claro que tinha. Meu marido me deu o colar.
-        Onde est o seu marido? - quis saber o juiz.
Em York. Mas  s revist-las e...
  -        Se algum tocar na srta. Whitmore ou em suas acompanhantes, vai ter de acertar contas comigo - declarou o jovem lorde, com uma calma olmpica.
    Mas o senhor no pode impedir estes homens de cumprirem seus deveres. No importa quo poderoso seja, milorde!
No  o que pretendo. O que gostaria de evidenciar  que a senhora causou uma imensa confuso, alm de acusar minha amiga de ladra. E quando questionada com relao 
a uma prova da existncia das tais safiras, no pde fornec-la. Creio que elas no existem, que  apenas uma inveno de sua parte. No deveramos perder mais tempo 
com esta histria.
  - Nunca em minha vida ouvi... - recomeou a mulher, assim que recuperou a fala.
- Por favor, madame, v para casa - pediu o juiz.
  - Mas o senhor vai deix-las fugir com as minhas jias! - gritou a sra. Devlin.
- A senhora pode provar que elas existem?
  Quando ela comeou a murmurar palavras incompreensveis, o juiz pediu a um guarda que a conduzisse para fora.
  - Esta mulher est sempre reclamando de alguma coisa. Peo que nos desculpe, madame. - O juiz fez uma reverncia respeitosa para Vanessa e foi embora.
  - Voc foi excelente. Quase me convenceu de que era Peregren -comentou ela, assim que ficaram a ss. - A semelhana entre vocs
 admirvel! E eu nem sei seu nome.
O rapaz se apresentou, com um cumprimento de cabea:
  - Reginald Hammet, a seu dispor. Meus amigos me chamam de Reg - declarou, com um sorriso.
  - Bem, senhor, s posso agradecer pelo que fez - disse Vanessa.
Em seguida, comentou, rindo: - A sra. Devlin no teve nenhuma chance.
- Aposto como ela no sabe a diferena entre safiras e rubis.
- Ainda bem que o senhor chegou. Eu estava ficando com medo.
  - Estou convencido de que nada a amedronta, senhorita. Meu irmo me contou a... hum... a sua ateno no baile de tia Liza.
  - Bem, acho que no posso mais continuar zangada com o visconde Peregren: o senhor me salvou de uma situao delicada. Vamos considerar que naquela noite ele estava 
de mau humor por causa de Lydia.
  Foi ento que o lorde se lembrou de sua misso, e contou a Vanessa por que estava ali.
  - Quer dizer que esto em dvida quanto ao que realmente aconteceu? - perguntou ela enquanto comiam.
  - Certo. E como Perry no podia sair de Londres, resolveu me despachar atrs de pistas. Mas at agora no descobri nada.
  Enquanto pensava sobre o assunto, Vanessa saboreou em silncio o delicioso frango assado. Se Lydia e Francis no haviam se casado, ser que continuava noiva dele? 
E lorde Peregren, de Lydia? Ento, perguntou ao jovem lorde o que achava.
  No tenho a mnima ideia - respondeu ele, enquanto terminavam a sobremesa de morangos. - Para onde as senhoras vo, ao sair daqui?
         para a casa da condessa Frambot - respondeu a sra. Bender.
- Fica em...
         Desculpe, madame - interrompeu Vanessa, com delicadeza - mas no vou continuar a acompanh-la.
         O que quer dizer com isso, minha criana?
         Vou para a Frana, visitar minha tia.
  Ela tomara a deciso depois dos ltimos acontecimentos. Planejara ir dali a alguns dias, mas por que no j?
-        E tem dinheiro para a viagem? - indagou a senhora.
 -        No se preocupe. Tenho dinheiro, sim, e Polly vai comigo, logo, no haver problema. Mas como j  muito tarde, partiremos apenas amanh. Passaremos a 
noite aqui.
  Como no estava ansioso para relatar seu fracasso ao irmo, o lorde resolveu passar o resto do dia com as novas amigas.
  No fim da tarde, a sra. Bender j estava resignada com nova a situao, mas Vanessa sentia-se um pouco culpada por abandonar a velha senhora no meio da viagem. 
E lhe disse isso.
 -        No se preocupe, minha querida. Estou a apenas um dia da casa dos Frambot, e tenho certeza de que arranjo uma nova acompanhante. No se esquea de escrever 
para sua me contando a mudana de planos.
 A srta. Whitmore assegurou  sra. Bender que escreveria, mas s o faria depois que j estivesse na casa da tia.
  Na manh seguinte, enquanto tomavam caf juntos, lorde Hammet contou que suas costas doam, porque a cama era bem menor que ele. A velha senhora ofereceu-lhe uma 
garrafa do Tnico de Lady Sarah, afirmando que ficaria bom antes da segunda dose. Depois, com uma despedida emocionada, ela foi embora.
-        Voc vai tomar o tnico? - perguntou Vanessa ao lorde.
    E claro que no. Provavelmente tem um gosto horrvel. Se quiser, pode d-lo a sua criada. Ela deve gostar.
  Ela guardou a garrafinha, sabendo perfeitamente o que Polly faria com ela, pois detestava beberagens estranhas.
-        Vai voltar para Londres hoje?
    Vou. Apesar de no ter descoberto o paradeiro do seu Francis ou de Lydia.
-Por favor, no  "meu" Francis - protestou Vanessa, enrugando o nariz numa careta. - Fica parecendo que ele  meu cachorrinho de estimao.
  - Srta. Whitmore. - Polly entrou na sala e foi ao encontro deles.
- Desculpe meu esquecimento, mas s me lembrei agora desta carta, que chegou ontem de manh.
  - No  de mame - Vanessa comentou, enquanto abria o envelope. - De quem poderia ser?
"Querida Vanessa,
  Sei que ouvir comentrios estranhos sobre o que aconteceu, mas no acredite neles. Posso explicar tudo. Estou em Paris com Lydia. No nos casamos, e ainda me 
considero seu noivo. Escrevo para assegurar-lhe que assim que resolver meus negcios aqui, voltarei para Londres.
Sinceramente seu, Francis."
  -  de Francis! - exclamou ela, surpresa. - E que coisa mais estranha... Por favor, lorde Hammet, leia.
  -  de Fabersham? - perguntou ele, achando que sua sorte comeava a mudar.
  - O senhor no o conhece, mas eu tenho certeza de que, se tivesse fugido com Lydia, Francis se casaria com ela - comentou Vanessa, pensativa. - No entendo o que 
aconteceu...
  - Acha que ele teria feito isso, mesmo que significasse abandonar a senhorita?
- Faria, sim. Ele  muito honesto e correto.
  - Claro que pode julg-lo melhor do que eu, senhorita. De qualquer modo, vou a Paris para saber o que aconteceu. Acho que vou conseguir ajudar Perry!
  Vanessa observou que, ao ver que podia fazer algo pelo irmo, o jovem lorde se animara e j no tinha o ar abatido e infeliz de antes. Gostaria de conhecer melhor 
a relao entre os dois, to diferente da que havia entre ela e Clara.
  - Sei que est zangada com Perry - comentou lorde Hammet -, mas ele no  ruim. Alm de irmo,  meu melhor amigo. A senhora o conheceu num mau dia, e no era 
inteno dele que ouvisse aquela conversa. Apesar de eu concordar que ele no deveria ter feito comentrios sobre algum que no conhecia.
- Ele no se dignou nem a pedir desculpas!
  - Perry  assim mesmo. Acho at que nunca pediu desculpas para ningum. Em geral, tenta compensar a pessoa de uma outra forma.
Uma vez mandou um par de pneis para Bertie por t-lo chamado de descuidado com as rdeas.

Bem, eu no ficaria satisfeita com isso. Mas vamos pensar em nossa viagem  Frana.
No estamos longe de Newhaven. L podemos atravessar o Canal da Mancha, para Dieppe. Alugamos uma carruagem e seguimos at Paris. Sabe? Na verdade estou feliz com 
o que a sra. Devlin aprontou. De outro modo, nunca a teria encontrado.
           Por favor, no mencione o nome dessa mulher - implorou Vanessa. - Quando penso que aquilo poderia acabar mal!
  Eles chegaram a Dieppe no comeo da noite. Fingindo ser o visconde, lorde Hammet conseguiu facilmente cabinas no barco que fazia a travessia do canal e, j em 
Dieppe, bons quartos numa estalagem de classe.
  Ele sara de Londres com bastante dinheiro, mas j estava quase sem. E, com certeza, iria ter gastos em Paris. Resolveu, ento, escrever para o irmo, contando 
o que acontecera e pedindo que lhe mandasse dinheiro. Ficou olhando para a folha de papel em branco, por alguns minutos. Nem sabia como comear, pois era difcil 
explicar tudo por carta. Decidiu simplificar: contou que ele e a srta. Whitmore encontraram-se a caminho de Paris e que ficara sem fundos, por isso pedia-lhe que 
mandasse uma ordem de pagamento para o Banco de Londres, em Paris, aos cuidados de monsieur Siri.
  Selou a carta e deu-a ao estalajadeiro, pedindo-lhe que a enviassse com a correspondncia da manh.
Certo de que lorde Peregren iria atend-lo, foi dormir, contente por estar se desincumbindo da misso que o irmo lhe confiara.

Capitulo VI

  - Gostaria que falasse com Bertram, Perry - pediu lady Chumley, enquanto tomava ch com o sobrinho. - Qualquer um pensaria que ele  um idiota, se levar em conta 
o jeito como age em relao quela garota.
- Se for a bailarina, tia Eliza, no se preocupe.
  - No, no. Eu mesma resolvi os casos com a bailarina e a cantora de pera. Estou falando sobre a ltima paixo dele, a srta. Rice.
- Srta. Rice? - o visconde perguntou, enquanto saboreava seu ch. -        Espero que no seja outra bailarina.
  - No, ela  respeitvel. E esse  que  o problema. - Passou para o sobrinho um prato com biscoitos. - Se Bertie resolveu cortejar a srio, escolheu a pessoa 
errada. A me dela  rgida demais e no vai aceit-lo. Sabe... no acredito que esse namoro possa vir a dar certo.
  - Ele no me falou nada a respeito. Mas quem sabe? Pode ser at que a pea em casamento, titia.
Lady Chumley quase engoliu um biscoito inteiro.
- Voc acha, Perry? - perguntou, ofegante.
  - Eles poderiam ter um casamento lindo, na igreja de St. George,
e quem sabe logo a senhora teria um netinho...
  - Netos? Adoraria t-los. Que pais no os desejam? Mas nunca pensei que isso poderia acontecer com Bertie... pelo menos, no antes que acontecesse com voc.
- A srta. Hunnicutt acabou com minhas ideias a esse respeito, tia -        declarou ele, com firmeza.
  - Nem pense nisso! Ela era apenas uma garota boba e bonita. Nunca entendi o seu interesse por ela. Ah, e voc nunca explicou aquela briga com Vanessa Whitmore, 
no meu baile. Tentei descobrir a verda
de com a me dela, mas a nica resposta que consegui foi que a jovem est viajando pelo interior.
- Garanto-lhe, titia, que no sei onde ela est!
  - No seja assim, Perry. Sabe que estou falando da briga. Mas pela sua expresso, j vi que no quer falar sobre isso.
  - Sempre foi inteligente, tia Eliza - brincou ele. - Em vez de me interrogar, diga-me se teve notcias de Johann.
Lady Chumley resolveu concordar com a mudana de assunto.
 Herr Johann Schiller era filho de uma velha amiga, e tinha sido em sua casa que os dois haviam se conhecido, quando garotos.
_ Ele est muito atrasado?
   Mais de meio ms.  estranho. Normalmente, no ligaria de esperar, mas tenho alguns negcios urgentes para resolver em Pellbridge alm do problema com os Hunnicutt. 
Mandei Reg atrs de Lydia.
         Voc enlouqueceu? Ele est sempre se metendo em confuso!
  - Ele no ter tempo para isso, se estiver ocupado. S espero que me mande notcias logo. O pai dela anda me atormentando. Tive de pedir-lhe para no ir a minha 
casa sem ser convidado. Afinal, ele sempre chega antes das onze horas!
  - Que horror! Mas, voltando a Johann, talvez ele tenha tido coisas urgentes para resolver. Diplomatas sempre tm misses secretas...
 Peregren terminou seu ch e resolveu voltar para sua casa na praa St. James, onde Bridges, seu secretrio, esperava-o com as contas e a correspondncia do dia. 
O visconde verificou se havia carta de Johann, mas s encontrou os habituais convites para festas e bailes. Conforme os separava, para que o secretrio os respondesse, 
viu uma carta com uma letra conhecida. Abriu-a e leu-a. Nem bem terminara, ficou vermelho de raiva. O que Reginald pensava da vida? Ser que eles tinham fugido juntos? 
Seu irmo era jovem, mas deveria ter bom senso. No era possvel que tivesse sido seduzido por uma mulher como a srta. Whitmore!
  Saiu da biblioteca e subiu a escada de dois em dois degraus. Comunicou a seu espantado valete que precisava de uma mala pronta naquele minuto. Mandou um recado 
para o cavalario: queria seu cavalo mais veloz pronto para viajar imediatamente, e subiu a seu quarto para se aprontar.
  Ser que no havia limite para os absurdos que aquela mulher cometia? Sabia que ela era prepotente, cheia de vontades e que no o tinha perdoado, mas ser que 
era capaz de jogar to baixo? Suas feies se tornaram duras, como que esculpidas em pedra. Sabia muito bem como lidar com Vanessa Whitmore!
  bem imaginar a confuso que sua carta criara, lorde Hammet ia a caminho de Paris com a srta. Whitmore e Polly. Uma violenta chuva os havia forado a passar dois 
dias em Rouen. Haviam perdido mais um dia de viagem quando uma das rodas quebrara e tivera de ser conter ada. Esses dois incidentes praticamente tinham acabado com 
o dieiro do jovem lorde, que se viu forado a aceitar a oferta de fundos de sua companheira de viagem, apesar de isso ir contra seus princpios.
  - Quero pagar minha parte nas despesas - dissera ela, firme, colocando um mao de dinheiro na mo dele. - Era mesmo minha inteno reembols-lo pelos gastos que 
vem tendo. Polly e eu no estamos sob sua responsabilidade.
  - No gosto disso, mas tenho apenas o suficiente para chegarmos a Paris, se mais nada acontecer - confessara ele. - Digamos, ento, que  um emprstimo. Tudo ser 
pago, por mim ou por Perry... mas acho que ele vai acabar com a minha raa quando souber que aceitei seu dinheiro.
  - No ligue para isso. Alis, no h por que contar o que aconteceu. Ele provavelmente vai achar que sou a culpada. Est sempre interpretando mal o que fao.
  Tinham prosseguido e, quando chegaram a Paris, Vanessa ficou encantada com a cidade, especialmente com o Arco do Triunfo, mas um pouco menos com os parisienses, 
que no tinham pacincia com quem no falava francs. Como ela no tinha facilidade para aprender lnguas e o jovem lorde s estudara latim e grego, tiveram alguma 
dificuldade para achar a casa de lady Margaret. No fim, foi Polly quem os guiou at o lugar certo, pois havia trabalhado para a velha dama, antes de ir trabalhar 
para Vanessa, e tinha algumas lembrana de como chegar ao local.
- As ruas mudaram bastante - comentou a velha empregada.
  - Provavelmente resultado dos feitos de Napoleo - murmurou Vanessa.
  Depois de cinco dias de viagem, ela encontrava-se cansada e necessitando de um banho. Quando chegaram  Rue de Ia Paix, Vanessa imaginava como explicar  tia a 
presena de lorde Hammet. Pensou em apresent-lo como visconde Peregren. Mas se o verdadeiro ficasse sabendo da histria, teria um ataque, pensou divertida.
  Deixou esses pensamentos de lado quando o mordomo da tia abriu a porta. Depois de dar uma olhada em seus acompanhantes, ele reconheceu-a.
- Srta. Vanessa! - exclamou, com alegria.
- Michaels! Fico feliz em ver que no me esqueceu!
  - Como poderia? - perguntou, enquanto os conduzia para dentro. - A senhorita escorregou pelo corrimo da escada quando tinha dez anos e quase partiu o crnio. 
Tivemos um trabalho at que ficasse boa. E que susto!
- Foi mesmo. Minha tia est?
  - Como hoje  tera-feira, ela est no salo azul recebendo o grupo do dia.

- Grupo? - perguntou o jovem Hammet.
  - Os pintores. Nas quartas so os poetas, nas quintas so os dramaturgos e nas segundas, os atores.
- E nas sextas? - quis saber Vanessa, rindo.
  - Ela faz suas visitas - explicou seriamente o mordomo. - Nos sbados ela l e nos domingos descansa. A que nome devo anunciar, senhor?
- Reginald Hammet.
  - Srta. Vanessa Whitmore e sr. Reginald Hammet - anunciou, antes de se retirar.
  Dentro da sala, telas e cavaletes encontravam-se espalhados por todo lado. O cheiro de tinta impregnava o ar. Uma senhora, pequena, atravessou correndo o salo, 
at onde eles se encontravam.
  - Vanessa, criana, que supresa agradvel! - E lady Margaret abraou a sobrinha.
  - Titia, a senhora  nica! Qualquer outra pessoa ia se zangar comigo porque cheguei sem avisar.
  - Bobagem, querida. Venham sentar-se. Os outros nem prestaro ateno na gente. Esto preocupados demais com a luz. E quem  o jovem? - perguntou, olhando para 
o lorde.
-  lorde Reginald Hammet, titia. Um amigo meu.
- Ento, finalmente, voc resolveu vir at Paris...
  - Antes no poderia ter vindo sem mame, e sei que vocs duas no se do nada bem.
  - Sua me ainda  hipocondraca? E como est meu querido irmo? Ainda  fantico por cavalos?
  - Mais do que nunca. Segundo ele, est quase conseguindo produzir um campeo.
  -        Ele diz isso h anos e nunca conseguiu. Mas falemos de outras coisas. Sua irm, lindssima, alis,  igual a sua me. Mas voc  diferente, graas a Deus! 
No parece estar cansada com a viagem. Ah! Sua me me escreveu contando sobre seu problema com Francis Fabersham.
  - Gostaria que ela no o tivesse feito - Vanessa suspirou, observando o lorde, que tinha ido dar uma olhada nos quadros. - Quando a carta chegou?
  - Ontem. Ela est toda feliz por ter laado sir Giles Hathaway.
 - Ele pediu Clara em casamento?
- Sim. E sua me no perdeu tempo em colocar um comunicado no Gazete e outro no Morning Post. Qualquer um pensaria que sua irm est grvida!
Mesmo estando acostumada com a franqueza da tia, Vanessa teve dificuldade para segurar o riso. Felizmente um rapaz alto aproximou-se, fazendo-a ficar sria.
  - Querida, este  o conde Alexis Korensky, de Kiev - apresentou lady Margaret.' - Ele est em Paris representando o czar Alexander.
Conde Alexis, minha sobrinha, Vanessa Whitmore.
- Como vai, senhor?
- Encantado. - O conde fez uma reverncia e beijou a mo dela.
  Com cabelos escuros e profundos olhos negros, ele lembrava um danarino cossaco que ela tinha visto. Lorde Hammet foi apresentado ao russo e no perdeu tempo em 
dar sua opinio sobre o homem, assim que ele voltou para a sua pintura.
  - Um conquistador, srta. Vanessa! Ele a olhou como se fosse um pedao apetitoso de carne. No gostaria que a senhorita se tornasse amiga dele.
- Por que no? S porque  russo?
  - No  por isso. - E o rapaz desconversou, evidentemente no querendo continuar aquele assunto.
  Ele foi convidado a se hospedar na casa de lady Margaret at que achasse um lugar para ficar. Mas recusou, dizendo que ia hospedar-se no Hotel Cartier.
- Tem dinheiro suficiente?
  - Sim. Vou at a banco, Perry deve ter mandado uma ordem de pagamento. Depois vou comear a procurar Lydia e Francis.
  - Espero que venha me visitar. Sentirei sua falta. - Vanessa estava triste por se saparar do jovem companheiro de viagem.
  - No se preocupe, estarei por perto - respondeu ele, ficando corado. - At logo.
- Parece que fez uma conquista, querida!
  - Quem, titia? Ele  apenas um garoto. Penso nele como se fosse um irmo - disse, e comeou a rir, pois, se assim fosse, lorde Peregren tambm seria seu irmo.
  Lady Margaret ficou curiosa com o riso da sobrinha e esta lhe contou o motivo de seu divertimento.
  - Ento, Peregren  o homem bonito, rico e poderoso que voc ofendeu? Isto , de acordo com as palavras de sua me.
  -  ele mesmo. Um homem to insuportvel, ditador e irritante quanto  bonito!
  A velha senhora ergueu as sobrancelhas. No se lembrava de ter percebido em sua sobrinha sentimentos to fortes em relao a qualquer outro homem.
  -        Fico imaginando... O que se esconde por trs de suas palavras?- perguntou a Vanessa, calmamente.
A jovem observou o rosto simptico da tia. Nunca pudera fazer con fidncias a sua me ou irm. Mas sabia que em lady Margaret poderia confiar e que ela entenderia 
seus sentimentos.
  Quando comeou a falar, ficou surpresa, pois o que estava mais pre sente em suas lembranas no eram as palavras de lorde Peregren na biblioteca mas sim a sensao 
de seu brao ao redor de sua cintura, da mo dele na sua, durante a valsa que haviam danado no baile de lady Chumley.

Capitulo VII

O visconde Peregren chegara rapidamente a Paris, antes de seu irmo e da srta. Whitmore. Tinha pressa em salvar o irmo das garras daquela aventureira sem escrpulos.
  No momento, estava diante do gerente de seu banco em Paris, monsieur Siri.
- Por acaso, meu irmo esteve aqui? - perguntou.
  - Lorde Hammet? No, senhor - respondeu o cavalheiro, surpreso.
Achava que o visconde viera para saber de seus negcios na Frana, e no atrs do irmo.
  - Ele no veio ver se havia alguma ordem de pagamento em seu nome? - Lorde Peregren franziu o cenho, preocupado.
O gerente do banco negou com a cabea.
  - Bem, se ele aparecer, o senhor far a gentileza de mand-lo para este endereo? - O visconde escreveu o nome de um hotel no verso de seu carto de visitas, entregando-o 
ao gerente. -  muito urgente.
- Pois no, senhor. Hotel Cartier, na rua d'Anjou. Uma excelente escolha.
  -        Pode ser que ele esteja acompanhado de uma jovem senhora. - O rosto do visconde estava sombrio. - Ou, talvez, ela venha no lugar dele. Em nenhum dos casos 
d-lhes dinheiro. Entendido?
-        Certamente, sir.
  Lorde Peregren saiu do banco, satisfeito por ter chegado antes dos dois fugitivos. De repente viu uma figura familiar atravessando a rua.
 -        Perry! O que est fazendo aqui? - perguntou seu irmo sorrindo. -  to bom v-lo! Tive uma viagem horrvel. No consegui encontrar Lydia ainda. Ei... 
O que voc est fazendo?! - exclamou, quando foi agarrado pelo colarinho e jogado dentro de uma carruagem de aluguel. - Ficou louco? - protestou. - Voc estragou 
a minha gravata! Onde estamos indo? Tenho de ir ao banco e... Bom, mas agora voc est em Paris, posso pedir diretamente. Fiquei sem um penny!
 -        Quer dizer que a srta. Whitmore fez voc gastar demais...  isso? - perguntou o visconde, sarcasticamente. - O que lhe deu na cabea para fugir com ela 
desse jeito? Ela deve ter enfeitiado voc ou algo parecido! Bem que desconfiei daquela mulher!
  -        Perry, o que voc est dizendo? - Reginald parecia confuso. -Est falando como se estivesse bbado.
  A carruagem parou na frente do hotel e o visconde puxou o irmo para fora.
-        Como sabia que este era o meu hotel?
     este? - lorde Peregren perguntou. -  o meu tambm. - Pagou rapidamente o cocheiro e entrou. - Venha. Vamos discutir isso no meu apartamento.
  -        No sei o que voc quer discutir - reclamou Reginald assim que entraram na luxuosa sute.
         Por acaso terei de aceitar quieto sua fuga com uma mulher que no suporto?
  -        Qu? - Reginald, que ia sentar-se numa poltrona, parou, surpreso. - Fuga? Voc est doido mesmo. No fiz nada disso! Caso no se lembre, foi voc quem 
me mandou atrs de Lydia e Fabersham. Eu apenas obedeci.
  - Com a preciosa ajuda da srta. Whitmore? - perguntou friamente lorde Peregren.
  - Sim, de certa maneira. - Ele estava alarmado. - No fugi com ela!
  - Ento, por Deus, o que voc queria dizer com aquela carta que me enviou?
  - Vou explicar exatamente o que aconteceu. Foi uma sorte eu t-la encontrado em Newhaven!
  - Azar, voc quer dizer - comentou o mais velho, depois de sa ber como fora o encontro. - Sorte dela! Uma ladra que...
  - Pelo amor de Deus! No  nada disso! Voc a julgou mal, Perry.  Ela no  uma solteirona chata, alis,  uma tima companhia. E foi muita sorte t-la encontrado. 
Ela recebeu uma carta de Fabersham, contando que estava em Paris e que no tinha casado com Lydia.
- Uma carta?! Ento, ele escreveu?
-  e ela ficou surpreendida. Nunca vi esse homem, mas a srta. Whitmore afirma que ele  direito. Parece que  mesmo, pelo que disse na carta: ele considera o noivado 
entre os dois ainda vlido, e diz que explicar tudo. E como ela veio a Paris...
    Atrs de um homem que a abandonou e no qual ela jura que nao esta interessada!
  -        Nao Ela veio visitar a tia. Viemos juntos. Nada poderia ser mais inocente, Perry.
Voc que  inocente. Aposto que, at o fim da semana, ela dira que voc manchou a reputao dela e exigir que se casem!
  - Incrvel como voc tem imaginao frtil, meu irmo! - O jovem lorde riu. - E como pe essa imaginao a trabalhar contra a srta. Vanessa! Olhe, se ela tivesse 
essas intenes, no faria sua criada de quarto ficar grudada nela o tempo todo.
- Verdade? Voc no est querendo me enganar?
- De modo algum.  a pura verdade.
  - Graas a Deus! Se voc soubesse como estava preocupado. Ela  uma mulher inescrupulosa.
  - Calma! No posso deixar que diga esse tipo de coisa da srta. Whitmore, Perry. Sei que no gosta dela, mas eu gosto, apesar de no querer casar-me com ela. E 
no quero ouvir nem mais uma palavra contra essa moa.
O visconde encarou o irmo. Estava abismado.
- No quer ouvir nada contra ela?
  - Talvez ela no seja sua amiga, mas  minha! - afirmou lorde Hammet com uma seriedade que no era normal nele.
  Lorde Peregren estava incrdulo. Ia repreender o irmo, lembrando-lhe qual era o seu lugar, quando percebeu que o jovem lorde havia mudado. Havia algo diferente 
nos olhos dele e teve medo que a mudana fosse para pior. Achou melhor mudar de assunto e props que sassem para comer alguma coisa.
  Os dois irmos fizeram planos para achar Lydia e Fabersham, mas no conseguiram nada nos dias que se seguiram. Nenhum dos dois tinha a menor ideia de qual era 
a aparncia do noivo da srta. Whitmore e, por mais estranho que parea, o visconde no lembrava exatamente como era sua ex-noiva.
  Vanessa recebia informaes do andamento da busca pelo jovem Hammet, que estava ficando inquieto com a falta de pistas. Ela notava que j no era o rapaz brincalho 
que conhecera.
  -        Seu irmo deve estar irritado com os poucos resultados que obtiveram - comentou certa manh, quando conversavam. - Provavelmente, ele pensou que Lydia 
iria sugir do nada, assim que ele o exigisse.
  -        Acredito que sim - concordou ele com um sorriso. - Ele parece um urso enjaulado. O francs dele  pior que o meu, ento no podemos sair procurando pelas 
ruas. Normalmente o humor dele no  to ruim, mas tem negcios urgentes para resolver em Londres. H um problema em Pellbridge e est esperando Johann Schiller, 
um amigo de infncia que dever chegar  Inglaterra a qualquer momento.
  Quando percebeu, Vanessa estava sabendo mais da vida de Peregren do que gostaria.

  - Pena que meu francs seja to ruim quanto o de vocs. No que fosse ajud-los muito, pois Lydia e eu mal nos conhecamos.
- Mas voc poderia reconhecer Fabersham - disse ele, animado.
-        No se lembra de nada que possa nos ajudar?
  -        Bem, no tenho a menor ideia de onde comear a busca, mas... O pai de Francis  mdico, e me lembro de que uma vez ele se referiu a um mdico parisiense, 
amigo do pai.  possvel que tenha ido procur-lo.
-        Voc lembra o nome dele? Por acaso sabe o endereo?
-        O endereo, no sei. Mas o sobrenome dele  Drouillet.
Foram perguntar para lady Margaret, que descobriu imediatamente o endereo do dr. Drouillet.
         Vou l agora mesmo - disse lorde Reginald, aflito.
- Vou com o senhor - decidiu Vanessa, impulsiva.
  - Mas, querida - lembrou a tia -, o conde Alexis, contou-me que viria visit-la hoje.
- Faz trs dias que ele me visita, titia. - Beijou o rosto da tia.
-        Diga-lhe que hoje fui passear com lorde Hammet.
  O jovem lorde estava usando o tlburi que o irmo alugara para se movimentar em Paris e ficara de ir busc-lo no banco, mas a srta. Whitmore s ficou sabendo disso 
quando j estavam a caminho. Pensou em pedir-lhe que a levasse de volta, mas achou que seria bobagem. Um dia ou outro acabaria mesmo se encontrando com o visconde.
  - Parece que esse tal de Alexis est interessado na senhorita, no ? - perguntou o jovem lorde, quando estavam quase no banco.
  - Est. Ele no sai da casa de titia. E sempre consegue me achar para falar da ptria amada, a Rssia.
A expresso de Reginald disse o que ele pensava.
  -        Tambm no gosto dele! - concordou Vanessa, rindo. - Por isso no perdi a oportunidade de escapar, hoje.
  Quando chegaram ao banco, ela precisou reconhecer que lorde Peregren era muito elegante. Apesar de no disfarar a surpresa, ao v-la, ele foi corts.
  Depois que se cumprimentaram, o jovem lorde convidou o irmo a entrar no Tlburi, mas ele recusou, dizendo:
    So se me passar as rdeas. No vou arriscar meu pescoo, com voc conduzindo os cavalos.
  - Acho que lorde Reginald conduz to bem! - admirou-se Vanes-sa,jnquanto o visconde pegava as rdeas.
    Isso porque nunca viu o nmero de carruagens, tlburis e fa-tons que ele fez tombar!
  -        No  tanto assim, Perry! E s acontecia quando eu era jovem...
Faz mais de um ms que no tombo nenhum!
  O visconde comeou a rir quando viu a expresso de espanto da srta. Whitmore, e ela ficou ainda mais espantada ao v-lo rir com aquela alegria. Como ele mudava 
perto do irmo!
  - Temos uma pista que talvez nos leve a Fabersham - disse o jovem lorde. - Fauburg Saint Honor. Voc conhece?
- Vagamente - respondeu lorde Peregren. - Por qu?
- Um amigo do pai dele mora l - explicou Vanessa.
  O visconde dirigia bem e ela sentia-se tranquila por estar ao lado dele. De repente, percebeu o que pensava e tratou de se distrair com outra coisa. Sentia-se 
estranha...
  Chegaram. Pararam em frente a uma casinha pequena. Lorde Peregren saltou e estendeu uma mo para ajudar a srta. Whitmore descer. O gesto a pegou de surpresa, fazendo-a 
perder o equilbrio. Ele teve de segur-la pela cintura com as duas mos.
- Tenha cuidado - aconselhou ele, com suavidade.
- Obrigada - ela agradeceu, sentindo o rosto ficar vermelho.
  - Venham - impacientou-se o jovem lorde, que j se encontrava na porta da casa.
  Foram atendidos por uma criada que, quando soube que queriam falar com o dr. Drouillet, os fez entrar e levou-os para uma saleta. Pouco depois, o grisalho doutor 
entrou.
- Em que posso servi-los? - indagou, atencioso.
  - Estamos procurando o sr. Fabersham. Sabe onde ele est? - indagou o jovem Hammet.
- E se eu soubesse? - perguntou o mdico.
  - Gostaramos que nos contasse para irmos procur-lo. Sou o visconde Peregren, este  meu irmo e esta  a srta. Whitmore, noiva do sr. Francis Fabersham.
- Por favor, estou to preocupada com ele - pediu ela.
- Prometi que guardaria segredo... - hesitou o mdico.
  - Escute, caro doutor, a srta. Whitmore est doente.  de extrema urgncia que encontre o noivo - argumentou lorde Reginald.
  - A senhora no parece doente... - comentou o mdico, observando Vanessa com ar profissional.
  -  uma doena que vai e vem - explicou lorde Peregren. - Em segundos a sade dela se deteriora. Onde ele est?
  - Talvez o senhor pudesse avisar Francis que estou em Paris, ento - sugeriu Vanessa, que no pretendia deixar sua sade se deteriorar, s porque o visconde queria.
A conversa foi interrompida pela sra. Drouillet, que parecia aflita.
Antes que qualquer um deles dissesse algo, um novo visitante invadiu a sala. Lorde Peregren olhou friamente o intruso e perguntou:
- Que veio fazer aqui, sr. Hunnicutt?
  - Vim ver minha filha, milorde. E se fosse vinte anos mais moo, eu o desafiaria para um duelo!
- Ser que o senhor ficou louco? - inquiriu o visconde, irritado.
  - To louco quanto qualquer pai ficaria ao saber que sua filha est grvida! - anunciou o cavalheiro.
E todos ficaram abismados, olhando mudos para ele.
Capitulo VIII

- Repita o que o senhor disse! - exigiu o visconde.
  - O senhor me ouviu, milorde - murmurou Hunnicutt, que s ento notara que havia uma dama no recinto. - E espero que j tenha feito os arranjos necessrios para 
o casamento, j que  o pai da criana. Desculpe, srta. Whitmore...
  Vanessa nunca teria acreditado, mas o rosto de Peregren ficou quase to vermelho quanto seus cabelos.
  - No sou responsvel pelo estado da srta. Lydia - disse ele em voz perigosamente calma, baixa e fria.
- Ela realmente est grvida? - afligiu-se Vanessa.
  - Est, srta. Whitmore - respondeu o mdico. - O beb deve nascer daqui a seis ou sete meses.
  - O senhor agir corretamente com minha filha, lorde Peregren, ou eu juro que Londres inteira ficar sabendo o patife que .
  - Oh, no! - Vanessa se levantou, horrorizada com a ideia. - Se o senhor fizer isso, acabar com a reputao de Lydia. E apesar de lorde Peregren merecer esse 
tipo de tratamento, no ser afetado em nada. Muitas anfitris o recebero do mesmo jeito. S a sua filha ir sofrer com isso!
A essa altura, o visconde comeava a se divertir e ironizou:
  - Talvez a senhorita devesse se preocupar com o seu Francis. Ele  que fugiu com Lydia, lembra?
- No  culpa dele - declarou Hunnicutt,
- E como diabos o senhor sabe? - perguntou o visconde.
- Porque Lydia me contou que voc  o pai.
  - Isso  mentira! - exclamou lorde Peregren, furioso outra vez.
- Quero falar com Lydia agora mesmo!
  -        Isso! Por que os senhores no vo visitar a srta. Hunnicutt? - aproveitou o mdico, que queria coloc-los para fora de sua casa e livrar-se de uma possvel 
encrenca.
.   - Obrigado por ter me defendido, srta. Whitmore - murmurou o visconde, enquanto entravam no tlburi. - Muita bondade!
          No fiz isso para ajud-lo, mas sim  pobre Lydia. Eu sei o que acontece a quem desafia o senhor: tive de sair de Londres porque ou sei discutir com o 
visconde Peregren!
  Ele ficou perplexo: no sabia que a srta. Vanessa fora banida da corte por sua causa. Mas agora tinha de prestar ateno em outra coisa. O tlburi do sr. Hunnicutt, 
que ia seguindo, parara diante de uma casa simples, na rua Mazarin.
  De acordo com a me de Lydia, que ficou espantada com as visitas, a filha estava indisposta, o que era normal nas condies dela, e no queria ver ningum.
           gja vaj me vr, quer queira ou no - ordenou o lorde. - E demais! Primeiro, seu marido conta que ela est grvida e me acusa como sendo o responsvel, 
agora a senhora me diz que sua filha recusa-se
a ver-me! - O visconde no conseguia mais conter a ira e falava aos berros.
-        Algum problema, senhora? - uma voz perguntou.
  O cavalheiro tinha entrado na sala to mansamente que ningum havia reparado. Era um homem pequeno, que comeava a ficar careca, mas seus olhos castanhos tinham 
uma expresso gentil, de extrema bondade e calma.
-        Francis! - exclamou Vanessa, e correu na direo do ex-noivo.
  Tinha conscinca de que tanto lorde Peregren quanto o irmo observavam a cena, curiosos. Ser que deveria abra-lo? Por sorte, Francis resolveu o dilema, quando 
deu-lhe um beijo no rosto que dificilmente poderia ser chamado de apaixonado.
  - Vanessa! O que est fazendo aqui? No recebeu minha carta?
Pensei ter deixado claro que era para voc no vir.
  - A nica coisa que ficou claro  que fugiu com Lydia! Ainda bem que me escreveu, pois assim ficamos sabendo onde vocs estavam.

  - No  possvel que tenha pensado isso de mim! - Francis, que tinha a pele bastante clara, ficou plido ao ouvir aquilo.
  - Na verdade, ela o defendeu, Fabersham - interrompeu o visconde. - Gostaria de fazer-lhe uma pergunta. O beb  seu?
No - respondeu o outro, com firmeza.
  -        E claro que no  dele! - Vanessa falou. - Qualquer um que o conhece, sabe que ele seria incapaz de fazer uma coisa dessas. Quer aizer    ele jamais foraria 
uma mulher...
  Cada vez se atrapalhando mais, com todos olhando para ela, Vanessa pediu licena e foi para um canto com o noivo. Tinha vrias coisas a esclarecer com ele.
- Francis, vocs mora com Lydia  aqui? - Perguntou, quando achou que estavam a salvo de ouvidos alheios.
  - No! Ns no estamos casados! Moro na casa a do outro lado da rua - explicou o sr. Fabersham.
  - Hum... No sei se o senhor teria esse tipo de escrpulo - interferiu o jovem Hammet, que se aproximara sem ter sido notado e ouvia a conversa.
  - Lorde Reginald... Eu preciso falar com Francis em particular. -E Vanessa saiu com Francis da casa. Assim que saram, perguntou:- O que deu em voc para fugir 
com ela? O que aconteceu?
  - Ns no fugimos, juro! Tudo comeou numa palestra que assisti em Portman Square, h um ms. Eu fui l sozinho e Lydia estava sentada a meu lado. Tinha ido acompanhar 
a me. De repente, ela desmaiou e tive de carreg-la para uma outra sala. A sra. Hunnicutt saiu  procura de um remdio e a filha implorou-me para ficar com ela.
Meu pai  mdico... e vendo-a deitada no sof... percebi que estava...Voc sabe...
- Sei. Voc falou para ela o que sabia? O que aconteceu depois?
  -  claro que no falei nada! - exclamou ele, vermelho e sem jeito. - Ela comeou a chorar e a implorar-me para no contar nada a seus pais. Prometi-lhe que no 
falaria a ningum e que a ajudaria.
  Fabersham disse, ento, que Lydia jamais quisera casar com lorde Peregren, que s tinha concordado com o noivado porque estava desesperada com o estado em que 
se encontrava. Queria, na verdade, casar com o pai de seu filho. Ele deveria ter ido encontr-la em Brighton e iriam casar-se na Esccia.
  -        Mas por que voc viajou com ela? - perguntou Vanessa, impaciente.
  Finalmente, Francis confessou que tinha se sentido na obrigao de acompanh-la at Brighton, onde ficaram esperando o futuro marido. Infelizmente, este no apareceu 
e Lydia inventara aquela histria sobre eles terem fugido para casar em Gretna Green. Mas, a meio caminho, ela resolveu vir para Paris e ele a acompanhara de novo. 
Entretanto, tinha se sentido no dever de escrever aos pais dela para dar uma explicao. O casal no demorara a chegar em Paris e, ao descobrir o estado da filha, 
comearam a pressionar Francis para casar com ela...
- O visconde  o pai da criana? - indagou Vanessa, ansiosa.
  - No acredito que seja. No, no  - respondeu Fabersham, e, ao ouvir aquilo, o corao de Vanessa expandiu-se. Ele continuou: - Ela no quer casar com lorde 
Peregren. Refere-se a ele como "aquele homem". Mas quer casar com o pai do beb, que considera o seu verdadeiro amor. Acredita que ele chegar a qualquer momento 
para salv-la.
Voc sabe quem  o futuro pai?
    No _ respondeu, cansado daquilo. - O que voc veio fazer aqui junto com os outros?        '
 _ Vim ver o que tinha acontecido - Vanessa respondeu, surpresa. _  fciI escrever-me pedindo para no me preocupar. Voc no sabe o que tenho passado.
-        O que quer dizer?
  _ Ser abandonada no  das situaes mais agradveis. S para escapar do falatrio, seria razo suficiente para fugir de Londres.
-        Acertaremos tudo, quando voltarmos - Francis prometeu.
         j que o sr. Hunnicutt est determinado a fazer lorde Peregren
casar com Lydia, podemos partir assim que tivermos arrumado nossas coisas.
  Vanessa no gostou muito desse plano, especialmente da parte em que o visconde casava com a srta. Hunnicutt e ela ia embora com Francis. Ficou imaginando se haveria 
uma outra razo para o noivo querer voltar para Londres to rpido. Procurou descobrir:
-        Se estiver precisando de dinheiro, posso emprestar...
  - Um cavalheiro nunca aceita dinheiro de uma dama! - exclamou Fabersham, escandalizado.
  - Ser prefervel morrer de fome? Quando ofereci dinheiro a lorde Hammet, durante a viagem, ele teve o bom senso de aceitar.
  - Deu dinheiro quele homem? Est claro para mim que voc mudou muito em apenas quinze dias, Vanessa. E quem so aqueles dois?
  - Lorde Hammet  um amigo e o visconde... o visconde  irmo dele - explicou, sem muita convico. - Bem, tenho de ir para dentro. No precisa me acompanhar, voc 
deve estar cansado dessa famlia... Se quiser falar comigo antes de ir embora de Paris, me encontrar na casa de minha tia.
Deu o endereo de lady Margaret a Francis e despediu-se.
Ser que ainda estamos noivos?, perguntava-se ao entrar.
Encontrou os dois irmos esperando-a na saleta. Eles no pareciam star muito satisfeitos. No tinham conseguido falar com Lydia.
- Sera que ela me receberia? - sugeriu Vanessa.
- Nunca imaginei que vocs fossem amigas - observou o visconde.
- E nao somos, mas no custa tentar.
Para a surpresa de todos  a srta- Hunnicutt consentiu em falar com Vanessa, que a encontrou devorando uma caixa de chocolates e lendo um romance.
- Ento  verdade que vocs esto aqui! Pensei que fosse um truque de papai para me tirar do quarto e me pasar um sermo.
- O visconde  est l embaixo. Acho que deveria v-lo.
- No quero ver aquele homem!
  - Pois deveria! - insistiu Vanessa, comeando a ficar zangada com tanta indiferena. - J imaginou o que ele passou, depois que voc fugiu com Francis?
- No fugi com Francis. Nem entendo como voc podia suport-lo.
  -  mesmo? E voc, que acha lorde Peregren odioso, mas ficou noiva dele? - rebateu Vanessa, irritada.
  - Isso  diferente - respondeu a futura me, enquanto comia mais um chocolate. - Ele disse alguma coisa sobre casar comigo? Tive de inventar uma mentira para o 
meu pai, depois que Francis deu com a lngua nos dentes. Eu devia esgan-lo por isso. Se bem que foi engraado quando papai ameaou mat-lo.
- Mat-lo?
  - No podia deixar que isso acontecesse, ento inventei que era culpa de lorde Peregren. Se for obrigada a casar com algum, prefiro o visconde, que pelo menos 
 rico e tem um ttulo, enquanto que Francis, alm de pobre,  um bobo! - Viu a expresso de desprezo no rosto da outra e disse: - Tenho de ser prtica. Agora, se 
o visconde no quiser casar, no sei o que papai far. - Suspirou e comeu outro bombom.
  - Quem  o pai do beb? Soube que vocs pretendiam casar e que ele no apareceu.
  - Aconteceu alguma coisa com ele. Tenho certeza de que me ama, nunca teria me abandonado. Quando ficou sabendo do beb, ficou to contente. Insistiu que tnhamos 
de nos casar. Prefiro casar com ele do quem com o sr. Fabersham ou o visconde.
- Ele tem dinheiro e ttulo?
  - No, mas eu o amo. E isso  o que importa. No pense que ele quis simplesmente tirar vantagem de mim, eu  que quase me joguei em cima dele.  o homem mais bonito 
e charmoso que conheo. E queria casar comigo. S espero que chegue aqui antes que papai me obrigue a casar com outro.
- Talvez posso ajud-la se souber quem .
  - Voc vai contar para o visconde! - Lydia parecia estar na dvida quanto ao que deveria fazer. - A no ser que jure no falar nada.
- No contarei nada a lorde Peregren. Eu juro.
  - E no contar nada para o meu pai? - perguntou a jovem, enquanto comia mais um bombom.
-  claro que no!
- Bem, o pai do beb  herr Johann Schiller!

Capitulo IX

 - Por acaso voc est falando de herr Johann Schiller, o grande amigo do visconde? - A voz de Vanessa tinha subido um tom. Ela estava pasma.
 - Sim. Conheci Johann no ltimo outono, em Viena. No sabia que eles eram amigos. Ele tinha prometido que viria para a Inglaterra, para casarmos. Mas no apareceu.
- Eu sei, Lorde Peregren tambm est  espera dele,
 - Est? - Lydia ficou chocada com a notcia. - Ser que ele sabe sobre ns dois?
 - O visconde no sabe de nada. Est apenas esperando a visita de um velho amigo.
- Onde ser que ele est?
- No sei, mas ns descobriremos.
  Vanessa levantou-se para ir embora, depois de ter prometido que manteria a outra a par das notcias.
  O lorde estava nervoso, agitado. Andava de um lado para o outro. Quando ela desceu, olhou-a como se esperasse uma explicao. Por um momento, ela ficou sem saber 
o que falar. Apesar de lorde Peregren ser prepotente e mando, no podia simplesmente contar-lhe que tinha sido trado por seu melhor amigo. Alm disso, prometera 
a Lydia que no diria nada.
-        Lydia parece estar bem - comentou, sem encar-lo.
  Ele pegou-a pelos ombros e virou-a de forma que ficassem de frente. Por instantes teve a impresso de que Vanessa estava com pena dele. Devia ser sua imaginao...
Voc est escondendo alguma coisa de mim - disse, srio. Falei com ela. Voc no  o pai do beb, mas provavelmente j sarna disso. Agora, vamos embora - disse, 
soltando-se.
  Quando j se encontravam no tlburi, o jovem Hammet perguntou se Lydia tinha dito o nome do pai da criana. Vanessa esperava que o visconde fizesse essa pergunta, 
e quando o fitou percebeu que ele adivinhara o que estava pensando.
- Voc sabe quem   o pai ~ disse ele  suavemente- - Vai nos contar? Afinal, e a mim que querem obrigar a casar com a srta. Hunnicutt.
- Prometi a ela que no contaria. E depois, voc no  um homem indefeso. Ningum o obrigar a fazer o que no queira! -lembrou-o Vanessa, tentando escapar  presso.
- Quem  o pai? - insistiu ele, em tom frio.
-        No posso contar! - E desviou os olhos para o outro lado.
Ele segurou-lhe o queixo e acariciou-o com os dedos. Ela sentiu um arrepio estranho percorrer-lhe o corpo todo.
  - Voc no ficar satisfeita enquanto eu no estiver casado com Lydia, no ? - perguntou ele, amargo.
- Isso  um absurdo! - Vanessa puxou a cabea.
  - Se sabe quem  o homem - disse o jovem Hammet, tentando intervir na guerra que os dois travavam -, conte-nos. Perry no quer casar com Lydia, de jeito nenhum. 
Entenda a situao!
  - Dei minha palavra! - Viu, com alvio, que tinham chegado  casa da tia. - No posso trair a confiana dela. - Depressa, desceu do tlburi e despediu-se dos dois 
cavalheiros.
Dentro de casa, encontrou lady Margaret e Alexis a sua espera.
  - Querida, vocs deram um longo passeio. Acredito que se fosse outro, que no o conde, j teria desistido.
  - O senhor no deveria ter me esperado - disse ela, e estendeu a mo para o russo, cumprimentando-o.
- Estava ansioso para v-la. - Ele beijou-lhe a mo.
  - Vanessa, contei ao conde sobre os meus planos de dar um pequeno baile na sexta  noite. Mas voc ter de me ajudar na escolha do cardpio para o jantar, das 
flores...
  - Prefiro rosas vermelhas - comentou Alexis. - Elas lembram a cor dos lbios de uma mulher! - E fitou Vanessa intensamente.
- Verdade? - Vanessa sentia vontade de rir.
  - Que romntico, meu jovem! Ento, teremos rosas vermelhas - decidiu a velha senhora. - E champanhe e valsas,  claro. Precisamos preparar a lista de convidados. 
Ser que o sr. Hammet vai poder vir, querida?
- Falarei com ele, titia.
  Entretanto, ela no tinha nenhuma inteno de convidar o jovem Hammet para o baile, mas sim pedir-lhe para achar herr Schiller. Como no podia contar com Francis, 
e lorde Peregren estava fora de questo, teria de recorrer a ele, mesmo.
  Na manh seguinte, mandou um bilhete a lorde Reginald, pedindo-lhe que a levasse a conhecer o Jardim Botnico. Mas em vez de passearem pelo jardim, ela quis sentar-se 
num banco.
-        O senhor precisa me ajudar! - disse, sem prembulos.
-  sobre o baile de sua tia? - Ele sorriu. - Apesar de no gostar muito desse tipo de evento, prometo que comparecerei, e que levarei Perry comigo.
- No  o baile. E o senhor no vai poder ir. Tenho de contar-lhe um segredo, mas tem de jurar que no vai contar para ningum, nem para o seu irmo. _ Prometo. 
Qual  o grande segredo?
-        O pai do beb de Lydia  o sr. Schiller.
         Johann? Voc deve estar brincando! - exclamou ele.
  Fale baixo. - Vanessa olhou em volta, mas ningum tinha escutado.         Ela jura que ele  o pai e que deveria ter chegado  Inglaterra para casarem, mas no 
apareceu. Agora, est morrendo de medo que seu pai a force a casar com lorde Peregren. Voc precisa achar herr Schiller e traz-lo aqui.
  - Por que eu tenho de procur-lo? Seria melhor que Perry o fizesse. Ah... J entendi.
- Seria um golpe mortal para o orgulho dele - murmurou ela.
  - No vai ser fcil achar Johann. Pode estar em qualquer lugar,  um diplomata! Mas vou tentar. Hum, preciso inventar uma desculpa para o meu irmo.
  Quando lorde Reginald voltou para o hotel, j tinha uma ideia da histria que contaria para lorde Peregren. Mais tarde, enquanto se preparavam para assistir a 
uma apresentao da Comdie Franaise, comunicou ao visconde que iria para Viena fazer um favor para Bertram.
- Que disparate! Ir a Viena agora, Reg?!
  - Antes de partir de Londres, Bertie me contou que estava muito preocupado. Agora recebi uma carta dele pedindo-me para ir at Viena procurar uma pessoa.
- Quem?
- Jurei segredo. No posso contar quem .
  - J imagino o que seja. - Lorde Peregren levantou uma sobrancelha ironicamente. - Uma das bailarinas dele?
- Sinto muito, no posso dizer nada.
  - Elas ainda vo acabar com ele! Estranho, antes de sair de Londres tive a impresso de que ele estava interessado numa moa de famlia,
E justamente por isso que ele se preocupa com a outra moa.
  Essa parte resolvida, o jovem Hammet quebrou a cabea para decidir por onde iniciar a nova busca.
 Devido  urgncia da misso, ele no iria comparecer ao baile de a y Margaret, mas seu irmo aceitou o convite. Assim como Alexis e Francis, que afinal no tinha 
ido embora ainda.
Como trs cavalheiros conhecidos seus compareceriam  festa, Vanessa decidiu comprar um novo vestido para a ocasio e foi com a tia a uma das melhores modistas de 
Paris.
  No dia do baile, o vaporoso vestido de gaze azul-safira sobre o forro de cetim da mesma cor tornava seus olhos ainda mais azuis e brilhantes. Os suavemente ondulados 
cabelos loiro-acinzentados haviam sido penteados por Polly de um jeito que a tornava bem mais jovem. A tia, ao v-la, ficou emocionada e disse que ela seria a jovem 
mais linda do salo.
  Lady Margaret, que usava um vestido de cetim verde-gua, parecia uma ninfa das florestas e no uma anfitri que tinha trabalhado at o ltimo minuto. Tudo estava 
pronto, os msicos j se encontravam em seus postos e a mesa na sala de jantar estava repleta de pratos finssimos.
  -        Com quem voc vai danar primeiro? - provocou a maliciosa senhora, enquanto as duas se posicionavam junto  entrada para receber os convidados. - Francis 
ainda  seu noivo, mas se eu fosse voc escolheria Alexis. Ele  to insistente e bonito! Provavelmente, vai pedi-la em casamento.
  Pouco depois, Vanessa estava to ocupada com os cumprimentos que esqueceu as provocaes de sua tia. Mas quando viu o conde russo chegar, concordou: era, mesmo, 
um homem bonito, alto, forte, cabelos negros e olhos escuros, profundos.
  - Gostaria de danar a primeira valsa com a senhorita - pediu ele, enquanto beijava-lhe a mo.
-  uma ideia maravilhosa - concordou lady Margaret, rpida.
  - Titia, a senhora pretende aceitar todas as minhas danas por mim? - perguntou Vanessa, assim que o conde se afastou.
  - Claro que no! Mas ter de danar a primeira valsa com o sr. Fabersham no seria muito gratificante.
  De novo ela achou que a tia tinha razo. Alguns minutos mais tarde, Francis chegou. Parecia no estar se sentindo muito  vontade em roupas de gala, alm de sua 
aparncia ser cmica. Assim mesmo, Vanessa sorriu-lhe, amvel, quando se cumprimentaram.
  -         um prazer v-lo aqui, Francis! Deixe-me apresent-lo a minha tia...
  Depois das apresentaes, o sr. Fabersham pediu a primeira dana a Vanessa e lady Margaret apressou-se a explicar:
  - Eu fiz minha sobrinha aceitar o convite do conde Alexis para a primeira dana, meu jovem.
  - Mas posso reservar qualquer uma das outras para voc, Francis - Vanessa acrescentou.
    Est bem - foi a resposta seca dele, que fez um aceno com a cabea e dirigiu-se para o salo.
         Realmente, srta. Whitmore - disse uma voz sonora e irnica -, pensei que fosse reservar a primeira dana para seu noivo.
  Era lorde Peregren, o seguinte na fila de cumprimentos. Seus olhos tinham um brilho divertido quando ela o encarou. Foi bem diferente a sensao que teve quando 
aquele olhar verde se tornou clido e envolveu-a toda, impedindo-a de falar.
         O senhor deve ser lorde Peregren - comentou lady Margaret.
-- Vanessa falou-me sobre o senhor.
         Mesmo? Espero, ento, que a senhorita tenha sido bondosa ao falar de mim. - E os olhos verdes cintilaram, maliciosos.
  -        Fui to bondosa quanto o senhor foi comigo - ela replicou com raiva por sentir que ficava corada.
Ele fez uma reverncia exagerada e retirou-se.
- Titia, a senhora est decidida a se divertir a minha custa, no?
  - No fique brava, Vanessa. Uma velha tem direito a alguns prazeres na vida. Lorde Peregren no parece um monstro, como voc me fez crer. E como  bonito e elegante! 
Juro que precisei segurar o riso quando vi Fabersham. Tenho certeza de que est usando roupas emprestadas!
  - A senhora no est se comportando bem. Primeiro promete minha primeira dana para o conde, depois fala para Francis que eu no vou danar com ele, e finalmente 
inventa que vivo falando do visconde, como se eu fosse mal-educada e estivesse interessada nele.
  - Voc est exagerando! - Percebendo que a sobrinha ia continuar a discusso, Lady Margaret virou-se para receber seus novos convidados.
  Uma hora depois, tendo desempenhado suas obrigaes como anfitris, as duas damas entraram no salo de dana. Vanessa no percebeu que lorde Peregren, que era 
bem mais alto que os outros convidados, observava-a do outro lado do salo.
  Nesse momento, Francis e Alexis aproximaram-se dela. Cada um deles observava o outro com desaprovao e comearam a falar ao mesmo tempo. Logo depois se calaram. 
Vanessa os apresentou. O conde ignorou o sr. Fabersham e exigiu a dana que lhe fora prometida.
    Que homenzinho mais estranho - comentou o russo, enquanto passava o brao pela cintura de Vanessa para danarem a valsa. - Um homem esquisito, como vocs dizem.
-  Francis? Ele no  nada disso.
- Ele teve a ousadia de se dirigir a mim e contar-me que  seu noivo. No  ridculo?
- Na verdade, sou noiva dele.
  - No  possvel! Deve estar brincando comigo. Como uma jovem to adorvel pode querer casar com aquele homenzinho?
  - Nosso noivado foi anunciado no Gazette h mais ou menos uma semana. E, por favor, eu prefiro no conversar a respeito do sr. Fabersham - completou, em tom seco.
  - No a culpo por isso, existem assuntos mais interessantes! J lhe contei sobre as minhas propriedades s margens do rio Volga?
  Conforme o conde discorria sobre as maravilhas da Rssia, Vanessa comeou a olhar em volta. Percebeu que o visconde conversava com uma linda mulher, mas no conseguia 
lembrar o nome dela.
  Tratava-se da srta. Fiona Sandstoner, que tinha conhecido lorde Peregren em sua temporada como debutante. Apesar de ter sido considerada uma das mais belas jovens, 
no tinha se casado e optara por viver no continente, fora de Inglaterra.
  - A senhorita precisa voltar a Londres, onde provavelmente receber vrias propostas - comentou o visconde.
  - Propostas a minha fortuna, o senhor quer dizer. Estou cansada de homens que s se interessam pelo meu dinheiro...
  - Talvez a senhorita pudesse escolher um pretendente que tenha dinheiro - sugeriu o visconde, penalizado.
- Ouvi dizer que o senhor quase casou - comentou a jovem, rindo.
  - As notcias voam, no? Mas no gostaria de falar sobre esse assunto.
  -  claro. Espero que o senhor venha me visitar. Poderemos conversar sobre os velhos tempos.
  -- Gostaria de poder, srta. Fiona. Mas no ficarei em Paris por muito tempo.
  Neste momento lady Margaret interrompeu-os, pois queria apresentar o sr. Weatherby  srta. Sandstone.
  - Ele  terrivelmente rico e no estar interessado em sua fortuna - comentou a velha dama, enquanto a conduzia na direo de um homem franzino e loiro.
  - Obrigada, milady, mas acho que j encontrei o cavalheiro que me convm.
  - Mas devemos sempre estar atentas a quaisquer possibilidades - sentenciou a ativa senhora.
  Pouco mais tarde, lorde Peregren pensou em tirar Vanessa para danar, mas ao lembrar-se da ltima vez em que tinham danado, desistiu da ideia. Decidiu jogar cartas, 
mas percebeu que a anfitri o chamava desesperadamente.
          Milorde, preciso de sua ajuda com urgncia. Quer dizer, Vanessa precisa. Aconteceu uma coisa horrvel!
         Por acaso, ela est discutindo com um de seus pretendentes no meio do salo? - perguntou o visconde. - Isso no me surpreenderia milady. Parece que a srta. 
Whitmore tem o dom de atrair problemas...
  Percorreram o salo e logo ele percebeu, a um canto, Vanessa, Fabersham e o conde. Os dois cavalheiros pareciam estar discutindo.
           Bem, dessa vez no  ela quem discute, mas garanto que  a causa da discusso! - comentou lorde Peregren.
  -        Oh, no  s isso - disse lady Margaret, aflita. - Se fosse, eu no estaria preocupada. O caso  que o conde Alexis desafiou o sr. Fabersham para um duelo, 
e o pior  que ele aceitou!

Capitulo X

Nunca pensei que Fabersham aceitaria um desafio - comentou o visconde, divertindo-se com o episdio. - Julguei-o mal. O que vo usar, pistola ou espada?
  - Espero que o senhor no v incentiv-los a continuar com esta insensatez! - Lady Margaret estava chocada com a atitude de lorde Peregren. - Tem de faz-los reconsiderar!
  - Minha senhora, duvido que isso ocorra. Afinal, um duelo  uma questo de honra.
  - Honra no tem nada a ver com isso. Vanessa est to preocupada! Por favor, ajude-a.
  O visconde duvidava muito que a srta. Whitmore aceitasse sua ajuda, mas resolveu ir oferec-la, pronto para tudo.
  - Milorde, por favor, o senhor precisa me ajudar! - disse ela, surpreendendo-o, assim que o viu. - Eles querem se bater em duelo!
  - Verdade? - O visconde observou os dois cavalheiros, que se encontravam no meio de uma discusso. - Felicitaes, sr. Fabersham. Acredito que este ser seu primeiro 
duelo, no?
- Como o senhor sabe disso? - estranhou o jovem.
  - Intuio. Se vocs no se importarem com a minha curiosidade, poderiam me dizer qual a causa do duelo?
  - O sr. Fabersham foi rude com a srta. Whitmore - respondeu o conde.
  - Qu?! - exclamou Francis. - O senhor  que foi insolente ao exigir que ela no se casasse comigo!
-  esta a causa do problema? - indagou o visconde.
  E enquanto os outros dois voltavam a discutir, ele tentava esconder, inutilmente, o quanto se divertia.
  - . E pare de rir! No h nada engraado - disse Vanessa, zangada. - J os proibi de duelarem, mas eles nem prestam ateno. Alegam ser uma questo de honra.
  - Est decidido. Ser no Bois de Boulogne, quinta-feira de madrugada - anunciou o conde Alexis. - A senhorita no precisa se preocupar: no ter de casar com este 
senhor. - Fez uma reverncia para ela e se retirou.

Cossaco prepotente! - murmurou Francis.
  - Lembre-se de que os russos nos ajudam na guerra contra Napoleo, sr. Fabersham. Alm disso, os franceses simpatizam muito mais com eles do que conosco, os ingleses.
- Espero que voc no esteja levando esse duelo a srio, Francis
-        disse Vanessa, preocupada.
-  claro que estou! - Era evidente o quanto ele se ofendera.
  - O que o russo disse que o enraiveceu tanto, sr. Fabersham? - perguntou lorde Peregren.
  - Disse que se Vanessa casasse comigo, estaria condenada para o resto da vida. Que ela deveria estar sendo obrigada pela famlia a fazer esse casamento. Que sou 
um idiota. Apesar de no ter a mesma habilidade com armas que aquele russo tem, estou decidido a enfrent-lo! - E, depois dessa declarao, despediu-se e foi embora.
- Espero que sua tia no se ofenda com a atitude dos cavalheiros -        comentou o visconde. - J jantou? Venha, vamos comer alguma coisa enquanto conversamos.
-        Como consegue pensar em comida numa hora destas?
Apesar desse comentrio, Vanessa conseguiu comer bem. E quando terminaram, passaram a discutir o problema.
  - O conde Alexis no admite que sou noiva de Francis por livre e espontnea vontade. Resolveu desafi-lo. Eles discutiram feio, alm de trocarem ofensas. O conde 
foi muito agressivo, rude, at.
  - No   toa que o seu Francis ficou to descontrolado - comentou lorde Peregren, procurando se manter srio.
  - Por favor, no brinque! Ele no  meu. Desse jeito o senhor no est me ajudando em nada.
  - No se preocupe com os seus pretendentes - disse ele, rindo abertamente. - At amanh j mudaram de ideia. Estaro mais calmos e poderei conversar com os dois.
  Como no havia nada que pudesse fazer naquele momento, Vanessa resolveu aproveitar o baile. No havia notado que a srta. Sandstone a havia observado e ao visconde, 
o tempo todo, com ateno. No comeo, ela achara que Vanessa no ia oferecer perigo, mas ao observ-!os juntos, comeou a mudar de ideia. Tinha de descobrir o que 
havia entre os dois. Ento, mais tarde, pediu a lady Margaret que a apresentasse a sua sobrinha.
- Est gostando de Paris, senhorita? - perguntou a srta. Fiona.
 -        E uma cidade interessante. Ainda no a conheci inteira, mas adorei o que vi at agora. Eu soube que a senhorita resolveu ficar aqui em Paris.
Vanessa procurava ser agradvel, mas no simpatizava com Fiona.
  Pelo menos, nestes ltimos dois anos. Mas sinto falta da Inglaterra. Perry acha que devo voltar a Londres, dizendo que a corte necessita de mulheres belas como 
eu. Ele sempre faz comentrios to encantadores!
  Como jamais ouvira qualquer comentrio encantador vindo do visconde, ela resolveu ficar quieta. Alm do que, estava comeando a achar  a srta. Sandstone uma pessoa 
extremamente desagradvel. No tinha mais dvida: no gostava de Fiona Sandstone.
  - Talvez at volte para Londres - continuou ela. - Mas agora que Perry est aqui... Somos to bons amigos! Podia ter me casado quando era debutante. Afinal, com 
a minha beleza e fortuna... Voc deve conhecer esse problema, no?
  - No sou uma beleza nem possuo uma fortuna, senhorita - respondeu Vanessa, em tom gelado.
- Oh... No queria ofend-la. Desculpe-me.
- No estou ofendida. Mas, por favor, continue.
  - O visconde me contou tudo sobre o acontecido com a srta. Hunnicutt. E tenho a soluo para o caso.
- E qual seria?
  Ela sentia-se surpreendida e meio descrente. No achava que lorde Peregren fosse de andar falando sobre a honra de uma jovem. Vai ver que ele e a srta. Fiona eram 
muito ntimos.
  - O pai da moa quer que ele case com ela, o que ele se recusa a fazer, com toda a razo - explicou a srta. Sandstone. - Mas, se o visconde fosse casado, no poderia 
casar com a srta. Hunnicutt, no ?
- No,  claro. Quer dizer que a senhorita e ele...
  -  a soluo! No sou uma estranha ou caadora de fortunas.
Sei que ele tambm no . Tudo se ajusta.
  - Tem razo - concordou Vanessa, irritada com o que acabara de ouvir. - Com licena, minha tia est me chamando.
  Feliz com o resultado da conversa, a srta. Sandstone saiu passeando pelo salo. Encontrou lorde Peregren pensativo.
-        Vamos danar, Perry - convidou, insinuante.
-        Com prazer - respondeu ele, estranhando a recente intimidade.
Vanessa no gostou quando os viu danando. Mas eles iam se casar... e ela nada tinha a ver com isso, repreendeu-se.
  Continuava tentando se convencer disso quando foi se deitar, nessa noite. Sabia que iria demorar a dormir.
Quando acordou, na manh seguinte, j tinha uma ideia de como terminar com aquela perigosa bobagem de duelo. E lady Margaret,
que achara seu baile um sucesso, perdeu o bom humor quando a sobrinha lhe falou nisso, ao caf da manh, e perguntou:
         Ser que entendi bem o que disse, Vanessa?
-        Isso mesmo, titia. Vou dizer ao conde Alexis que me casarei com ele.
- E o conde a pediu em casamento?
  - Ainda no. Mas j que eles vo duelar porque vou me casar com Francis, eu mudo de noivo. Assim, eles no tero mais motivo para o duelo. Daqui a uns tempos, 
desisto do casamento com o conde e pronto.
  -  uma ideia perigosa, menina! Alm disso, gosto muito do conde Alexis e no gostaria de v-lo magoado.
  - Tambm gosto dele, mas acho que pensa que est apaixonado por mim porque sou inglesa. Logo vai passar...
- Pode ser. E o sr. Fabersham? Ele quer casar com voc.
  - Mas no por gostar de mim, tia. Concordou com os pais em casar comigo s para alegrar minha me. Crescemos juntos e a amizade entre nossas famlias  profunda. 
Tenho certeza de que ele vai ficar feliz se no tiver de se bater em duelo, pois sabe que  morte certa.
  - Mas como vai conseguir que o conde a pea em casamento? - perguntou a lady, preocupada.
- Eu darei um jeito, titia. Sossegue...
 Teria de se esforar muito para encontrar esse "jeito", pois ela no tinha quase experincia em flertar e, menos ainda, em se fazer pedir em casamento. Bem, na 
hora veria.
Quando o conde foi visit-la, mais tarde, iniciou o ataque:
  - Milorde, peo-lhe que desista do duelo com o sr. Fabersham. No h motivo, pois vou romper o noivado com ele.
- Como assim? - indagou o russo, entre feliz e intrigado.
  - H tempo que eu queria faz-lo, mas no tive chance nem motivo. Afinal, uma mulher tem o direito de mudar de ideia quando encontra o homem de sua vida, no? 
- E olhou-o do jeito que sua irm, Clara, fazia quando flertava com algum.
  - Ainda bem que a senhorita recuperou o bom senso - comentou ele, doutoral. - Sei que os hbitos dos ingleses so muito diferentes dos nossos, mas gostaria de 
saber se a senhorita aceitaria minha proposta de casamento.
- Ficaria encantada, conde Alexis.
  Ele pareceu no esperar por aquilo. Ficou aturdido por instantes, depois puxou-a para si e beijou-a nos lbios, de leve. Vanessa come-ou a achar que a ideia no 
fora das melhores.
-        Sou o homem mais feliz do mundo! E a senhorita ir adorar a minha Rssia.
- Ento, vai desistir do duelo, como pedi, senhor?
  - Sim. Que o ridculo homenzinho viva. Tenho coisa mais importante em que pensar. - E comeou a falar como deveria ser a cerimnia de casamento deles, em So Petersburgo.
Pouco depois, o visconde Peregren foi anunciado.
  - Espero no incomodar - disse ele, depois de cumprimentar Va nessa e o conde Alexis.
  -  bom ter vindo. Ser o primeiro a saber que a srta. Whitmore e eu ficamos noivos - anunciou o conde, orgulhoso.
  - De fato? - indagou o lorde, com uma expresso que demonstrou o que pensava do fato. - Parabns. No entanto, devo lembr-lo que esta senhorita j est noiva.
  - Ela vai romper o noivado e casar comigo - declarou o russo.
- Tenho tudo na vida: sade, dinheiro e, agora, a mulher de meus sonhos!
- E quando ser o casamento? - perguntou o visconde.
- Logo - respondeu o nobre russo.
  - No to j - respondeu Vanessa ao mesmo tempo. E explicou, ao ver o olhar do conde: - O senhor ainda no conhece minha me e precisamos planejar tudo...
  - Claro, minha querida - concordou ele, levantando-se, e beijou-lhe a mo. - Preciso ir. Quero escrever a minha me, contando a feliz novidade.
  - As mes sempre do palpite demais, no ? - disse o visconde, assim que o russo saiu. - Mas creio que a senhorita nada tem a temer da sua. Pelo que sei, ela 
no far objees... Bem, vim contar que falei com o sr. Fabersham e ele no quer desistir do duelo.

- No vai haver duelo, graas a meu noivado com o conde Alexis.
  -  impressionante como a senhorita leva pouco a srio um compromisso de noivado! - comentou o visconde.
  -  mesmo... - Ela riu. - Acho que  por causa de Clara. Com uma irm linda como ela, cansei de ver os cavalheiros que se interessavam por mim mudarem de ideia 
ao v-la.
- A senhorita vale uma dzia de Claras...
  Ele disse isso to baixinho que Vanessa achou que poderia ser sua imaginao, mas, ao fitar os olhos dele, percebeu que estava emocionado. Ento sorriu-lhe, com 
os olhos brilhando, e ele retribuiu o sorriso, enquanto o corao dela batia mais rpido, sob o encanto daquele homem.
  -        Est, mesmo, decidida a casar com o conde Alexis? Quer se casar com ele? - perguntou o lorde, de repente.
  Sentiu vontade de dizer a verdade, mas dominou-se. Era melhor que todos pensassem que ia casar-se mesmo com o conde.
 - No consigo imagin-la vivendo na Rssia - murmurou ele, ao v-la assentir com a cabea.
- A condessa Lieven diz coisas maravilhosas sobre esse pas.
 - S que ela  russa... Bem, o sr. Fabersham deve ser uma pessoa muito querida pela senhorita, se est fazendo isso por ele.
 - s vezes acho graa nele, brinco a seu respeito, mas  um amigo muito querido e no quero v-lo machucado ou morto.
 - Ento, precisa falar com ele o mais depressa possvel. Quando o vi, estava preparando as armas. Se quer, mesmo, casar-se com o conde, desejo-lhe felicidade. - 
Dizendo isso, o visconde levantou-se para ir embora.
  Beijou a mo de Vanessa, que sentiu como se uma corrente eltrica lhe percorresse o corpo, a partir do ponto em que os lbios de lorde Peregren haviam lhe tocado 
a pele, com suavidade. Jamais sentira isso quando outros homens lhe haviam beijado a mo.
- Obrigada, milorde - disse, com voz trmula.
- No h o que agradecer, senhorita.
Ele tentava descobrir por que beijara a mo dela e por que se sentia to irritado com seu noivado com o conde russo.

Capitulo XI

O sr. Fabersham ficou surpreso ao ver Vanessa procur-lo e, mais ainda, quando ela disse que o noivado deles estava rompido. Perguntou, incrdulo:
-        Quer terminar nosso noivado? Por qu?
  Sentia-se ressentido. No estava apaixonado por ela, mas havia se convencido de que a ideia de se casarem fora dele, e no gostava da atitude que Vanessa acabava 
de tomar.
  - Seja sensato, Francis.  melhor assim. No h motivo para esse duelo bobo... Alm disso, desde que ficamos noivos, voc s vem ten do dor de cabea por minha 
causa...
- No  verdade. O que aconteceu com Lydia no foi culpa sua.
  O que dera em Francis para discutir? Ele no era assim, sempre fora cordato. Ou ser que no? Estava confusa. No lembrava de nada direito, a no ser de lorde 
Peregren beijando-lhe a mo. Por que ele havia feito isso? Ser que...
  - Essa atitude sua tem algo a ver com o visconde Peregren? - A voz do sr. Fabersham interrompeu-lhe os pensamentos. - Ele veio aqui hoje de manh, tentando me 
fazer desistir do duelo. H alguma coisa entre vocs dois?
  - Que bobagem! - defendeu-se Vanessa. - Gosto bem mais do irmo do que dele. E essa sua pergunta  absurda! Recuso-me a ser interrogada.
  - Tinto, concordo: o noivado est terminado. Tem de ser do jeito estranho que voc vem agindo. Primeiro, viaja sozinha com o jovem Hammet, depois tem sei l o 
que com o irmo dele e, agora, aparece esse conde russo!
  Enquanto chamava um fiacre, na rua, Vanessa, triste, pensava se merecera aquelas palavras; afinal, fizera tudo para salvar a vida de Francis.
  Entretando, lorde Peregren encontrava-se no Jardin des Tuileries com a srta. Sandstone. Encontrara-a l e aceitara o convite para passear na carruagem dela, naquele 
dia to lindo. Observara que Paris fazia bem a ela: estava muito bonita, com uma bela colorao no rosto levemente moreno.
 Pararam na Pont Neuf e ficaram olhando crianas que brincavam s margens do Sena.
-        J resolveu tudo com a srta. Hunnicutt? - indagou ela.
         No... Mas no vejo o pai dela h um dia. - Ele fez cara de desagrado. - Penso em ir embora, mas acho que ele iria atrs de mim.
  - Bem, ningum poderia obrig-lo a casar com ela se voc j fosse casado, no? - sugeriu Fiona, com ar tmido. - Se escolhesse uma mulher do seu nvel, com fortuna 
prpria...
  -  uma ideia interessante... - concordou ele, mas, para irritao da srta. Fiona, no disse mais nada.
 No entanto, mais tarde, ele pensou na sugesto. Nunca fora entusiasta do casamento e o que acontecera com Lydia reforara essa posio. Mas, se casasse com a mulher 
certa...
  Imerso em pensamentos, sentiu, de repente, que seu tlburi esbarrava num outro e voltou-se para repreender o descuidado cocheiro francs. Ento, viu que era seu 
primo Bertram.
  - O que faz por aqui, Bertie? - perguntou, depois de terem estacionado.
  - Perry! Nunca imaginei encontrar voc deste modo, nas ruas de Paris. Onde est Reg?
  - Em Viena, claro! - respondeu o visconde, surpreso. - Foi para l resolver o caso com sua bailarina, como voc pediu.
  - H alguma coisa errada nisso! - exclamou Bertram, confuso.
- Minhas bailarinas moram em Londres.
  A desconfiana que o lorde sentira quando o irmo lhe dissera para onde e por que ia viajar tornou-se uma certeza. Depois esclareceria isso com ele.
  O primo contou que estava em Paris porque os pais da srta. Rice, com quem pretendia casar, haviam-na mandado para a Frana a fim de separ-los. No concordavam 
com o casamento por causa da reputao dele. Achavam-no irrecupervel.
  -        Mas ela no se dobra a eles, e gosto mesmo dessa moa. Mame acha que se eu no me envolver com mais nenhuma atriz, os pais dela acabaro acreditando 
em mim. Mas resolvi vir e ficar atento: eles podem tentar cas-la com outro.
  Depois de conversarem, informaram-se onde estavam hospedados e despediram-se.
J em seu apartamento, no hotel, lorde Peregren voltou a pensar na soluo para seu caso. Fiona seria uma boa escolha. No era como Vanessa, que no tinha fortuna 
e era apenas uma jovem bonita, de personalidade forte. Tivera chance de perceber que a me e a irm no davam muita ateno a ela... Suas mos apertaram com fora 
os braos da poltrona.
  "Por que penso tanto nessa moa?", perguntou a si mesmo, e aconselhou-se a parar com aquilo.

  Nas semanas seguintes, o visconde foi visto em companhia da srta. Sandstone em vrios lugares. Vanessa, que fora s mesmas festas, vira-os juntos. O sr. Hunnicutt 
tambm, e ficou zangado com o fato de aquele homem estar cortejando uma mulher, enquanto sua Lydia esperava um filho dele. E na primeira oportunidade, comentou o 
fato com a srta. Whitmore.
  -        O senhor no tem por que se preocupar. Lydia me contou que lorde Peregren no  o pai da criana - disse-lhe ela.
O cavalheiro fungou, demonstrando desagrado, e afastou-se.
  -        Ser que a ouvi, mesmo, defendendo meu primo, srta. Whitmore? Quase no acredito!
Ela riu e aceitou a taa de champanhe oferecida por Bertram.
  -        Tinha de defender; no gosto de ver ningum acusado injustamente. Tenho pena de seu primo, o pai de Lydia  terrvel!
  O sr. Turnberry sabia a opinio do primo sobre o sr. Hunnicutt e limitou-se a sorrir. Continuaram conversando e, a certa altura, Vanessa perguntou:
  - O senhor acha que o visconde est interessado na srta. Sandstone? - Arrependeu-se. Jurara no perguntar aquilo.
  - Creio que sim. Ele no costuma brincar com essas coisas... Ah, soube que ficou noiva do conde Alexis. Parabns!
  Quando o sr. Bertram se afastou, o conde aproximou-se da noiva, perguntando, srio:
- Quem  esse homem? Um de seus pretendentes?
  - Bertram Turnberry?  apenas um conhecido e... - Ento deu-se conta do tom e da pergunta dele. - O senhor est sendo ridculo! -zangou-se.
  - Desculpe-me, minha querida...  que fico louco quando a vejo sorrir para outro homem.
  Ela jamais fora alvo de adorao masculina, e imaginou se suportaria e saberia lidar com aquilo. Sentia algum carinho pelo conde, pois percebera que era um solitrio 
com saudade de casa. Aceitou as desculpas e foram danar.
  Mais tarde, quando Vanessa estava ao lado da tia, ambas foram convidadas para uma reunio musical na casa da srta. Sandstone, na sexta-feira  noite, que explicou 
a elas:
  - Vou tocar minha harpa... A senhorita toca algum instrumento ou, por acaso, canta? - perguntou a Vanessa.
- No - respondeu ela. - No tenho dons musicais.
 pena! Perry adora msica. - Fiona sorriu. - Quanto mais ficamos juntos, mais descobrimos coisas em comum.
  - Se lorde Peregren no tomar cuidado, vai acabar fisgado por essa moa - comentou lady Margaret, assim que a srta. Fiona se afastou.
  - Est mais do que claro que ela o quer.
  - Formam um belo par - disse Vanessa, triste. - Ela  linda, rica...
  -  E presunosa! - completou a velha dama, aborrecida.
  No dia seguinte, outra bela manh de primavera, o jovem Hammet retornou. Mesmo antes de se trocar, decidiu acompanhar o irmo no almoo, tentado pelo apetitoso 
peito de frango ao molho de mostarda.
  Assim que sentou-se  mesa, depois de se cumprimentarem, o visconde perguntou:
- Ento, encontrou a bailarina de Bertie?
- Claro! Sem o menor problema!
- Estranho... Ele me disse que no tem bailarina alguma em Viena.

- Perdendo a pacincia, lorde Peregren deu um soco na mesa e gritou:
- No quero mais saber de mentiras, Reginald! Bertram est em Paris e no tem a mnima ideia do que voc foi fazer em Viena. Se est metido em alguma encrenca,  
melhor que me conte logo.

- No  nada disso! Mas no posso lhe contar...
- Sei. - A voz do visconde soou ameaadora, fria.
  - Mais tarde voc vai entender... Desculpe, agora tenho de me arrumar e ir falar com...
- Com quem?
  - Bem, pensei em visitar a srta. Whitmore - Reginald viu-se obrigado a dizer.
  - Ento, antes de sair correndo, saiba que ela desfez o compromisso com o sr. Fabersham e est noiva do conde Alexis.
- Qu?! - O jovem Hammet no escondeu a surpresa.
  Ento o lorde arrependeu-se de sua dureza, pois era evidente que seu irmo estava apaixonado por aquela mulher.
- No pode ser! - ele duvidava. - Ela...
  - Os dois cavalheiros acertaram um duelo por causa dela e, para resolver o impasse sem sangue, ela rompeu com o sr. Fabersham e ficou noiva do conde.
  Comentaram um pouco mais o caso, e ento o jovem lorde foi se arrumar para sair. Seu irmo ficou pensando enquanto saboreava um licor. No gostava da influncia 
que a srta. Whitmore exercia sobre o jovem Reginald. Talvez isso fosse tudo, talvez ele no estivesse apaixonado. Jamais o vira apaixonado, mas ele agia de forma 
to estranha ultimamente!
  Uma coisa o preocupava mais: o que o irmo teria ido fazer em Viena? Ainda bem que se encontrava ali. Pelo menos poderia vigi-lo e im-Pedir que cometesse alguma 
loucura.

Capitulo XII

  Quando chegou  casa da srta. Whitmore, o jovem Hammet a encontrou saindo para ir visitar Lydia.
  - Venha comigo - sugeriu -, assim lhe dar pessoalmente notcias de herr Schiller.
  - No tenho notcias - disse o rapaz, desolado. - No o encontrei e ningum por l sabe onde ele est.
- Oh, pobre Lydia! Nem sei como lhe contar isso...
  - Pois , nada consegui e, ainda por cima, fui apanhado. Meu irmo sabe que menti sobre minha viagem a Viena. - E, diante da expresso curiosa e aflita de Vanessa, 
explicou: - Eu disse a ele que ia, a pedido de Bertie, resolver um caso de amor.
  - A ideia foi boa, pena ele ter vindo para c. Lorde Peregren ficou muito zangado?
  - Um pouco. Mas, por falar nisso, ele me contou que a senhorita
ficou noiva do conde Alexis. No pode ser verdade! Por que tanta preocupao? - perguntou ela, que tinha uma afeio fraterna por ele.
  Ele ia dizer alguma coisa quando o fiacre parou em frente da casa de Lydia. Desceram e foram recebidos por ela, que ficou feliz ao v-los.
-        O que vocs tm feito para se divertir? - perguntou, ansiosa.
-        Quais as ltimas novidades? Papai insiste em me manter prisioneira como uma criminosa! - lamentou-se.
  - Lorde Hammet acaba de chegar de Viena, onde foi procurar herr Schiller - disse Vanessa, sem responder s perguntas que ela fizera.
- A senhorita co... contou para ele? - disse Lydia, assustada.
  - Precisei contar. Entenda, eu no podia fazer nada sozinha. Precisei pedir ajuda.
  - Infelizmente eu no trouxe notcias de Johann, senhorita. No o encontrei. Parece que h quinze dias partiu para a Inglaterra e no mais foi visto - disse ele, 
triste.
- Ento, aconteceu alguma coisa a ele, quem sabe est morto... - murmurou ela, apavorada. - Meu filho nunca conhecer o pai... E comeou a chorar. - No posso continuar 
mentindo a papai por muito tempo - tentou enxugar as lgrimas -, e lorde Peregren no vai casar comigo! Eu soube que ele est cortejando aquela horrvel srta. Sandstone!
  - No fique assim, calma! - Vanessa tentou consol-la. - Herr Schiller aparece, voc vai ver. Calma...
  - O visconde me disse, uma vez, que eu era a mulher mais linda que conhecia e... e agora estou horrorosa, inchada e... e... - Olhou para o ventre intumescido, 
chorando mais.
- Est enganada. - Vanessa deu um cutuco em Reginald.
-        Qu?... Ah, sim... A senhorita  muito bonita!
Lydia fungou, sem se consolar com o elogio arrancado.
  - E no ligue para a srta. Sandstone - continuou o jovem lorde.
- Ela  uma velha amiga nossa, muito rica. A fortuna dela  quase igual  de meu irmo.
- Ah! Ento ela  uma herdeira? Entendo...
  Lydia parecia mais conformada, uma vez que o ex-noivo a trocava por uma mulher mais rica. Isso ela conseguia entender.
  O sr. Hunnicutt chegou quando eles conversavam calmamente, saboreando os bombons que Vanessa trouxera para a Lydia.
  - Lorde   Hammet   -   disse   ele,   carrancudo,   sem   sequer cumpriment-los -, faa-me o favor de avisar seu irmo que estou perdendo a pacincia.
  - Papai... - pediu Lydia, chorosa -  tarde demais. Ele vai casar com a srta. Sandstone, que  mais bonita e mais rica do que eu.  melhor o senhor no insistir. 
Por isso...
  - Quieta, menina! Vou v-la casada com o visconde Peregren, nem que seja a ltima coisa que faa em vida!
  - ...eu resolvi aceitar o pedido de lorde Hammet - continuou Lydia, calmamente.
- Qu?! - O pai dela no cabia em si de espanto.
  O jovem lorde, que mastigava um bombom, engasgou-se e comeou a tossir. Vanessa bateu-lhe nas costas, para ajud-lo.
  - Sei que  uma surpresa para todos - a jovem continuou, sem ligar para a reao dos que a ouviam. - No vamos nos casar j e no precisa continuar perseguindo 
o visconde, papai. Seu neto vai ter um pai, tambm.
- Olhem aqui, eu... - comeou o jovem Hammet, aflito.
  - Sei que no tem o ttulo e a fortuna de seu irmo, mas acho que est bem. - O sr. Hunnicutt estendeu a mo ao futuro genro. - Bem-vindo  famlia. Pode me chamar 
de papai!
  Lorde Hammet tentava falar, mas a voz no saa, e Vanessa observava os acontecimentos fascinada.
-        Ser que pode nos deixar sozinhos, papai? - pediu Lydia, e, quando viu que Vanessa ia sair com ele, gritou: - No! Voc fica.
  - O que pretende com isso? - perguntou Reginald, assim que o sr. Hunnicutt fechou a porta.
  - Foi o nico jeito que achei de ganhar tempo, a fim de voltar para Londres e procurar Johann. No se preocupe, no pretendo me casar com o senhor.  $ para meu 
pai sossegar.
  - Devia  ter-nos  avisado,   antes  de inventar essa histria  -repreendeu-a Vanessa.
  - De que jeito? Acabei de ter a ideia. Tenho de ir para a Inglaterra, procurar Johann - disse, toda animada.
  - E se no o encontrar? - perguntou o jovem lorde. - No quero me casar com a senhorita. Nem a conheo!
  - Isso no vai acontecer. Se no encontrar Johann, caso-me com qualquer um que papai escolha... No se aflija.
  Quando saram da pequena casa e tomaram um fiacre, Vanessa comentou, pensativa:
- Agora entendo como Francis se envolveu nessa histria!
  - S espero que meu irmo no venha a saber disto! - Reginald gemeu, ainda atordoado.
  Uma hora mais tarde, quando ele chegou em casa, encontrou o irmo andando na sala como um leo enjaulado.
  -        O sr. Hunnicutt veio me contar que voc vai casar com a filha dele! - explodiu ao v-lo. - Ficou louco? Voc disse que ia visitar a srta. Whitmore! Explique 
essa confuso!
  Sem saber o que responder, lorde Hammet olhava para o irmo. Por fim, decidiu aproximar-se da verdade.
  - O pai de Lydia queria que voc casasse com ela, no? Pensei que se a pedisse em casamento ele o deixaria em paz.,
  - Eu poderia resolver esse problema, menino, sem voc precisar se sacrificar!
  - E no vou fazer isso! Adoro a vida de solteiro. Ela no pretende casar comigo, porque est esperando o verdadeiro pai do beb chegar...
  - Tem certeza? - O irmo assentiu. - Bem, vai ser melhor para aproveitar Paris sem aquele homem nos meus calcanhares...
  - E no precisa mais cortejar a srta. Fiona! - O irmo encarou-o, surpreso, e ele prosseguiu: - Tem se encontrado com ela, no?
- Nossos caminhos cruzaram-se algumas vezes, sim.
  - Ouvi dizer que foram muitas vezes. No precisa mais cortej-la, agora que o sr. Hunnicutt vai deix-lo em paz.
- Por que acha isso? Fiona  uma moa encantadora.
- Eu sei. E rica, tambm. Mas se voc quisesse casar com ela, teria feito isso h anos. Mas dizia que aquela moa no tinha senso do ridculo, lembra? Fomos a um 
piquenique e ela reclamava de tudo: da comida, das formigas, do sol... Ficou aliviado quando ela veio para c e lhe deu sossego.
- Parece que andei lhe contando mais do que devia...
  - Concordo, ela  bonita - prosseguiu Reginald -, porm  preciso mais do que beleza em um casamento. Voc precisa de algum que saiba ser companheira, que tenha 
esprito firme, que seja inteligente e tenha senso de humor.
  - Voc parece a tia Elizabeth falando com o Bertram! - comentou o visconde, rindo. - Em vez de ficar a me passando sermo, devia prestar ateno na mulher pela 
qual se apaixonou.  Tenho comentrios a respeito, tambm, mas sou discreto.
- Que mulher? - perguntou o jovem lorde, perplexo.
- Sabe bem de quem estou falando!
E o visconde saiu da sala, deixando o irmo falando sozinho.
  Na sexta-feira  noite, Vanessa e a tia foram  reunio musical da srta. Sandstone. Como esperava, a maior parte dos convidados a ignorou, achando-a provinciana. 
Mas a anfitri no podia fazer isso. Afinal, ela era noiva do conde Alexis, que ia dar uma audio de balalaica.
  -  um instrumento parecido com o alade - explicou ele  noiva -, para ser tocado ao mesmo tempo em que se dana.
- Ah! E vai tocar e danar, ento? - quis saber ela.
  - Sim. A srta. Sandstone foi muito gentil me pedindo que tocasse.
Outros convidados tambm o faro. Ah, vejo que no trouxe nenhum instrumento. Toca piano, por acaso?
- Sinto desapont-lo, mas no toco nada.
- Boa noite - disse uma voz atrs dela, nesse momento.
Era o visconde Peregren, que chegara acompanhado pelo irmo.
  - Boa noite - Encontrou Vanessa, sria, mas sorriu para o jovem Hammet. Ento notou - Vejo que no trouxeram nenhum instrumento...
  - De fato, mas Fiona pediu-me que faa um dueto com ela, acompanhando-a ao piano - disse o visconde.
- E o senhor, lorde Hammet? - perguntou o conde.
- No tenho talento algum...
  - Ento, espero que me faa companhia - alegrou-se Vanessa. -Podemos juntar nossa falta de talento e chorar...
- Minha querida, no fique triste! - exortou o conde.
- Oh, conde Alexis, que prazer v-lo - interrompeu a anfitri, aproximando-se. - Vejo que trouxe sua balalaica! Temi que no tivesse nada com a msica, como sua 
noiva!
  E ela percebeu que cometera uma gafe quando o nobre russo olhou-a como se quisesse mat-la. Tratou de ir cumprimentar outro convidado para escapar da situao 
embaraosa.
- Ela s brincou... - tentou justificar o visconde.
  - No se preocupe, milorde. No me ofendo com comentrios maldosos de pessoas que no me conhecem - revidou Vanessa.
  - No? - O tom do lorde era irnico. - Tive impresso diferente quando nos conhecemos, na Inglaterra. Lembra-se?
- Como poderia esquecer? O senhor foi to bem-educado!
  - A senhorita tem grande senso de humor! - disse o visconde, rindo com gosto.
  O russo, ento, levou a noiva para o lugar onde ela deveria sentar-se e se esmerava em dar uma poro de explicaes para o ocorrido, tentando anim-la.
  Mas ela no estava desanimada, nem ofendida. Pensativa, cismava se a luz que vira brilhar naqueles lindos olhos verdes seria mesmo de admirao, como parecera.

Capitulo XIII

A noite foi mais aborrecida do que lady Margaret previra. A anfitri tocou durante quase uma hora e cedeu o lugar para uma amiga, que cantava.
  - No consigo suportar nem mais uma nota! - reclamou o jovem Hammet para o irmo, a seu lado.
  - Voc quis vir, no o arrastei at aqui - respondeu ele, que tambm no suportava aquele tipo de festa.
  - Porque achei que ia encontrar Vanessa e Bertie, e pensei que nos divertiramos.
- Coragem! Quem sabe algo interessante acontece!
  A srta. Sandstone ouviu, por acaso, o comentrio do visconde e ficou vermelha de raiva. Estava aborrecido com sua reunio? Pois teria uma surpresa, pensou ela.
  Depois que sir Charles Kenrick terminou de tocar violino, ela foi at a frente da sala, apresentar o conde Alexis.
  -        Ele tocar um instrumento de sua terra natal, a balalaica - anunciou -, e a srta. Whitmore ir acompanh-lo.
Vanessa, sentada ao lado da tia que dormia placidamente, protestou:
- Desculpe, mas no vou participar da apresentao.
  - A srta. Whitmore  tmida - atacou Fiona de novo -, vamos encoraj-la com uma salva de palmas!
- Acabou?! - perguntou lady Margaret, acordando.
  - Conde Alexis, por favor, ajude-nos a convencer sua noiva a acompanh-lo - pediu a anfitri.
  - A srta. Sandstone parece ansiosa por ver a srta. Whitmore se apresentar - murmurou o visconde para o irmo.
-        Demais! E sabe que ela no toca nem canta!
Vanessa apavorou-se quando o conde a chamou, sorrindo.
  - Milorde, sabe que no sei tocar nem cantar - disse-lhe, baixinho, quando ele foi busc-la e a levou para a frente, todo animado.
  - Voc s ter de danar, minha querida! - E, deixando-a incerta, voltou-se para os convidados: - A srta. Whitmore e eu faremos a demonstrao de uma dana russa.
Como tinha muito senso de ritmo, agilidade e adorava danar, aos poucos ela foi conseguindo pegar os passos do conde, que tocava e danava. Pouco depois, descontraiu-se 
e, entregue ao prazer da dana, acompanhou-o com graa e perfeio. Quando terminaram, estava corada, sorridente.
-        Bravo! - aplaudiu o jovem Hammet, entusiasmado.
 Todos aplaudiam, encantados, enquanto ela voltava para seu lugar, deixando o noivo continuar sua apresentao. Quando ele terminou, foram descansar na sala onde 
serviam bebidas. O conde cumprimentou-a, orgulhoso:
 -        Voc danou maravilhosamente, nem parecia que era a primeira vez. Ir danar com o czar, meu primo. Ele dana muito bem.
  Nesse momento, o jovem Hammet descobriu que uma de suas pernas adormecera e criava um pequeno desassossego entre os convidados seus vizinhos, ao tentar desentorpec-la 
batendo o p no cho. Aproveitando a chance, lorde Peregren saiu com ele.
  - Se eu soubesse que seria to fcil escapar de l, teria tido uma cibra antes - comentou Reginald enquanto andava de um lado para o outro, na sala de bebidas, 
para restabelecer a circulao.
- Bem, no estava to ruim assim! - disse o visconde.
  - Talvez para voc... E a sua amiga Fiona foi grosseira obrigando a srta. Vanessa a se apresentar... - E, vendo-a aproximar-se: - Danou muito bem, minha amiga, 
parabns!
  - Obrigada! Devo agradecer tambm a sua srta. Sandstone por ter tido esse prazer, milorde - disse ao lorde Peregren.
 Ele ia reclamar do possessivo usado, porm a anfitri aproximou-se, com alguns convidados, entre os quais lorde Bertram, que apresentou a srta. Rice aos primos. 
Ela era bonita, simptica e estava acompanhada pelos pais.
  - Perdido em pensamentos, Perry? - indagou a srta. Sandstone, vendo que ele se mantinha calado, alheio  conversa geral.
- No. Estou achando sua reunio interessante.
  - Obrigada! Deu trabalho organiz-la, mas voc me inspirou. - Vendo o ar de estranheza dele, prosseguiu: - Outra noite, disse-me que gostava de msica.
  -        Srio? Voc me assusta, querendo realizar todos os meus desejos; preciso tomar cuidado.
  - No faa isso... - Ela riu. - Tudo est timo. S no gostei do comportamento da srta. Whitmore, primeiro recusando-se a participar, depois danando de maneira 
escandalosa!
- Acho que vimos danas diferentes, no vi nada escandaloso... - replicou ele.
- Perry! Foi to vulgar! Vi os tornozelos dela!
  - No me diga! Ento, foi pena eu perder isso. Olhe, Fiona, no seja to severa. Voc a obrigou a apresentar-se...
- Pensei que ela ia cantar e no mostrar-se sem pudor!
  - Eu estava por perto quando ela informou que no sabia cantar e nem tocar instrumento algum.
  - Ser? - indagou a anfitri, aparentando inocncia. - Devo ter me esquecido, ento.
- Claro que esqueceu - concordou o visconde, sorrindo irnico.
-        Seno, teria sido uma provocao de sua parte, alm de uma lamentvel grosseria.
  Mais tarde, quando se encontravam a caminho do hotel, o jovem lorde comentou:
  - Eu no aguentava mais a reunio, mas pensei que voc quisesse ficar mais. E Fiona mal se despediu de ns, parecia estar engasgada com uma espinha de peixe.
- Foi algo maior, uma balalaica, acho.
  - Ento foi isso - exclamou Reginald, rindo. - Ela resolveu colocar a srta. Vanessa em m situao e acabou valorizando-a. Gostei, porque ela  boa amiga, bonita, 
inteligente e tem muito senso de humor.
  Achou que poderia, com jeitinho, fazer o irmo se interessar pela amiga de quem ele gostava muito. Haviam chegado ao hotel e subiam para os apartamentos.
  - Reginald - disse o visconde, tentando fazer o irmo parar de falar. - Sei que so amigos, mas voc est ficando insistente demais e me deu uma terrvel dor de 
cabea.
  - Ser que  to difcil perceber as qualidades dela? - perguntou o jovem lorde, com ar triste e inocente.
  Precisava conversar com aquele menino, pensou o visconde. Estava mesmo se apaixonando. Resolveu mudar de assunto:
  - Acho que os pais da srta. Rice nunca aceitaro o Bertie... E ele a ama, mesmo. Tenho a impresso de que procuram um outro marido para ela.
- Por que no tenta falar com o sr. Rice? - perguntou Reginald.
-        Quem sabe poderia ajud-lo.
  -        Voc inventa cada coisa, Reg! - Vendo a cara desapontada do irmo, disse: - Est bem, se tiver uma chance, eu falo. Mas olhe, no estou prometendo nada!
  Depois, o visconde se encaminhou para seu quarto. No tinha a menor vontade de interferir em romances alheios. J bastava o estrondoso fracasso do seu.
Na manh seguinte, Vanessa tomou o caf da manh sozinha, pois sua tia amanhecera indisposta. Preocupada, subiu para ver como ela se sentia.
  -  s dor de cabea - disse a velha senhora, acomodada em sua enorme cama com dossel. - Deve ter sido aquela harpa horrvel! E aquela mulherzinha maligna! Obrigar 
voc a danar quando no queria!
- Ainda bem que o conde me ajudou!
  - Devemos agradecer-lhe. Acho que vou dizer ao Pierre que prepare uma Borscht para o jantar e convidarei o conde... se bem que eu odeie beterraba. Isso  para 
voc ir se acostumando, querida, pois me disseram que esse  o prato preferido dos russos.
  - Confesso que no aprecio muito esse prato, mas concordo. S que vou pedir ao Pierre que faa um caldo de galinha para a senhora, no almoo.
  - Nem pense nisso! Um pouco de gua de lils na testa e um descanso, e logo ficarei boa. Sinto no poder ir com voc para comprarmos as luvas... Ah! Prometi  
mademoiselle LeDoux que iria  casa dela hoje  tarde. Voc pode escrever um bilhetinho dizendo a ela que no vou, pedindo desculpas?

  - Pois no, farei isso agora mesmo. Ah, titia, lembrei que tenho um vidro de tnico que talvez ajude. Vou pedir a Polly que o traga para a senhora.
- Se for um daqueles tnicos da sua me, muito obrigada, prefiro morrer a ter de tom-lo.
  -        Calma, titia! - respondeu Vanessa, rindo. - Foi outra pessoa que me deu, aquela senhora com quem eu viajei.
  Vanessa pediu a Polly que lhe desse a garrafa com o elixir, e a criada respondeu que no sabia se a guardara ou jogara fora, mas que iria ver. Chegou com o remdio 
quando ela escrevia o bilhete para mademoiselle LeDoux, na biblioteca.
  - Aqui est a beberagem horrvel - disse, com uma careta, entregando a garrafa  patroa. - Quer que eu a leve  lady?
  - No, obrigada. Eu mesma levo, assim, quem sabe, consigo que la beba um pouquinho. Mas, por favor, pea ao Michaels que mande este bilhete para a mademoiselle 
LeDoux.
  Polly foi levar o bilhete ao mordomo e Vanessa pegou a garrafa. A-chou-a pesada demais. Destampou-a, cheirou e quase no sentiu odor. Curiosa, sacudiu-a e ouviu 
um barulho estranho. Engraado! Parecia barulho de pedras. Virou-a de cabea para baixo e algo entalou no gargalo. Com uma faca, tentou soltar o que estava l dentro 
e, de repente, um colar de safiras caiu no tapete.
  Pegou-o, com uma sensao estranha ao toc-lo, com medo de pensar o que comeava a vir-lhe  cabea. Seria possvel? No, no era.
No entanto, estava com ele nas mos. O colar da sra. Devlin!

Capitulo IV

Por alguns instantes, Vanessa ficou sem ao, como que abobalhada. Quer dizer, ento, que a sra. Bender no era inocente como parecia? Ouviu passos que se aproximavam 
e enfiou o colar de novo na garrafa.
-        Lorde Peregren est aqui, veio visit-la - avisou Polly.
Sem imaginar qual poderia ser o motivo da visita, ela foi ao salo azul, para onde Michaels levara o visconde.
  - Bom dia, srta. Whitmore - cumprimentou ele, elegantemente vestido, como sempre, e olhando-a de maneira estranha.
  - Bom dia, milorde... - Ela colocou a garrafa numa mesinha. - O senhor quer falar comigo?
  - Sim... - Ele fez uma pausa, como se no soubesse de que jeito comear. Enfim, decidiu-se: - Meu irmo  muito jovem, senhorita, e, apesar de agir como se fosse 
experiente, ainda  imaturo e inocente.
- Seu rosto tornou-se sombrio, com uma expresso de profunda desagrado. - No gosto de interferir em assuntos que no me dizem, respeito, mas Reg est to apaixonado 
que resolvi vir falar com a senhorita.
  - Apaixonado? O senhor est equivocado, milorde. Ele no lhe explicou a situao? Fiquei to surpreendida quanto seu irmo, quando Lydia inventou aquela histria 
e...
  - No me refiro ao noivado dele com a srta. Hunnicutt, se bem que imaginei se no teria sido ideia da senhorita.
  - Minha? Claro que no! - negou ela, veemente. - Parece que o senhor sempre faz a pior opinio possvel de mim. Eu jamais iria sugerir isso. Ento, do que se trata?
  - Da senhorita - disse ele. Em seguida, levantou-se da polirona e comeou a andar de um lado para o outro.
- De mim? Como... O que quer dizer, milorde?
  - Pode parecer ridculo da minha parte, mas Reg no consege dizer duas palavras sem que uma se refira  senhorita, por isso estou preocupado. No gostaria que 
uma mulher se aproveitasse da puca idade e da inexperincia dele. Talvez a senhorita no queira desencoraj-lo, pois deve gostar disso, mas insisto, por favor, que 
pense neie!
At ento, apesar do espanto, Vanessa escutara educadamente mas ao ouvir as ltimas palavras, perdeu a pacincia. Lorde Peregren parecia acreditar que ningum, em 
s conscincia ou em bom juzo, poderia interessar-se por ela. Respirou fundo, tentando se controlar, e respondeu:
  - Compreendo sua preocupao, milorde. Fique sossegado, estou acostumada. J desencorajei dzias de pretendentes.
- No  o caso de a senhorita escarnecer do meu pedido!
  - Escarnecer?! O senhor vem a minha casa, acusa-me de ter ms intenes em relao ao seu irmo, e eu  que estou escarnecendo? Esqueceu que sou noiva do conde 
Alexis?
  - No a acusei de nada. Por Deus! Ser que no consegue me entender, nunca?! Reg apaixonou-se pela senhorita e eu vim pedir que o desencoraje... ou quer que o 
conde tenha cime?
  - Oh! Como ousa?! - Ela no podia suportar tanta grosseria e atrevimento. - Jamais quis que homens brigassem por minha causa, milorde!
  - Mesmo? Esqueceu-se do duelo? Bem, minha preocupao  com Reg. Espero que no se tenha determinado a aprisionar o corao de um menino.
  - Aprisionar o corao? Milorde, est falando como os heris de romances!
- No quero que meu irmo se apaixone por uma mulher que ...
- Uma solteirona sem atrativo algum - interrompeu ela.
  - Ser que nunca vai esquecer que eu disse isso? - perguntou o visconde, exasperado.
- Pode ser... se o senhor pedir desculpas - respondeu ela, calma.
- Pensei que j tivesse pedido desculpas.
  - Minha memria  muito boa, milorde. - Ela no o deixaria escapar facilmente dessa vez. - Eu lembraria se tivesse pedido.
  O nobre encarou-a, zangadssimo. Ningum jamais o obrigara a se desculpar de qualquer coisa.
-        Estou esperando, senhor - disse ela, suavemente.
- Peo desculpas. - As palavras saram entre os dentes.
Aquela mulher era impossvel!, pensou ele.
- No entendi o que o senhor disse.

  - Desculpe-me! - explodiu ele, quase gritando. - Desculpe-me por t-la chamado de uma coisa que no . Mas me reservo o direito de dizer-lhe que  geniosa, prepotente, 
irritante e impossvel!
  - Bem, no se consegue ser perfeito, no ? - retrucou Vanessa, meiga, com ar conformado.
  Ento, os olhos verdes encontraram os olhos azuis e, depois de um instante de silncio, o visconde desatou a rir.
E  insolente! - acrescentou. - No vou pedir desculpas por dizer isto!
 _- Nem eu pedirei desculpas por cham-lo de imbecil - revidou ela, amavelmente. -  o que o senhor , por achar que estou seduzindo lorde Hammet. Ele  meu amigo! 
E se ele tentar flertar comigo, pedirei ao conde que o desafie para um duelo. Contente, agora?
 - Pelo menos meu irmo  um oponente melhor do que o pobre Fabersham. Por falar no conde, ele continua pintando?
- Desistiu. Agora faz poesia.
- E a senhorita  a musa?
 - Creio que sim, mas no tenho certeza, porque escreve em russo.
Ento, acredito no que ele diz.
 Lorde Peregren voltou-se para a mesinha e, ao ver a garrafa, pegou-a e comeou a abri-la para cheirar o contedo.
 - No faa isso! - pediu Vanessa. - Pode derramar o tnico e minha tia precisa dele.
- Espero que ela no esteja muito mal...
 - No est.  apenas uma forte dor de cabea causada pela seo de harpa de ontem - respondeu ela, pegando a garrafa. - Por acaso o senhor conhece os Devlin, de 
Wiltshire?

- O nome no me  desconhecido... Por qu?
 - Se no conhece, no pode me ajudar. Tenho de achar outro jeito de resolver o problema.
- Deixou-me curioso, srta. Whitmore. De que se trata?
  Ela pensou por alguns momentos. Seria bom ter com quem dividir as preocupaes. E, afinal, ele pedira desculpas por t-la chamado de solteirona. Decidida, abriu 
a garrafa e sacudiu-a.
-        Este  o meu problema! - E deu o colar ao visconde.
Ele identificou o colar como sendo um trabalho do ourives Rundell e comentou:
- Estranho esse seu porta-jias, senhorita. Original!
 - O colar no  meu... No me olhe desse jeito, no o roubei! Lorde Hammet contou como nos conhecemos?

- Sim, disse que a senhorita estava sendo acusada de roubo.
 - . De ter roubado o colar de safiras da sra. Devlin, que eu no tinha visto at agora. A sra. Bender deve t-lo roubado e escondido na garrafa. Ento, deu-a ao 
seu irmo, com medo de ser revistada e descoberta. Depois, ele a deu a minha criada...
 - Claro, ela no poderia devolver o colar sem confessar que era ladra. Mas por que no o conservou? A no ser que se tenha enganado ao dar a garrafa para Reg. Ela 
trazia muitos elixires? - quis saber o visconde.
  - Sim... Acho que uma dzia de garrafas. O senhor acha que pode devolver o colar? Eu tenho o endereo dos Devlin.
- Deixe que eu me encarrego disso - prometeu ele.
  Ela escreveu o endereo num papel e, nesse momento, o conde Ale-xis entrou na sala.
  - Minha querida... - Parou, abruptamente, ao ver que havia mais uma pessoa. - Lorde Peregren?
  - Bom dia, senhor - o visconde cumprimentou-o, guardou o papel e o colar num bolso e se despediu: - Passem bem.
  - Bom dia, conde Alexis - cumprimentou Vanessa. - Tia Margaret mandou fazer Borscht para esta noite, a fim de convid-lo para jantar conosco. Voc gostaria...
  - Eu gostaria  de saber por que deu um bilhetinho para lorde Peregren. No sou cego. Vi, tambm, o olhar que trocaram.
- Senhor, isso  um absurdo!
- Se aquele papel no era um bilhetinho de amor, o que era, ento?
- Algo particular, que no lhe diz respeito, milorde.
  Vanessa achava que quanto menos gente soubesse do roubo do colar, seria melhor.
  - Claro que me diz respeito. No quero saber de minha esposa com essas intimidades com um homem - disse o conde, de maneira to intensa que assustou Vanessa. - 
Quem garante que no eram os detalhes para um encontro amoroso?
  - No era nada disso, senhor. E no sou sua esposa, ainda! Mas se quer saber, era um endereo!
  - Ento, confessa! O endereo de onde iro se encontrar, tenho certeza! E acho que...
  - Isso  imperdovel, senhor! - interrompeu-o Vanessa, no suportando mais. - Com licena, preciso ir ver titia, que no est bem.
Importa-se se eu pedir que se retire?
  O conde no teve outro remdio seno ir embora e, sentindo-se livre de um peso, Vanessa foi ver a tia, que a recebeu toda animada:
  - Eu no disse que a gua de lils ia me curar? No vou precisar do seu tnico horrvel! Mas... - Observou a sobrinha com ateno.
- Voc parece estar pior do que eu! O que houve?
  -  o conde Alexis, titia! Ele no me d paz com seu cime.  to ciumento que tenho vontade de gritar!
- Cime de quem? Aconteceu alguma coisa?
  - Quando chegou, encontrou o visconde Peregren aqui e achou que tenho um caso secreto com ele. Eu pedi ao visconde que enviasse uma encomenda para mim, para Wiltshire, 
e lhe dei o endereo... O conde achou que era o endereo de onde amos nos encontrar!
  Eu no acho, mas h mulheres que consideram o cime uma prova de amor e se orgulham de provoc-lo.
  - Eu detesto! Estou cansada de dar explicaes, no posso nem olhar para o lado. E no h motivo para ele sentir cime de lorde Peregren!
  - No, mesmo, menina? O conde Alexis  um homem experiente e deve ler notado a atrao que h entre voc e o visconde. - No deu ateno aos protestos da sobrinha 
e prosseguiu: - Na verdade, eu j tinha notado, e acho que o jovem Hammet tambm, sem falar na horrvel Fiona Sandstone. Os nicos que no notaram foram voc e o 
lorde!
  - Titia, a senhora est sendo to ridcula quanto o conde. Essa ideia  absurda! O visconde est cortejando a srta. Sandstone e no tem o mnimo interesse em mim.
  - Pois eu acho que ele no est interessado em Fiona. E, afinal, por que voc est to agitada, protestando tanto? No pode negar, o visconde  um homem atraente!
  - Titia, acho que no est boa como pensava. Para mim, a senhora est delirando. Aconselho-a a descansar.
  - E eu aconselho voc a ouvir seu corao, antes que tome uma atitude da qual ir se arrepender - disse a velha senhora, carinhosamente.
  Mais tarde, em seu quarto, Vanessa pensou no que a tia dissera. Impossvel estar interessada no visconde Peregren! Claro que ele era mais amigvel agora, mas isso 
no queria dizer que estava apaixonado por ela.
  Em vez de se sentir feliz com essa concluso, sentiu-se pior. O que havia de errado com ela? Estava agindo como uma debutante apaixonada pela primeira vez!
  Mas talvez fosse justamente isso a coisa errada, disse uma vozinha em sua mente. Era uma mulher de vinte e quatro anos, no uma debutante apaixonada.
De repente, sentiu-se gelar.
Apaixonada?
Ser que se apaixonara pelo lorde Peregren?

Capitulo XV

Vanessa e lady Margaret compareceram ao baile de lady Milbaine naquela noite de segunda-feira. Um evento notvel, durante o qual foi apresentada a pea de Shakespeare 
Much Ado about Nothing. Mas ela no se divertiu tanto quanto pensara, pois o conde Alexis implicava com qualquer senhor que tentasse conversar com ela. Alm disso, 
sentia-se perturbada por ter descoberto o que sentia, realmente, pelo visconde Peregren e procurava evit-lo, pois ficava sem jeito ao conversar com ele. E no iria 
conversar, mesmo, pois o noivo no desgrudava um instante dela. Isso at que tia Margaret comeou a falar com ele, comentando como as peas russas eram mais intensas 
do que as inglesas e o nobre russo se acalmou, chegando at a convid-la para ir tomar um Madeira com ele. Durante o jantar, da mesinha que ocupava com a tia e o 
noivo, ela via a mesa onde os irmos Hammet jantavam com outras pessoas, inclusive a srta. Sandstone, que fazia questo de ignorar o visconde, dando ateno a um 
duque alemo.
  Assim que Vanessa terminou de jantar, o jovem Hammet aproximou-se e tirou-a para danar.
  Enquanto valsavam, ouvia-o contar o que ele e o irmo andavam fazendo ultimamente. Gostava muito dele, um sentimento fraternal, que nada tinha a ver com o que 
sentia pelo lorde Peregren. Procurou esquecer isso e divertir-se, mas percebeu que iria ser difcil, quando voltou para a mesa e encontrou o conde com uma expresso 
to terrvel que teve vontade de romper o noivado naquele momento.
  -        Gostou muito de danar com aquele ingls? - perguntou ele, com os maxilares to apertados que quase no se entendia o que falava.
  Decidida a resolver aquela situao, Vanessa pediu que o noivo a acompanhasse a um lugar tranquilo, para conversarem. Iam entrar numa sala, mas l estava lorde 
Bertram, com uma mulher que parecia chorar em seu ombro. Pediram desculpas, fecharam a porta e se afastaram. Por fim, encontraram uma saleta vazia. Entraram e o 
conde Alexis aguardou, em silncio. Ela respirou fundo e comeou:
  - Conde Alexis, cheguei  concluso de que no combinamos e gostaria de terminar nosso compromisso.
  -  por causa do ingls com quem se encontra, no? - A voz dele soou rouca, ameaadora.
  - No - respondeu ela depressa, talvez depressa demais. -  evidente que nossos temperamentos no combinam: sou inglesa demais e o senhor  russo demais.
- A senhorita mudar, eu cuidarei disso.
  - No pretendo mudar. Sou uma pessoa teimosa e tenho opinio
prpria, como j me disseram. No gosto que digam o que devo fazer, por Isso  melhor terminarmos agora.
- No que se refere a mim, considero-me seu noivo.
  - O senhor no pode me fazer casar contra a vontade - argumentou ela. - Seria uma unio horrvel.
  -  muito pior ser abandonado, principalmente por uma inglesa.
Temos um acordo e exijo que a senhorita o cumpra. - E, sem dizer mais nada, ele saiu da saleta.
  Angustiada, Vanessa deixou-se cair numa poltrona. Nunca imaginara que ele teimaria em manter o noivado. A porta abriu-se e ela se voltou, pensando que o noivo 
retornara. Mas era lady Margaret.
  - Voc est bem, querida? - perguntou. - Vi o conde saindo daqui e ele me pareceu nervoso. O que aconteceu?
  - Eu disse a ele que quero romper o noivado, mas o conde no concordou.
  - Ingenuidade sua achar que ele concordaria... - Segurou uma das mos da sobrinha e disse, com um brilho alegre nos olhos verdes:
- Agora que a horrvel Fiona desistiu do visconde, seu caminho est livre, meu bem!
- Titia! At parece que estou atrs de lorde Peregren!
- Eu sei que no est. Mas livre-se dos obstculos...
  - O maior obstculo parece irremovvel. - Ela suspirou, triste. - O conde Alexis recusa-se a ser abandonado e no sei como resolver a situao.
  - Eu vou conversar com esse moo. Ele no pode obrig-la a se casar, se voc no quiser! Agora, vamos para o salo!
  Sentindo-se como uma meninazinha, ela acompanhou a animada senhora. Assim que entraram no salo, lorde Peregren aproximou-se e tia Margaret deixou-os, dizendo, 
autoritria:
  - Dance com o visconde, meu bem, enquanto vou conversar com o conde Alexis.
  - Tambm tenho uma tia que me trata assim, como se eu fosse um menininho - comentou ele, simptico. - E nunca consegui mud-la.
- No quero mudar tia Margaret, mas...
  - Mas tambm no quer danar comigo, no ? Dano to mal assim?
- No. Pelo que me lembro, dana muito bem, milorde.
- Obrigado pelo elogio. - Ele sorriu de um jeito que o corao dela bateu mais rpido. - Quando danamos estvamos to ocupados em brigar que nem sei como conseguimos 
acompanhar mais ou menos a msica. - Ficou srio, de repente. - Algum problema com seu noivo? Ontem encontrei-o por acaso e ele mencionou bilhetes, encontros. No 
entendi nada.
  - Oh! Ele fez isso? O conde Alexis est certo de que o senhor e eu... - No conseguiu dizer. - Ora,  absurdo!
  - Claro! - Vanessa no gostou que ele concordasse to depressa.
- E a senhorita disse isso ao conde?
  - Disse, sim. E tentei romper nosso noivado... claro, o noivado meu e dele, porque ns... isto , o senhor e eu no estamos noivos...
-  uma pena! - exclamou o visconde.
- Como? - Ela atrapalhou-se ainda mais. - O que  uma pena?
  - A senhorita ter tentado romper o compromisso. Agora, ele vai achar que suas suspeitas tm fundamento.
- Oh!... Espero que ele no o desafie para um duelo!
  - Isso no teria importncia. Eu atiro bem. O problema  que a reputao da senhorita sofrer com esses noivados que comeam e acabam um atrs do outro.
  - Bem, pelo menos mame ficaria menos desapontada comigo. Vive dizendo que ningum me quer... Sabe? Ela era considerada uma beleza quando se apresentou  sociedade, 
e minha irm Clara tambm  maravilhosa...
- No acredito que a senhora sua me faa isso.
  - No?  que o senhor no reparou: estava interessado na srta. Hunnicutt quando nos conheceu. Mame sempre teve esperanas em Clara e no a culpo por isso. Sei 
que no sou nenhuma beleza, que
no sei me comportar direito...
  - Isso quer dizer que a senhorita no  uma tola e que deve agra decer a Deus por isso - disse o visconde, sincero.
  O elogio a apanhou de surpresa e, desconcertada, ela desandou a falar mais ainda, por nervosismo.
  - Minha irm recebeu uma proposta de casamento de sir Giles e mame aceitou. Ela est...
- Mas o seu pai no devia ser consultado a respeito?
  - Papai faz o que mame quer - explicou ela, rindo. - Ele s se importa com seus cavalos.
  - Entendo... Bem, espero que sua irm seja feliz, pois foi uma vitria. Sir Giles era considerado um solteiro convicto. Ela deve ser, mesmo, muito bonita.
- , sim! Eu posso garantir, pois sempre vivi na sombra de Clara.
- Permita-me duvidar disso, senhorita. No tenho a menor lembranca de como  sua irm, e sempre me lembrei perfeitamente da senhorita, desde a primeira vez que a 
vi.
  Vanessa encarou-o, achando que ele estava se divertindo a sua custa, mas a expresso do visconde era sria, franca, e os olhos verdes pareceram penetrar em seu 
ntimo.
  "Deixe de ser boba!", disse ela a si mesma, estremecendo. "Philip Hammet est olhando para voc do modo mais normal do mundo. No comece a fazer castelos no ar!" 
Mesmo assim, seu corao continuou batendo com uma velocidade alarmante.
  - A senhorita ficou to estranha... Posso saber no que est pensando? - pediu ele, suave.
- Eu? Ah... No colar de safiras. Conseguiu devolv-lo  dona?
- Est tudo providenciado, fique tranquila.
- Obrigada - agradeceu ela, baixando os olhos.
- Conte comigo, sempre que precisar de ajuda, pois eu...
Foi interrompido pela chegada intempestiva do jovem Hammet.
- Perry, srta. Whitmore, j souberam? O Bertie...
  - Bertie? - suspirou o visconde, desanimado. - O que houve com ele, agora?
  - Est arrasado! A srta. Rice contou-lhe que os pais dela aceitaram a proposta de casamento de outro homem...
  - Ento foi por isso que a vi chorando, agora h pouco! - exclamou Vanessa. - Acho que ela no gostou do noivo...
  - Claro! Moa nenhuma gostaria - disse o jovem lorde, indignado. - Nem a senhorita, pois tambm no o quis!
-        Como assim? O que quer dizer? - perguntou ela, surpresa.
Os olhos verdes do rapaz brilharam, enquanto ele dizia, com ar inocente:
-Ainda no disse quem  o noivo da srta. Rice?... Bem, ela vai ter de se casar com o seu sr. Fabersham!

Capitulo XVI
  - Quantas vezes vou ter de dizer que ele no  o meu sr. Fabersham? - protestou Vanessa, zangada.
  - Oh, desculpe-me... - disse o jovem Hammet, contrito. - Bom, o sr. Rice gostou dele. Diz que  o tipo do homem que deseja para marido da filha, que...
  - Que no  um irresponsvel como eu - completou lorde Bertram, que se aproximava.
  Era o oposto do homem brilhante e alegre que fora. Havia mgoa e raiva em seus olhos castanhos.
- Ele no deve ter dito isso - contemporizou Vanessa.
  - Disse, sim. J desisti de convenc-lo do contrrio... - Bertram riu amargamente. - S me resta jogar-me no Sena!
  - Por favor, considere as consequncias disso! - exclamou o visconde. - Vai estragar a casaca que Weston se esmerou tanto ao fazer...
  - Como pode brincar com isso, Perry! - zangou-se o primo, diante da evidente ironia. - Quero me matar!
  Tendo feito Bertram esfriar com o choque de sua ironia, lorde Peregren disse, srio e firme:
  - No. Voc no quer. Est sofrendo e revoltado,  isso. Primo, amar no  fcil...
  - O que vou fazer? - ele desesperou-se. - Eles vo for-la a casar com Fabersham, entende? Nem se conhecem!
  - Acho estranho Francis ter concordado com um casamento nessas circunstncias - comentou Vanessa. - Sei que ele gostaria de, pelo menos, conhecer a moa com quem 
vai casar.
  - Isso est providenciado: eles vo se encontrar amanh, no Louvre. Georgina est desesperada... - E ele, tambm desesperado, agarrou as mos de Vanessa, como 
se estivesse se afogando.
- Calma, primo - pediu o visconde, fazendo-o soltar as mos dela.
  - Por favor! - implorou lorde Bertram a ela. - Fale com ele, faa-o desistir desse casamento!
- No acredito que o sr. Rice me oua - retrucou ela.
  -        Estou falando do sr. Fabersham. A senhora o conhece, pode faz-lo entender que minha Georgina no quer casar com ele! Minha nica esperana  a senhorita!
  - Est bem... - cedeu Vanessa, diante de tanta aflio. - Vou falar com Francis, afinal, somos amigos desde crianas.
- Muito obrigado, srta. Whitmore! Obrigado!
  - Mas no garanto que ele me atenda. Francis  bom, mas s vezes  to intratvel quanto o conde Alexis!
  - Por falar nele, o conde est nos observando - disse lorde Peregren. - Agora vem vindo. Reg, vamos ao encontro dele para dar tempo a Bertie de combinar tudo com 
a srta. Vanessa!
  Quando o conde chegou perto da noiva, ela j havia concordado em ir, com lorde Turnberry, falar com o sr. Fabersham. Ele despediu-se, beijando a mo de Vanessa, 
que imediatamente foi para junto da tia, evitando ficar sozinha com o noivo.
  Mais tarde, em seu quarto, Vanessa tentava organizar o que diria ao sr. Fabersham e acabou adormecendo sem conseguir decidir nada.
 Na manh seguinte, levantou-se s dez horas e pouco comeu no caf da manh.
  - Minha querida, voc precisa comer. Vai ficar s pele e ossos -repreendeu-a a tia, com carinho.
- No tenho tempo. Lorde Bertram est para chegar.
  - Vanessa - comeou a velha senhora, depois de observar a sobrinha atentamente -, sabe que no gosto de interferir, mas acha conveniente sair com lorde Turnberry 
quando ainda est noiva do conde e... interessada em lorde Peregren?
  - Titia, no estou namorando lorde Bertram! - respondeu ela, rindo. - Ele pediu que o ajudasse a convencer Francis a que no se case com a srta. Rice.
  Quando o lorde chegou, Vanessa estava pronta e linda em um vestido de musselina verde-claro e pelica cor de areia. Seguiram imediatamente para o Louvre. Entraram 
no museu e, depois de percorrer algumas salas, encontraram a srta. Georgina e o sr. Fabersham diante de um sarcfago egpcio. Ao v-los, o sr. Francis parou o que 
dizia em tom professoral, ilustrando a companheira sobre histria antiga.
- Vanessa, o que est fazendo aqui? - indagou, por fim.
  - Pergunto a mesma coisa - rebateu ela. - No me disse que ia voltar para Londres?
  - Decidi ficar em Paris mais uns tempos... Soube que ficou noiva do conde Alexis. Bem, com licena, ns...
  - Francis, preciso falar com voc, por favor - pediu ela. - Lorde Turnberry far companhia para a srta. Rice. Venha,  assunto particular...
Contra a vontade, ele atendeu e foram para o Salo Romano.
-        Ento? - inquiriu o sr. Fabersham, impaciente.
  - Podemos ser sinceros um com outro, no? - disse ela, tenteando o caminho.
  - Voc sempre foi, sempre disse o que pensava - respondeu ele, seco.
- No pode se casar com a srta. Rice, Francis!
- Que foi? Est com cime de mim, Vanessa?
  - Cime, eu?! No. S estou tentando ajud-lo a no fazer uma loucura. A srta. Georgina e lorde Bertram se amam.
O sr. Fabersham nada disse, apenas demonstrou surpresa.
  - O pai dela no quer que se casem - continuou Vanessa -, por isso deu um jeito para voc pedi-la em casamento. J imaginou o que  viver com uma pessoa que ama 
outro?
- Ela no me disse nada... - comentou ele, pensativo.
  - Vocs acabaram de se conhecer, no? Provavelmente ela ainda no teve coragem de tocar no assunto. Juro, Francis, a srta. Rice ama lorde Bertram.
  - Espero que no tenha inventado isso por estar com cime... - disse ele, desconfiado. - Vou falar com ela. Se me disser que ama lorde Turnberry, desobrigo-a do 
compromisso.
  Voltaram para o Salo Egpcio e deram com o casal abraado. O sr. Fabersham tossiu, discretamente, e eles separaram-se,' desconcertados.
  - A srta. Whitmore disse-me que o senhor est interessado na srta. Rice, milorde.  verdade?
  - Adoro Georgina e quero me casar com ela - respondeu o lorde, com ardor, e beijou a mo da amada.
  - E a senhorita sente o mesmo por lorde Turnberry? - Ela assentiu com a cabea, muito corada. - Bem, ento est resolvido - suspirou o sr. Fabersham.
  - Eu lhe serei eternamente grato, cavalheiro! - exclamou o lorde, comovido.
  Percebendo que seu amigo no se sentia  vontade, Vanessa props que todos fossem embora, e os dois casais se encaminharam para a sada do Museu do Louvre, Vanessa 
e Francis um pouco mais para trs do casal apaixonado. De repente, o caminho deles foi barrado por um homem alto, que surgiu de trs de uma coluna.
  - Bom dia, srta. Vanessa - disse ele. Era o conde Alexis. - Que coincidncia nos encontrarmos, no? Pelo que vejo, no est em companhia de lorde Peregren... - 
Aproximou-se mais. -  outro amante seu? Sr. Follingsworth, no?
  - Fabersham. Meu nome  Fabersham e no sou amante da srta. Whitmore, cavalheiro!
- Conde Alexis, o senhor est enganado, eu...
  - No  este o comportamento que exijo da minha futura esposa - disse o conde, gelado.
  - No  nada do que o senhor imagina! - interferiu lorde Turnberry, que voltara ao ver o que acontecia.
  Mas era tarde. O conde Alexis j havia batido com a luva no rosto do sr. Francis.
  - Cavalheiro, se quer desafiar algum, deveria ser eu - disse o lorde. - O sr. Fabersham nada tem a ver com...
- Silncio! - rugiu o conde. - Aceita meu desafio, sr. Faberstram?
  - Fabersham! Meu nome  Fabersham! - exclamou o outro, irritado.
  - Concluo que aceita, ento. - O conde sorriu, maldoso. - Meu padrinho procurar o senhor para saber quem ser o seu e os dois combinaro tudo. - Fez uma reverncia 
e foi embora.
  - A culpa  minha... O senhor deixa que eu enfrente o conde em seu lugar? - perguntou lorde Turnberry.
  - No. Eu fui o desafiado. Mas o senhor me faria um grande favor se aceitasse ser meu padrinho.
- Claro.  o mnimo que posso fazer.
  - Bem, creio que vou levar a srta. Rice para casa - disse o sr. Fabersham.
Quando ele se preparava para entrar na carruagem, Vanessa disse:
- No v duelar com o conde, Francis. No devia ter aceitado...
  - J andam falando coisas desabonadoras demais de mim por a, Vanessa... - murmurou ele, com o olhar triste. - E aquele homem disse coisas que no posso aceitar. 
Preciso dar-lhe a resposta.
  E entrou na carruagem, deixando Vanessa com os olhos cheios de lgrimas, sem saber se a pena que sentia do amigo era maior do que a vontade de mat-lo.

Capitulo XVII

O jovem Hammet dormia profundamente em seu quarto, no hotel, quando sentiu que algum arrancava as cobertas de cima dele. Acordou, furioso:
-        Que diabo voc est fazendo? Quem...
Ento viu lorde Bertram abrindo as cortinas e deixando o sol entrar.
- Hora de levantar! - anunciou ele. - Preciso falar com voc.
  - Que horas so? - perguntou o jovem, enfiando o rosto nos travesseiros.
- Mais de onze...
- Voc no ia sair com a srta. Whitmore, hoje?
- Sa. Levante, preguioso! O caso  srio!
  Ao ver a expresso preocupada do primo, o jovem Hammet imaginou se o sr. Fabersham teria se recusado a romper o compromisso com a srta. Rice. Levantou-se e comeou 
a vestir-se.
-        O sr. Fabersham foi desafiado para um duelo pelo conde Alexis -        explicou o recm-chegado.
  - Oh! Ento, o russo tambm est interessado na srta. Rice? Que confuso! No entendo mais nada!
  - No  isso, Reg! O sr. Fabersham j havia concordado em desfazer o noivado com Georgina quando o conde apareceu no Louvre. Pensou que a srta. Vanessa tinha um 
caso com o ex-noivo e o desafiou.
Eu vou ser padrinho dele.
  - Coitado! O sr. Fabersham est sem sorte:  o segundo duelo que tem pela frente, e no me parece ser bom nisso.
  - Se, pelo menos, Perry estivesse aqui! - lamentou-se lorde Bertram. - Ele saberia o que fazer...
  Nesse momento, lorde Peregren saa do banco e encontrou lady Mar-garet, que tambm se retirava.
  - Todos os pases deveriam ter a mesma moeda! - comentou a simptica senhora. -  to aborrecido ter de trocar dinheiro!
- De fato,  irritante, milady - concordou o visconde, sorrindo.
-        Posso acompanh-la at sua casa?
- No vou para casa, vou visitar o conde Alexis.
- Oh! Um encontro secreto, madame? - brincou ele.
- Com o conde? Nunca! Prefiro homens civilizados!
  - Ento, eu a acompanho e a espero na rua. Assim, se precisar de alguma ajuda, estarei l.
  Rindo, a velha senhora aceitou a oferta e entrou no tlburi do visconde. Quando chegaram  residncia do nobre russo, encontraram-no chegando tambm.
  -        Lady Margaret, visconde... - Ele fez uma reverncia e beijou a mo da senhora. - Vamos entrar?
  Depois de acomodados na sala de visitas, ele perguntou aos recm-chegados se aceitariam um sherry, e eles aceitaram.
- Esteve cavalgando, conde? - indagou lorde Peregren.
- Sim - respondeu o anfitrio, seco.
  - Bem, conde Alexis, em geral gosto de ir diretamente ao ponto importante - disse lady Margaret. - Quero conversar com o senhor sobre o noivado com minha sobrinha.
- Ela pediu que a senhora falasse comigo?
  - Bem, Vanessa est muito nervosa. Seja sensato, por favor. Ela tem razo em querer desfazer o compromisso.
  - No recebo ordens de mulheres, milady, a no ser de minha amada me.
- Bonito isso num filho - comentou a lady, cordata.
  - Tambm acho que no est sendo razovel, meu caro conde -resolveu interferir lorde Peregren.
  - Milorde - os olhos do conde fuzilavam de raiva -, deixe-me avis-lo: seus dias como amante da srta. Whitmore esto acabados!
  - O que o senhor disse?! - Lady Margaret estava chocada. - Creio que enlouqueceu, cavalheiro!
  - No enlouqueci, e h mais: peguei sua sobrinha com outro amante, hoje de manh.
  - Ser que no se trata de meu primo, lorde Turnberry? - indagou o visconde. - Eles iam dar um passeio sem nada de imprprio e...
  - Estou falando daquele homenzinho do qual nunca lembro o nome... Fatershaw, acho...
- Creio que se refere ao sr. Fabersham... - disse a lady, atordoada.
-  evidente que eles tm um caso. Desafiei-o para um duelo!
  - O senhor o desafiou para um duelo, pela segunda vez? - indagou o visconde, perplexo. - Tenho certeza de que est equivocado, cavalheiro. Pelo que sei, o sr. 
Francis props casamento a uma outra
senhorita e...
  - No foi o que vi - interrompeu o conde, encolhendo os ombros. - Bem, por favor... estou cansado e preciso me concentrar para o duelo.
  Entendendo como um convite para que sassem, a lady e o visconde se despediram. A meio caminho da Rue de Ia Paix, ele perguntou velha senhora:
- Milady, acha que o conde levar isso at o fim?
  - Creio que sim. Ele se recusa a libertar Vanessa do compromissc assumido... E tenho certeza de que minha sobrinha no tem nada com Francis, pois ela est apaixonada 
pelo sen... Quero dizer, pelo seu irmo, acho - corrigiu ela, depressa, sabendo que Vanessa a mataria se revelasse seu segredo ao visconde.
  - Claro... - concordou ele. - E Reg a adora. Mas, no momento, precisamos pensar no sr. Fabersham.
  -  mesmo! Ele no entende nada de armas, e na certa vai ser morto pelo conde. Oh, meu Deus!
  - Quem sabe acontece alguma coisa que impea o duelo... - disse o visconde, esperanoso.
  Quando pararam diante da casa de lady Margaret, ele foi ajud-la a descer e acompanhou-a at dentro de casa. Ao saber que a tia chegara, Vanessa procurou-a, aflita.
  - Titia... Oh, bom dia, visconde - disse, ao v-lo. - Que bom que o senhor est aqui. No imaginam o que aconteceu!
  - J sabemos, o conde Alexis nos contou - respondeu a velha dama. - Ele acha que voc e Francis...
  - Imagine! - interrompeu ela, ficando vermelha. - Antes que eu entendesse o que acontecia, ele desafiou o Francis para um duelo.
Vai ser horrvel, titia!
- Quando vai ser esse duelo? - perguntou lorde Peregren.
- Creio que depois de amanh.
- Ento, temos vinte e quatro horas para fazer alguma coisa...
  - O nico jeito  sequestrar o conde e envi-lo de volta  Rssia
- disse Vanessa, com mais um daqueles seus planos malucos. - Se Francis morrer, no me perdoarei!
  - Isso no vai acontecer, prometo! - E, com ardor, o visconde segurou as mos dela, s no as beijando porque percebeu que a lady os observava, atenta.
  Ao chegar ao hotel, o visconde encontrou o primo e o irmo  espera. Antes que falassem, declarou:
- J sei de tudo. O conde Alexis me contou.
  - Ento, sabe que no posso deixar o sr. Fabersham se bater em duelo, Perry. Vou no lugar dele - declarou lorde Bertram.
  - No seja tolo, Bertie. Voc tambm no tem muita possibilidade de vencer o conde.
 - Mas eles vo duelar por minha culpa, entende? E o sr. Francis me fez um grande favor.
 - Ento, ele desfez o noivado. E voc quer que a srta. Rice se torne viva antes de ser esposa? - indagou lorde Peregren, cido.
 - Perry tem razo, Bertie! - apoiou o jovem Hammet. - Mas eu posso lutar no lugar dele.
 - Reginald, por favor, nada de herosmos! - pediu o irmo, com ironia.
 - Ele ofendeu a srta. Vanessa! - exclamou o jovem lorde. - S por isso eu teria o maior prazer em mat-lo. Ela  a moa mais adorvel que j conheci.
  Tocado pelo entusiasmo do irmo, o visconde imaginou o quanto ele deveria amar Vanessa. E por que no? Ela era to encantadora, cheia de vida, de personalidade...
 -        Voc realmente se importa com ela, no? - indagou, e, antes que o jovem lorde respondesse, continuou: - Bem, sei que ela no gostaria que voc se arriscasse, 
Reg. Estive pensando e tenho um plano. Escutem...
Dez minutos depois, lorde Bertram estava animado:
 - Que tima ideia, Perry! Uma soluo digna das melhores peas teatrais que vi em Londres!
 - , mas no pretendo ser um teatrlogo - respondeu o visconde, frio. - Vocs vo se lembrar bem do que devem fazer?
- Claro que sim! - responderam os outros dois.
 - timo. Ento, comeamos amanh - determinou lorde Peregren, sorrindo.
  Entretanto, Vanessa se torturava com a sensao de culpa e procurava um jeito de salvar Francis. Havia falado com os dois, tentando faz-los desistir daquela loucura, 
sem resultado. Ao falar com o conde Alexis, ele respondera que na Rssia apenas as mulheres de vida fcil procuravam os cavalheiros na casa deles. A conversa com 
o amigo de infncia no tivera resposta ofensiva, mas dera em nada: ele insistia em comparecer ao duelo.
  Voltara para casa desanimada e, depois de pensar sem chegar a nada aceitvel, procurou a tia e encontrou-a na saleta de trabalho, escrevendo freneticamente.
-        Um novo poema, titia? - indagou.
  Lady Margaret assustou-se ao ouvir a voz dela. Dobrou rapidamente o papel em que escrevia e guardou-o.
  -- Desculpe, Vanessa, mas combinei com madame Milbaine que iria visit-la hoje. - E levantou-se.
  Ela ficou com a impresso de que a tia lhe escondia algo. Mas no teve tempo de dizer nada porque a senhora saiu imediatamente. Para distrair-se, Vanessa olhou 
a bandeja de correspondncia. Havia uma carta da me.
  Leu-a e ficou deprimida: a orgulhosa senhora falava, apenas, na maravilha que era ela estar prestes a se tornar uma condessa. E condessa russa! Informava que Clara 
estava morrendo de inveja, pois, casando-se com sir Giles, seria apenas baronesa. E se desmanchava em elogios  filha por ter conseguido um marido to importante...
Sem saber se ria ou se chorava, Vanessa rasgou a carta.
  Na manh seguinte, o sr. Fabersham saiu para a cavalgada de sempre. Sentia-se deprimido, pois sabia que aquele podia ser seu ltimo dia de vida. Tinha saudade 
da Inglaterra e talvez nunca mais a visse... Seus pensamentos sombrios foram interrompidos ao ver, na luz ainda indecisa da madrugada, uma carruagem parada  beira 
do caminho. Deteve o cavalo e viu que um cavalheiro examinava s rodas. Era lorde Turnberry.
- Precisa de ajuda, milorde? - perguntou, solcito.
  - Ah,  o sr. Fabersham! O parafuso de uma das rodas soltou-se.
Acho que est sob a carruagem, mas no o encontro.
  O sr. Francis desmontou e abaixou-se para ajud-lo a procurar. Ento, o lorde deu-lhe uma pancada na cabea, fazendo-o perder os sentidos. Chamou o jovem Hammet, 
que saiu da carruagem, e colocaram o homem desmaiado dentro dela.
  - Depressa, que ele vai acordar logo. Vai ficar furioso! - disse Bertram.
  - A j estaremos longe de Paris - respondeu o primo. - Mais um dia e teremos atravessado o Canal da Mancha.
Entrou na carruagem e lorde Hammet fechou a porta, dizendo:
- Boa sorte, Bertie!
  - No esquea de entregar minha carta  srta. Rice! - lembrou lorde Turnberry.
- No se preocupe! Agora, v, e boa viagem.
Lorde Bertram subiu para a boleia da carruagem e partiu.

Capitulo XVIII

Vanessa acabara de escrever uma carta para a me. Releu o que escrevera, no ficou satisfeita, mas ia mandar a carta assim mesmo.
 A sra. Whitmore no fora a nica a escrever para algum em Paris. O conde Alexis tambm recebera uma carta da condessa Olga, sua me. Depois de ler, dobrou-a cuidadosamente, 
guardou-a num bolso e deu vrias ordens ao seu valete.
  Uma hora depois, a carruagem do conde estacionava diante da casa de lady Margaret e ele foi encontr-la, com a sobrinha, na sala de visitas. Escutavam monsieur 
Brochard declamando poemas e ficaram felizes com a interrupo. Depois de cumprimentar a todos, o conde disse:
- Vim porque preciso falar com a srta. Whitmore.
 - O que quer que seja, pode ser dito na frente de minha tia - determinou Vanessa, altiva.
  O nobre russo ergueu as bastas sobrancelhas, fitando o cavalheiro que havia parado de recitar, e pestanejou.
 -        Jacques j estava de sada, no , meu caro? - insinuou a velha senhora, com finura.
Mas o cavalheiro se ofendeu e despediu-se, indignado.
 - Bem, meu caro conde, agora estamos a ss - disse a lady. -Aceita um refresco?
 - No, obrigado. Vim comunicar que fui chamado de volta a minha terra. Minha me escreveu-me dizendo que o czar precisa de mim, imediatamente... - Tossiu, embaraado, 
olhou Vanessa de soslaio e prosseguiu: - A condessa Olga soube de minha ligao com uma inglesa...
- Oh! Como ela ficou sabendo? - surpreendeu-se Vanessa.
 - No sei... - O conde sacudiu os ombros. - O fato  que mame no gostou da notcia e informou-me que na minha ausncia decidiu estreitar os laos que a unem  
baronesa Nadia Nadianovich e acertou meu casamento com uma das filhas dela.
 - Ento, isso quer dizer que... - Vanessa no cabia em si de tanta alegria.
- Sim. Mame me proibiu de casar com a senhorita.
 - E o senhor sempre faz o que sua me quer, no ? - quis saber lady Margaret.
  O conde concordou com a cabea e Vanessa aproximou-se dele, com a mo estendida:
  - Ento, devemos nos despedir! - O conde beijou-lhe a mo. -Oh! E o duelo?
  - No  mais de minha responsabilidade com quem a senhorita tem ligaes - disse ele, orgulhoso, despediu-se e foi embora.
  - Titia, que sorte! - Vanessa vibrava de alegria. - No vou ter de ir para a Rssia, suportar o conde, e no vai haver duelo! Espero que ele seja muito feliz com 
sua esposa russa!
  - Bem, poder escolher entre as trs filhas da baronesa Nadia...
- comentou lady Margaret, rindo.
  - Como a senhora sabe que so trs? Ele no disse nada a esse respeito! - comentou Vanessa, desconfiada.
  - Disse, sim! Voc  que no prestou ateno... - E a tia ficou muito interessada no bordado que tinha nas mos.
Mas a tentativa de fugir do assunto no deu certo.
-        O que est escondendo de mim, titia?
A velha senhora foi salva pela chegada do visconde.
  - Senhoras - anunciou ele, animado -, no precisam mais sei preocupar com o sr. Fabersham!
- J sabemos - respondeu lady Margaret.
- Sabem? Ento Reg, ou Bertie, traiu nosso segredo!
- Que segredo? - perguntou Vanessa.
  - Tentamos fazer o sr. Fabersham desistir do duelo, mas ele no concordou. Ento, tomamos medidas drsticas. Logo ele estar em segurana, do outro lado do canal, 
apenas com um pouco de dor de cabea...

  - Visconde! - surpreendeu-se a velha lady. - Por acaso quer dizer que... que sequestraram o pobre rapaz?
  - Bem, eu preferia que a senhora no encarasse dessa forma -disse ele, com expresso contrita. - Ele  teimoso, ento foi preciso uma ajudazinha. E eu tomarei 
seu lugar no duelo.
  - Pensei que o senhor no participasse deles... - comentou Vanessa, calma, porque sabia que no ia mais haver duelo.
  - No, desde que era jovem... - admitiu ele, com um sorriso. -Mas se no o fizer, Reg ou Bertie o faro.
  - Ningum precisa se sacrificar - disse a velha senhora. - O conde Alexis embarcar hoje para a Rssia, onde vai escolher sua esposa entre trs ricas herdeiras.
  - Como sabe que elas so ricas, titia? Est conhecendo demais a carta da condessa Olga... Ser que no foi a senhora que a escreveu.
  - Eu?! No! No sei uma palavra de russo, mas madame Milbaine escreveu-a para mim. Alm de conhecer o idioma, conhece a condessa Olga e tem umas cartas que recebeu 
dela. Conseguimos imitar-lhe a letra direitinho!
  -        Parabns, milady! Perto da sua, minha ideia  primitiva! -admirou-se o visconde, rindo com gosto.
  A alegria dele era contagiante, e quando ria parecia ter a mesma idade que o irmo. A lady mandou vir um champanhe para comemorarem e, quando Vanessa passou uma 
taa para o lorde, seus dedos se tocaram. Ela tremeu e acabou por derramar algumas gotas na camisa dele.
  -        Desculpe-me - balbuciou, corada. - Ser que estraguei sua camisa? - E pegou um guardanapo para limp-la.
  Para isso, aproximou-se tanto do visconde que ele sentiu seu perfume. Alguns fios dos cabelos dela tocaram-lhe o rosto e, aflito, ele percebeu que mais uns segundos 
daquela deliciosa tortura e no seria responsvel por seus atos.
-        Pronto! - disse ela, afastando-se. - Acho que no vai manchar...
Por um segundo, teve a impresso de ver uma luz estranha nos profundos olhos verdes, mas achou que fora impresso.
  -        Mesmo que manche, no tem importncia - respondeu o lorde, com voz rouca, lamentando que ela j tivesse se afastado.
Havia um clima embaraoso no ar, e Vanessa tentou desfaz-lo:
  - Titia, voc teve uma ideia brilhante, em to pouco tempo! E a do senhor, visconde, tambm foi tima.
  - Na verdade, a senhorita me inspirou. Lembra-se de que disse que gostaria de despachar o conde para a Rssia? Achei mais fcil despa
char o sr. Fabersham para a Inglaterra.
  - Que coincidncia! Foi tambm um comentrio de Vanessa que me deu a ideia! - disse lady Margaret.
  - S espero que Francis no fique muito zangado - comentou Vanessa. - Vou escrever-lhe, dizendo que o conde foi embora antes do duelo, assim ele se conformar.
  Continuaram bebendo e conversando. Lady Margaret contou que a srta. Sandstone aceitara casar-se com o nobre alemo que a corteja-va, e lorde Peregren no pareceu 
se importar com a notcia. Alguns minutos mais tarde, quando se despedia das damas, um grupo agitado irrompeu na sala de visitas: uma senhora robusta, arrastando 
um cavalheiro, e dois policiais.
 Aflito, Michaels entrou atrs deles, dizendo que no havia conseguido segur-los na porta.
  -         aquele o homem que impediu a ladra de ser presa! - exclamou a mulher, apontando para o visconde. - Fez o juiz pensar que eu era louca, mas agora tenho 
provas!
        O que  isso? - espantou-se lady Margaret.
  -        Pensou que ia me enganar? - gritou a mulher para lorde Peregren. - No imaginou que eu viria aqui, no ?
  -        Parece que me conhece, madame - disse ele, calmo. - Estou em desvantagem, pois no sei quem a senhora .
  -        Mentiroso! - A zangada senhora no esfriara com a resposta glida do visconde. - Como ousa dizer isso?
  -        Porque  verdade. - O lorde comeava a se irritar com a cena.
- Estou tentando ser paciente, minha senhora...
  - Vocs planejaram tudo! - interrompeu-o a senhora. - O fato de o senhor aparecer na hora certa me deixou cismada!
- Tia Margaret... - comeou Vanessa, nervosa.
  - Olhem,  ela! - gritou a mulher, possessa, ao reparar em Vanessa. - Eu no disse que ela estaria aqui, Henry?
  O homem, que ela segurava pelo brao, tinha todo o ar de um marido infeliz. Ele interveio, timidamente:
  -        Vamos embora, querida! Para que causar problemas a esta gente? Voc s conseguir aumentar a confuso.
Surda, a mulher apontou para Vanessa.
-        Foi ela quem roubou as minhas safiras!
  O visconde olhou para Vanessa que, plida, fez um aceno positivo, quase imperceptvel. Depois, falou:
  -        Tia Margaret, permita-me apresentar-lhe uma conhecida minha, da Inglaterra... - Ela tentava parecer o mais calma e digna possvel, esforando-se para 
a voz no tremer. - Esta  a sra. Devlin.

Capitulo XIX

  - Vanessa, voc conhece esta... estas pessoas? - indagou a lady, no podendo esconder seu horror.
  - Sim, titia. Estive hospedada na casa da sra. Devlin com uma amiga de minha me.
  - E voc agradeceu roubando meu colar, fazendo-me passar por louca! - berrou a mulher. Apontou para o visconde e confirmou: - E voc ajudou!
  O visconde, com voz spera, avisou-a de que, se quisesse continuar com o dedo, devia tir-lo de sua frente. Assustada com a fria fria, a mulher obedeceu.
  - Querida, por favor - tentou o marido, de novo. - Vamos deixar esta gente em paz.
  - Bem que vocs querem isso, no? - indagou a mulher, e voltou-se para a velha lady. - Sua sobrinha  uma ladra, e se isso for divulgado nunca mais ser recebida 
em casa alguma!
  - Duvido que a senhora conhea as casas que frequento - disse a lady, calma, e fez um sinal para que Michaels levasse os quatro para a porta da rua.
  Uma tossezinha discreta de um dos dois policiais que acompanhavam o casal fez com que se lembrassem deles.
  -        Exijo que essa mulher e esse homem sejam presos! - declarou a sra. Devlin, com um sorriso triunfante.
  Os policiais falaram rapidamente, em francs, e resolveram conversar com o visconde, que lhes disse:
  - Acredito que no vai haver priso alguma. Gostaria, por favor, que o sr. Devlin se manifestasse.
  - Claro que vai haver! A priso de vocs! - disse a mulher, comeando a se enfurecer de novo. - E, Henry, o que voc tem a ver com isso?
O homenzinho no disse nada e lorde Peregren insistiu:
  - Creio que devemos ouvir o que este senhor sabe sobre o colar. Sr. Devlin?
  - Foi ele quem me deu o colar de presente! - interferiu a mulher.
- Isso foi no nosso segundo ano de casados. Desde ento, ele vem me dando um berloque de safira por ano, para pendurar no colar. E voc o roubou! - gritou para Vanessa.
  - A senhora est enganada. No fui eu. Deveria falar com a sra. Bender e...
  - J falei. Ela me disse que voc o havia roubado e me deu seu endereo, aqui em Paris.
  - Ela disse isso? - A jovem no conseguiu dominar a raiva. - Que afronta! Foi ela que...
- Ah! Ento admite o roubo! - interrompeu a sra. Devlin.
  - No  bem assim. Posso explicar... - E Vanessa olhou, desesperada, para o visconde.
  - A histria da sra. Devlin no  verdadeira - interveio o lorde.
Pediu a Vanessa: - Por favor, pea a Polly que traga a garrafa de tnico que lhe devolvi esta semana.
  Vanessa no entendeu, mas obedeceu. Quando a viu sair, a sra. Devlin ficou transtornada.
- Ela vai fugir! Isso  golpe deles!
  - Visconde - sussurrou a assustada lady Margaret, mas ainda assim espirituosa -, se os gritos desta senhora o esto deixando doente,  melhor usar outra coisa 
do que esse tal Tnico de Lady Sarah...
Nesse momento Vanessa voltou e deu a garrafa ao lorde.
  - Por favor, sr. Devlin, pegue esta garrafa - pediu ele, mantendo-se calmo.
  - No tome nem uma gota, Henry! Pode ser veneno! - alertou a mulher.
  - No quero que ele tome nada - disse lorde Peregren, impaciente. - Quero que pegue o que est a dentro.
O sr. Devlin, hesitante, obedeceu.
  - Minhas safiras! - gritou a esposa dele, pegando a jia. - No disse que ela  uma ladra? Faam justia! Ela merece ir para a cadeia aqui na Frana, pois as inglesas 
so mais confortveis.
  - Minha senhora, por favor! - ironizou o visconde. - No desmerea nossas prises. Garanto que Newgate  to fria e mida quanto as francesas!
  - Por favor, milorde! - afligiu-se lady Margaret. - Minha sobrinha, numa priso?!
  - No creio que a srta. Whitmore v ser presa, milady. Apelo para o senso de honra do sr. Devlin. - E, voltando-se para o cavalheiro, o visconde disse: - O senhor 
vai deixar uma inocente ser presa por um crime que no cometeu?
  O homem, muito plido, murmurou umas palavras que s lorde Peregren compreendeu, pois indagou:
  - Ento, o senhor prefere que eu conte tudo... - Quando o cavalheiro confirmou, com um aceno de cabea, prosseguiu: - As safiras so falsas. Levei-as para serem 
avaliadas.
  - Impossvel! - gritou a sra. Devlin, empalidecendo. - Se forem, vocs trocaram as verdadeiras por falsas!
  - No. Eles no fizeram isso - disse o sr. Devlin, com suavidade.
- Fui eu que fiz, h alguns anos.
 A senhora olhou para o marido, estarrecida, como se ele acabasse de confessar adultrio ou assassinato.
  - No posso deixar que continue a insultar estas pessoas - continuou ele. - L em casa no tinha importncia, mas voc insistiu em vir.
- Quer dizer que todas as jias que me deu so falsas?
  - Eram verdadeiras, mas nos ltimos anos tenho tido dificuldades e precisei vender algumas delas. Para no mago-la, mandei fazer rplicas perfeitas...
  A sra. Devlin parecia ter murchado: j no exibia a pose altiva, os olhos vivos de antes. O sr. Devlin murmurou:
  -        Aceitem minhas desculpas, por favor. Nunca mais os incomodaremos... Vamos, querida, temos de ir embora. - E foi saindo, acompanhado pela esposa, que chorava.
Os dois policiais saram tambm e Vanessa perguntou:
  - Lorde Peregren, o senhor sabia, todo esse tempo, que a jia era falsa e que o sr. Devlin era o culpado?
  - Soube na quinta-feira. Ia contar-lhe, mas com a confuso do conde Alexis, esqueci. Nunca pensei que os Devlin viessem aqui... Quando encontrei lady Margaret 
no banco, obtivera a informao de que
quase todas as propriedades dos Devlin estavam hipotecadas. Desconfiei e mandei avaliar o colar.
  - Serei eternamente grata - Vanessa murmurou. - Se no fosse o senhor, acho que hoje eu dormiria na priso.
- Eu jamais permitiria isso, querida! - afirmou a velha lady.
  - No entanto - disse Vanessa, pensativa -, de qualquer modo o colar foi roubado e a sra. Devlin poderia exigir que me prendessem, se no tivesse ficado to chocada. 
E a?
  - A, minha cara, a senhorita teria de acusar a sra. Bender, pois  evidente que ela cometeu o roubo. Mas, como disse a sua tia, eu no permitiria que fosse dormir 
na priso e jamais permitirei que algo ruim lhe acontea - declarou o visconde, e beijou-lhe a mo.
 Quando ergueu os olhos, Vanessa mal pde sustentar-lhe o olhar e desviou os seus.
 Nessa noite, depois de contar a Polly o que acontecera, ela imaginou se havia, mesmo, um sentimento profundo, um misto de ardor
e ternura naqueles olhos verdes que aprendera a amar.
 - , senhorita... - comentou a dedicada criada, escovando-lhe os cabelos. - O seu lorde Peregren  muito inteligente!
- Ele no  meu, Polly.
Ento percebeu que, bem no ntimo, desejava ardentemente que fosse.
  Na manh seguinte, na bandeja de correspondncia, entre os habituais convites para festas e bailes, os irmos Hammet encontraram uma carta de Lydia para lorde 
Reginald e outra, vinda de Londres, para o visconde.
  O jovem lorde acabara de chegar da casa da srta. Rice, que lhe dissera, no auge da felicidade, que o pai por fim permitira o noivado com lorde Turnberry. Todo 
animado, pegou a carta enviada pela srta. Hun-nicutt, abriu-a e teve de ler duas vezes para acreditar:
"Caro sr. Hammet,
  No tenho muito tempo para explicar. Recebi notcias de Johann, que est em Londres. Estou a caminho de l, para encontr-lo. Deixei um bilhete para meu pai, dizendo 
que o senhor e eu fugimos para casar. Desculpe envolv-lo, mas no tinha sada. Ser que pode evitar que meu pai o encontre? Muito, muito obrigada,
Lydia Hunnicutt"
-        Essa moa  maluca! - gritou, fora de si.
  Ia mostrar a carta ao irmo quando se lembrou da referncia a herr Johann. Por sua vez, o visconde pensava que deveria voltar para a Inglaterra, pois tinha os 
problemas de sua propriedade em Pellbridge a resolver.
  Mas sentia-se preso ali: ainda no conseguira descobrir se a srta. Whitmore amava lorde Reginald ou no. Pensou muito e concluiu que devia ir. Comunicou a partida 
para o irmo.
  - No pode ir embora! - exclamou ele, aflito. - No pode pedir a algum, l, que resolva isso?
  - Tem de ser pessoalmente, Reg. Vou amanh, mas voc pode ficar - disse, pensando que ele no queria ir por causa da srta. Vanessa. - Deixarei uma conta no banco 
para voc, mas no me leve 
misria, viu? - tentou brincar, mas estava triste.
  A cara do irmo mais jovem era s desolao: se o visconde chegasse em Londres agora, iria saber de Lydia e herr Johann! Se, pelo menos, tivesse certeza que Perry 
no amava aquela jovem que j criara tanta confuso...
  No fique to abatido, rapaz - disse o visconde, e, querendo animar o irmo: - Tome conta da srta. Vanessa!
  Saiu para ir arrumar as malas e o jovem lorde imaginou se ele, por fim, comeara a se interessar por sua amiga. Se assim fosse, teria valido o esforo. A, lembrou 
que precisava avis-la do que estava acontecendo e foi  casa dela.
  - Como essa moa pode ser to irresponsvel?! - zangou-se Vanessa ao saber o que Lydia fizera dessa vez. - Tomara que ela case logo com seu amado Johann, seno, 
sei l o que ainda vai aprontar!
Mas o seu irmo no pode ir para Londres... Temos de pensar num jeito...
  - Meu jovem lorde, como vai? - cumprimentou lady Margaret, entrando na saleta. - O que vocs dois esto tramando, agora? Chega de travessuras, no?
  - Precisamos impedir que lorde Peregren v para Londres - respondeu Vanessa, e contou tudo  tia, rapidamente.
  - Por que no tomamos um clice de Madeira enquanto pensamos? Uma boa bebida inspira boas ideias.
  - Que maravilha de vinho, milady! - exclamou o jovem Hammet ao tomar um gole. -  de primeira. Onde o comprou?
  - Achei-o em uma estalagem, em Orange. No sei como foi parar l, pois  espanhol. Havia vrias garrafas quando comprei essa e...
  -  isso! - interrompeu Vanessa, erguendo-se de um salto. - Esse vinho em Orange! - E vendo que os dois no entendiam, perguntou: - O visconde adora vinhos, no 
?
  - Ah, sim! - confirmou lorde Hammet. - s vezes ele faz o impossvel para conseguir um... - Seus olhos brilharam. - Est pensando em...
  - Exato! Se titia permitir, leve essa garrafa para seu irmo, faa-o provar e conte-lhe onde h mais. Se ele resolver ir comprar o vinho, quando chegar a Londres 
provavelmente Lydia e herr Johann j tero ido embora.
  - Menina, voc acha que o visconde vai engolir essa isca? - perguntou a velha lady, em dvida.
- No sei... Algum tem ideia melhor?
Como ningum tinha, o jovem lorde foi embora com a garrafa de vinho Madeira. Mais tarde, enquanto jantavam, lady Margaret comentou:
  -        Estive pensando, Vanessa... Acho que o dono da estalagem no vai vender o vinho a lorde Peregren. Ele no gosta muito de ingleses...
-No faz mal. Se conseguirmos faz-lo ficar um pouco mais aqui, no importa se conseguir o vinho ou no.
  - Seria pena viajar at l e no conseguir nada... Fiquei amiga do dono da estalagem e acho que, se fosse junto, eu iria conseguir. E, outra coisa, aquela era 
a ltima das garrafas que eu trouxe. Gostaria de comprar mais. O que acha?
- Eu? No acho nada, tia. Que ideia maluca!
  - Ento, no aprova... Que pena! Eu precisaria de uma acompanhante - continuou a senhora, com ar inocente.
- Titia, no est nos meus planos ir at Orange!
  - Mas  uma cidade linda! Tem umasjunas romanas fascinantes e, alm disso, voc estar com o visconde. Quem sabe...
- Tia Margaret! - exclamou Vanessa, muito vermelha.
  - Sei que estou me metendo onde no devo - suspirou a velha dama. - Bem, se no quiser ir, vou sozinha. Ah, sabe? O dono da estalagem, um velho francs,  muito 
galante...
- Titia... o que est insinuando?
- Que preciso de uma acompanhante! - insistiu a lady, rindo.

Capitulo XX

  -  o melhor Madeira que tomo em anos! Pena ter acabado... -comentou o visconde aquela noite.
  - Lady Margaret me contou onde o comprou. Foi numa estalagem, em Orange, e parece que h muitas garrafas dele l.
- Ser? - O visconde ficou pensativo, depois sacudiu a cabea.
-        No. Preciso ir para Pellbridge com urgncia.
  - Pode ser que l haja outras bebidas de qualidade, e uns dias no vo fazer diferena - insistiu o jovem lorde, pensando, rpido. - J imaginou a cara de lorde 
Castleby quando experimentar esse Madei
ra? - tentou.
  - Vai pensar que morreu e est no cu! Que seja! Vou at Orange antes de ir para Londres.
- Isso mesmo! - apoiou o irmo, todo entusiasmado.
  O visconde havia preparado o esprito para lidar com um possvel estalajadeiro francs teimoso, mas no para levar lady Margaret e Vanessa com ele. Tentou ser 
corts quando a velha dama o procurou e pediu que as levasse.
  - No vou de carruagem - disse. - Minha ideia  ir de faton, para estar de volta logo. No tenho tempo a perder.
  - Levando uma velha como eu, no ? - indagou lady Margaret, sentida, absurdamente jovem no vestido leve, verde-limo.
- No  possvel, minha querida lady - defendeu-se o visconde.
-        Tenho pressa, no vai ser uma viagem agradvel.
  - Juro que no vamos reclamar nem atrapalhar - insistiu a senhora. - Aluguei a carruagem e os cavalos mais rpidos de Paris. Se o senhor no quiser nos acompanhar, 
vou ter de contratar um desses cocheiros malucos franceses... e sei l o que pode acontecer conosco...
- Ento,  melhor que fiquem em Paris - sugeriu ele.
  - Bem. - A velha lady suspirou. - Ento, ser que lorde Hammet poderia nos levar?
- Sem dvida - concordou o visconde.
 E, assim, o jovem lorde viu-se na boleia da carruagem, conduzindo duas damas e a bagagem, que parecia ser para um ms, por uma escada que deixava muito a desejar 
por causa das chuvas da primavera.
No conseguiu, nem de longe, acompanhar o rpido faton do irmo, com quem apostara que chegaria a Orange no mximo seis horas depois de ele ter chegado. Se conseguisse, 
ganharia um ttulo do Four Horse Club.
  Infelizmente, as passageiras no gostaram da velocidade com que ele conduzia a carruagem, e Vanessa pediu-lhe que fosse mais devagar, porm ele garantiu que tudo 
estava sob o maior controle.
  - Esse menino  um perigo pblico! - exclamou lady Margaret, sendo jogada de um lado para o outro.
-  apenas um jovem impetuoso - contraps Vanessa.
  - Pois vai morrer jovem e impetuoso, se no tomar cuidado, levando-nos junto! - zangou-se a velha senhora e, criando coragem, enfiou a cabea para fora da janela 
e exigiu que lorde Hammet parasse a carruagem.
  Surpreendentemente ele parou, fazendo com que as duas cassem do assento. Mas no parara por causa da ordem da lady, que nem sequer ouvira.  que percebera o irmo 
na beira da estrada, fazendo-lhe sinais. Enquanto Vanessa ajudava a tia a se levantar e verificava se tudo estava em ordem, o visconde repreendia o irmo.
  - Por que vinha correndo como louco? Nunca vou permitir que seja scio do Four Horse Club depois do que vi!
- No lembra da nossa aposta? - perguntou Reginald, ressabiado.
  - Acho que eu devia ter acrescentado que ela s valeria se as passageiras e a carruagem chegassem inteiras!
  - Caro visconde, pensamos que o senhor estivesse bem adiante!
- surpreendeu-se lady Margaret, saindo da carruagem ajudada pela sobrinha.
  - Deveria. Mas um dos cavalos perdeu a ferradura e fui abalroado por um cocheiro to maluco quanto meu irmo.
- E ficou a p? - perguntou Vanessa, mal segurando o riso.
- O faton danificou-se na coliso...
  - Venha conosco, ento! - convidou a lady. - Assim o senhor conduz.
  -  o que farei, obrigado, mas s at a prxima parada. L tentarei comprar um cavalo, assim irei mais rpido. Vocs podero levar o vinho para mim at Paris.
  - E vai nos deixar  merc de lorde Hammet? - perguntou Vanessa, enquanto ela e a tia entravam na carruagem.
  O jovem lorde seguiu viagem ao lado do irmo, que tomou conta das rdeas. Mantinha um silncio zangado.
  -        O que ? Por que essa cara? - perguntou o visconde, depois de algum tempo.

- Nada - respondeu Reginald, entre os dentes.
- Est zangado, no ?
  - Voc acha?... Olhe, no gosto que chame minha ateno na frente de amigos, muito menos da srta. Whitmore.
  Lorde Peregren compreendeu: fizera o irmo sentir-se diminudo diante da mulher que amava... Mas no podia permitir que continuasse conduzindo os cavalos daquele 
jeito.
  -        Voc vinha rpido demais - justificou-se, e como o irmo continuasse amuado: - Est bem, desculpe-me! Eu no devia repreend-lo diante da moa na qual 
est interessado...
"E em quem eu tambm estou", pensou, preocupado.
  Quando chegaram na parada seguinte, as senhoras foram ao toalete e os dois saram em busca de um cavalo para o visconde, mas no encontraram nenhum adequado, pois 
ele queria um animal forte, que no exigisse muitas paradas. Ento, prosseguiram at a etapa seguinte, onde pararam para almoar, e o visconde pediu a lady Margaret 
que servisse como intrprete, perguntando ao dono da estalagem se poderia encontrar cavalos  venda ou para alugar. No havia. Ela pediu a mesma informao nas duas 
paradas seguintes, sem sucesso. J anoitecia, e lorde Peregren comentou com o irmo que duvidava se valia a pena ir at Orange.
  -        Claro que vale! -disse lorde Hammet. - Agora que j estamos aqui... E lembre-se da maravilha que  o vinho!
  Na manh seguinte, aps pernoitarem numa estalagem, lorde Peregren desistiu de procurar o cavalo ao saber que nem por ali havia um sequer para alugar. Comunicou 
que iria de carruagem, mesmo, e diante do sorriso triunfante da velha senhora, sentiu como se tivesse sido ludibriado.
- E o senhor  que ir conduzindo? :- indagou Vanessa.
  - Claro! - respondeu ele, e, ao ver que o irmo o encarava, consertou: - Vou revezar com Reg.
- Mas disse que ele no sabe conduzir em estradas...
  - Disse isso porque fiquei zangado ao v-lo correndo demais. Ele  timo condutor, basta que tenha calma.
  Quando pararam, na noite seguinte, enquanto lady Margaret e o jovem lorde falavam sobre o timo jantar que haviam tido, o visconde perguntou o que Vanessa achara.
  - No sou entendida em pratos e vinhos, como o senhor - respondeu ela. - Sei, tambm, que entende muito de cavalos e... de mulheres! Alis, as jovens da corte 
devem estar ansiosas por saber quem o senhor escolher, agora que ficou livre...
A senhorita me deixa encabulado...
  - Mas  verdade! - confirmou ela, rindo. - E tenho certeza de que os cavalheiros do White's Club esto fazendo altas apostas sobre quem ser sua noiva.
  - Como  que sabe que os membros desse clube fazem esse tipo de apostas? - surpreendeu-se ele.
  - Sei, tambm - respondeu ela, corando -, que essas apostas so anotadas em um livro especial.
  - Pois no vou dar essa oportunidade de novo. Depois de ter sido abandonado, no pretendo tentar, me casar novamente. Foi uma experincia muito dolorosa. - Os 
olhos dele riam contradizendo a expresso compungida.
  - Lembra-se de com quem est falando?- Ela se recusava a engolir aquela falsa imagem de mrtir. - Uma noiva recusada!
Desataram a rir e nem ouviram o jovem lorde falar:
- Perry, j perguntei uma vez! Quanto tempo leva daqui a Orange?
- Se sairmos bem cedo, chegaremos amanh, no fim da tarde.
Ento, todos foram dormir. Quando se preparavam para deitar, o visconde perguntou ao irmo:
  -        Voc gosta muito da srta. Vanessa, no ? Que tipo de esposa acha que ela seria?
  Animado, o jovem lorde achou que afinal o irmo abrira os olhos e tentou incentiv-lo:
- A esposa ideal! Ela  uma moa maravilhosa, Perry.
- ... Apague a vela quando deitar, Reg.
E o visconde demorou muito a dormir. No havia dvida, seu irmo queria se casar com a mulher que ele descobrira que amava. Por que o destino quisera que isso acontecesse?

Capitulo XXI

 medida que se aproximavam de Orange, na tarde seguinte, Vanessa ficava mais e mais deprimida. Logo o visconde iria embora para Londres. Ela tambm iria retornar, 
mas sabia que l no teria oportunidade de v-lo tanto quanto em Paris.
  Quando pararam, desequilibrou-se ao sair da carruagem e caiu. Lorde Peregren, que estava perto, segurou-a e, por instantes, ela ficou colada a ele, os olhos presos 
nos profundos olhos verdes.
- Machucou-se? - indagou ele, pondo-a no cho.
- No - murmurou ela, sentindo-se tola e desajeitada.
Ao   ver   lady   Margaret,   o   estalajadeiro   lembrou-se dela   e cumprimentou-a com o calor latino, beijando-a em ambasr-s faces e exclamando, todo alegre:        
-        Estou feliz por v-la aqui de novo, mon petit chou!
  - Titia, mon petit chou? - perguntou Vanessa, curiosa, assim que as duas entraram no quarto.
  - Quer dizer "minha florzinha" - disse a simptica senhora, na defensiva. - Os franceses adoram flertar... mas  s conversa, meu bem.
  As duas se lavaram e trataram de se vestir para o jantar. Vanessa olhou-se com ateno ao espelho e achou a pele do rosto seca. Aplicou um creme, depois riu: estava 
ficando vaidosa e isso era novidade para ela. Tratou de se apressar e seguir a tia, que j saa do quarto. No corredor, Vanessa esbarrou numa jovem que saa abruptamente 
por uma porta.
  - Desculpe... - comeou, e parou, estupefata. - Lydia! O que est fazendo aqui? Voc no ia para Londres?
  - Lorde Hammet mostrou-lhe meu bilhete? - perguntou a srta. Hunnicutt, to surpreendida quanto Vanessa. - Espero que meu pai no tenha seguido vocs... Foi por 
isso que menti, no contando onde Johann e eu amos.
- Quer dizer que ele est aqui? - indagou lady Margaret.
  - Sim, e nos casamos ontem  noite - contou Lydia, exibindo a aliana, novinha, na mo esquerda.
- Felicidades - disse a velha senhora, sem saber mais o que dizer.
  - Parabns, Lydia! - cumprimentou Vanessa, contente. Depois seu tosto escureceu. - Volte para o quarto. Lorde Peregren est aqui e no deve ver vocs!
  - Ele est aqui? Veio atrs de mim? - assustou-se Lydia. - Sou uma mulher casada!
  - No! Ele veio atrs de vinho! - exclamou Vanessa, irritada, depois riu ao ver que a outra no entendia nada. - V para o quarto e no deixe herr Johann sair 
tambm.
- No posso! Meu marido est l embaixo, na adega!
  - Na adega?! - Lady Margaret no gostou: mais um concorrente para seus vinhos.
  - . Ele gostou de uns vinhos que o estalajadeiro tem e quer levar alguns para Viena.
  Vanessa afligiu-se: era uma questo de tempo para o visconde encontrar herr Johann.
  -        Titia, fique a no quarto com Lydia. Espero que no seja tarde demais! - exclamou, e saiu correndo.
  No entanto, l embaixo, o visconde dissera ao estalajadeiro que queria comprar do excelente vinho Madeira que lady Margaret comprara da outra vez que estivera 
ali.
  - Quantas garrafas o senhor quer? - perguntou o homem, solcito, ao ouvir o nome da sua amiga inglesa.
- Duas dzias... ou quantas o senhor tiver.
  - Sinto, cavalheiro - disse o estalajadeiro em seu ingls arrevezado -, mas no tenho isso tudo. Um hspede austraco tomou um Chteau-Neuf-du-Pape ontem, ao jantar, 
e hoje fez questo de conhecer
minha adega. Quando viu o meu Madeira, quis comprar todos os que eu tinha.
- Onde ele est? J foi embora? - indagou o visconde.
  - No. Est l embaixo, na adega... Acho at que j est subindo, e pelo jeito vem carregado! - Riu o estalajadeiro.
  Mas lorde Peregren no achava aquilo nada engraado e voltou-se, carrancudo, para o homem que surgia por uma porta no fundo do salo. Quando viu o rosto familiar, 
os olhos muito azuis, sorriu, surpreso.
-        Johann!
  Sujo de p e teias de aranha, Johann vinha carregando vrias garrafas. Ao ver o amigo, ps as garrafas numa mesa e o visconde aproximou-se para abra-lo.
- Cuidado, estou todo sujo! - exclamou herr Schiller.
  - Estou vendo! Chegou na minha frente! Eu vim para comprar esse vinho!
 - Eu devia ter imaginado! - E Johann ria, com gosto. - Como soube destas preciosidades?
 - Uma amiga minha tinha uma garrafa, e meu irmo, lembra de Reg?, convenceu-me a vir aqui comprar algumas.
- Pena voc ter perdido a viagem, ento, meu amigo!
- Quer dizer que no vai me ceder nenhuma?
- S tenho quatro de Madeira e quatro de Chteau...
- Eu me contento com, pelo menos, uma de cada.
- Ento, d-me uma razo, que seja, para eu ceder.

- A nossa amizade, Johann!
  - Acha que o seu irmo est certo? - perguntou o austraco ao jovem lorde, que ficara de boca aberta, aparvalhado, olhando para os dois.
  - Ah... Herr Schiller - conseguiu dizer, afinal. - O que o senhor est fazendo aqui? Pensei que estivesse em Londres. - E, aflito, piscou para alert-lo.
- Alguma coisa errada com seu olho, meu menino? - perguntou herr Schiller.
  - No ligue para o olho dele! - pediu o visconde. - Conte-me o que aconteceu. Voc me avisou que chegaria a Londres h um ms...
  - Misso secreta, no ? - interferiu o jovem lorde, piscando furiosamente.
  - Oh, no. Nada disso - negou o austraco. - Cheguei a Londres e fui assaltado por dois criminosos, que me deixaram mais morto do que vivo. Perdi a memria e, 
socorrido, quando a recuperei havia se passado quase um ms. Se no fosse a ajuda do dr. Fabersham, teria morrido, eu acho.
 Vanessa, que entrava naquele momento, soltou uma exclamao ao ouvir a meno ao pai de Francis.
  - Permita-me apresentar-lhe meu amigo Johann Schiller, srta. Whitmore - disse o visconde, voltando-se.
-  um prazer conhec-la, senhorita!
  Ela murmurou um cumprimento e olhou ansiosa para o jovem Ham-met, que encolheu os ombros.
  - Conhecemos o filho do dr. Fabersham - disse lorde Peregren.
- Tem certeza de que est bem?
  - A nica coisa que ainda est machucada  o meu orgulho. Banquei o bobo, estava com a cabea nas nuvens.

- Aposto que por causa de uma mulher... - brincou o visconde.
  - Bem, Perry... - Herr Johann pigarreou. - Quanto a isso, tenho algo a lhe contar.
  -        Perry, preciso muito falar com voc, agora! - exclamou o jovem lorde, tentando evitar o inevitvel.
  Vanessa, ento, aflitssima, resolveu ser drstica. Soltou um grito abafado, quase um gemido, e deslizou para o cho, como se tivesse desmaiado.
- Meu Deus! - assustou-se o visconde.
  - Deixe, eu a levo para o sof - disse lorde Hammet, empurrando o irmo e pegando Vanessa nos braos.
  - Lydia est l em cima - murmurou ela, ao certificar-se, por entre as longas pestanas cerradas, de quem a carregava.
- Desgraa! O que vamos fazer? - sussurrou Reginald.
- No sei...
  Ele colocou-a num sof e disse aos demais que ela j vinha voltando a si. O estalajadeiro apareceu com um copo de conhaque, que ofereceu a Vanessa. Ela tomou um 
gole, ajudada pelo solcito jovem Hammet e logo ficou corada.
- ...  divino! - exclamou, meio engasgada.
  - Podemos provar? - pediram o visconde e herr Schiller, ao mesmo tempo.
Depois que experimentaram a bebida, lorde Peregren disse:
  - Ento, Johann fica com os Madeira e os Chteau. O senhor me vende o conhaque, est bem? - indagou ao estalajadeiro.
- Como queira, senhor. No posso desapontar mon amie...
  - Isso  injusto da sua parte! - protestou herr Johann. - Tambm quero o conhaque! Se fizer isso, no vou dizer que lamento ter roubado a mulher que voc ama, 
Perry!
O visconde parou, gelado, assim como Vanessa e seu irmo.
- O que quer dizer com isso? - perguntou o lorde.
  - Por favor, herr Schiller! - E Vanessa saltou de p, esquecendo o papel de recm-desmaiada. - Este no  o momento nem o lugar adequado. Lorde Peregren, no d 
ateno!
  - Dou ateno, sim - disse o visconde, baixinho, olhando fixa
mente para o amigo. - Continue, por favor.
  - Desculpe, Perry... Quando soube do seu envolvimento com ela, j era tarde...
  - Bem, pelo jeito, parece que todos j sabiam disso, no , Reg- indagou o lorde, com voz tensa.
-        Sinto muito, Perry... - Reginald respondeu, baixando os olhos.
Lorde Peregren no tinha ideia de como Vanessa conhecera seu amigo Johann. Era essa a ligao to misteriosa entre seu irmo e ela!
  -        Sua tia tambm sabe? - perguntou a ela, tentando manter-se calmo.
Eu...Tive de contar a ela... desculpe-me! - respondeu Vanessa, diste, num murmrio.
 _- Se est com vontade de me bater, eu entendo e aceito... - disse o austraco, sem jeito e emocionado.
         No seja tolo! A culpa no  sua... - o visconde riu, mas seus
olhos diziam que estava muito infeliz. - Por que no abre um Chteau, Johann? Assim brindaremos  felicidade de vocs.
 E, quem sabe, tiraria aquele terrvel gosto amargo da boca, pensou o visconde, arrasado.
- Desde quando voc sabe, Reg? - perguntou ao irmo.
 - Desde que chegamos a Paris. Eles tinham planejado casar, mas no deu certo...
 Johann abriu a garrafa de vinho, pegou os copos que o estalajadeiro fora buscar e serviu a todos. Lorde Peregren ergueu o dele e brindou, tentando manter a voz 
firme:
-         felicidade de Johann e da srta. Whitmore...
 O austraco erguia seu copo e, ao ouvir o nome da jovem que acabara de conhecer, derramou metade do vinho na camisa. Vanessa engasgou com o gole que j tomara. 
O jovem Hammet foi o nico a conseguir pr o copo na mesa sem nenhum desastre.
 - Perry... - murmurou - Johann no vai casar com a srta. Vanessa...
- No? - indagou o visconde, com os olhos fixos.
 - No! - confirmou seu amigo, tentando limpar a camisa com um guardanapo. - Em geral, no costumo casar com mulheres que acabo de conhecer!

- Ento, de quem vocs estavam falando?
 - De Lydia Hunnicutt - conseguiu dizer Vanessa, num fio de voz.
- O senhor era noivo dela...
 - ... era... - O visconde parecia estar em estado de choque. - Desculpem-me, mas isso parece que aconteceu h anos. Quer dizer que vai casar com Lydia, Johann?
 - J casamos, ontem  tarde - respondeu ele, com um largo sorriso no rosto simptico.
- E onde est a noiva?
 - No quarto dela... - respondeu Vanessa. - Quando a encontrei, l em cima, disse-lhe que se mantivesse escondida do senhor...
- E por que fez isso? - perguntou o visconde, pasmado.
-  Porque achei que no ia gostar de saber que perdeu sua noiva Para seu melhor amigo.
-No precisava ter feito isso... - Ele sentia-se emocionado com a preocupao dela. - Lydia podia casar com quem quisesse. S de sejo que seja feliz!
   -        Obrigado, Perry - repetia herr Schiller, batendo no ombro do amigo, todo feliz.
  -        Graas a Deus! - exclamou Vanessa. - Vou l em cima chamar Lydia e titia, e ento, faremos um brinde de verdade!
  -        Ainda bem que essa grande confuso terminou. - O jovem Hammet suspirou, servindo-se de conhaque. - Se soubesse o que a srta. Whitmore e eu fizemos para 
voc no saber do caso, Perry!
  - Quando soube que ela era sua noiva, fiquei muito triste, meu amigo - disse o austraco. - Mas eu a conheci antes de voc, sabe?
Bem, vamos brindar de novo, ento, com esse vinho excelente.
  - Eu acho que no  s ao seu casamento que devemos brindar, meu caro - comentou o visconde, de novo, sombrio.
  -  mesmo? Voc, Perry? - perguntou herr Johann, ainda mais animado. - No acredito!
  - No. Eu no. Brindaremos ao casamento de Reg com a srta. Whitmore.
  - Qu? - A foi a vez do jovem Hammet derramar conhaque na camisa. - Acho que ficou louco, Perrry! Primeiro, quer casar a srta. Whitmore com o Johann... agora, 
comigo?!
  - Voc no fala em outra coisa, a no ser como ela  maravilhosa,
linda, inteligente... e ontem  noite disse que  a esposa dos seus sonhos! - explodiu o visconde.
O jovem Hammet ergueu as mos, com cara de desespero.
  - Eu no quero me casar com ela! Quero que voc se case com ela! H semanas venho tentando convenc-lo de que a srta. Whitmore  a esposa ideal para voc. Ontem 
 noite pensei que tivesse aberto seus olhos. Mesmo porque sou muito novo para casar.
- Reginald, no est brincando comigo... est?
- Mas ser possvel, Perry? Claro que no estou!
  - Meu irmo - disse o visconde, com o corao leve -, no sabe como estou feliz em saber disso!

Capitulo XXII

-Vanessa, querida, voc poderia ir ver se a arrumadeira encontrou o meu leque, que deixei l embaixo, no jardim?
  Vanessa gostou do pedido de lady Margaret, pois apesar de estar contente por Lydia e Johann estarem, enfim, unidos, sentia-se um tanto triste vendo a felicidade 
deles e imaginando que nunca alcanaria esse estado em sua vida. Falou com a criada, que nada encontrara, e ento resolveu ir procurar o leque.
  Quando se aproximava do conjunto de mesinhas ao ar livre, ouviu vozes exaltadas.
-        Voc no pode estar falando srio!  uma proposta idiota!
Era a voz do visconde, que ela reconheceria sempre.
  - Sei que no gosta dela - replicou o irmo -, mas eu gosto e fao questo de ficar com ela!
  - Est louco! J pensou como ela vai ficar cara para voc? Pensou na linhagem dela, nos descendentes que vai ter?
  - Acha que eu sou bobo, Perry?  claro que verifiquei a linhagem dela, que, por sinal,  impecvel.
  - Por acaso, conhece a me dela?  famosa pelo gnio rebelde, e o pai tambm no  recomendvel.
  - Mas a irm  uma beleza, alm de ser uma vencedora. Voc mesmo j comentou isso comigo.
  - Isso se deve a sir Giles, Reg. Escute, crie juzo! No faa uma besteira dessas! - explodiu lorde Peregren.
  A pouca distncia dos dois, Vanessa estava zangadssima com o que ouvira. Como ele ousava falar dela daquele modo? Lorde Peregren continuava orgulhoso e grosseiro.
  J h algum tempo ela percebera as atenes do jovem Hammet e ficara temerosa de que ele estivesse se apaixonando. Gostava dele como amigo, como um irmo, e trataria 
de desencoraj-lo. Mas se ele lhe fizesse uma proposta de casamento, recusaria, definitivamente. Imaginava, tambm, que o visconde seria contra o casamento dos dois 
e o entendia. Mas isso no lhe dava o direito de fazer aqueles comentrios horrveis.
-        E a aparncia dela, ento? - continuava o lorde. - Tem um olhar vidrado, estranho.
Gosto da elegncia, do porte dela - teimou o irmo.
-        Bobagem! Uma mula  melhor! - riu o visconde.
Ento, Vanessa no se conteve mais. Aproximou-se como um furaco.
  -        Mula! - gritou, e ficou parada, como se tivesse gelado e virado uma esttua de mrmore.
  S ao se aproximar, viu que perto dos dois havia um cavalo, ou uma gua?, de aspecto lastimvel. Os dois voltaram-se para ela.
  - Oh, senhorita... - disse o visconde. - Disse alguma coisa sobre mulas, me parece?
- Oh, no... no... - gaguejou ela
- Parece que gritou a palavra mula - insistiu o lorde.
- N... no. - Ela observou o animal. - Isso a  um cavalo?
  - Uma gua - respondeu o jovem Hammet. - Quero compr-la, mas Perry diz que no  boa.
  - E tenho motivos para dizer isso.  verdade que a me dela ganhou algumas corridas, mas  arisca e j jogou uns trs jqueis no cho. O pai nunca teve expresso, 
e a irm ganhou algumas corridas, depois que sir Giles a comprou e deu-lhe trato de primeira e treinamento contnuo.
  Enquanto falava, lorde Peregren notou que a srta. Whitmore matinha-se calada, porm mostrava-se cada vez mais sem graa e ia ficando vermelha.
  -        Reginald, ser que podia me dar licena para eu conversar com a srta. Whitmore? Mas no faa bobagens, hein? No feche nenhum negcio sem falar comigo.
  Vanessa teve vontade de ir com o jovem lorde, mas o visconde aproximou-se e impediu-lhe o caminho, como se adivinhasse suas intenes. Assim que o irmo entrou 
na casa, perguntou:
  - Por favor, diga-me, o que h de errado? - E pegou uma das mos dela.
- Nada. Vim buscar o leque que minha tia deixou aqui...
  Ele pegou o leque, que estava sobre uma das cadeiras, mas no o entregou a ela.
  -        Vamos, diga... O que aconteceu? Ser que ouviu a discusso entre Reg e mim? - Sentiu a mo dela tremer. - Oh! No me diga que pensou que era sobre voc! 
Pensou?
  A moa ficou ainda mais vermelha e s no desviou o olhar porque ele lhe segurou o queixo.
  - Como pde pensar isso... Vanessa? - perguntou, suave. - Acho que posso dispensar o antiptico senhorita, no?
  - Bem... A verdade  que j ouvi o senhor fazer comentrios pouco amveis sobre mim... E acha que sou prepotente!
  - O que  verdade. No entanto, nunca mais disse que voc  uma solteirona sem atrativos... - Acariciou-lhe o rosto, de leve. Tinha tanta vontade de beij-la! - 
Nunca mais serei capaz de mago-la... principalmente porque passei a tarde imaginando o melhor modo para lhe dizer que gostaria de me casar com voc.
  - O sen... Voc me ama? - Ela sentiu que seu corao saltava, alucinado. - Quer casar comigo?
- Quero... E ficaria feliz se voc aceitasse.
-        Eu... Oh, Perry... - exclamou ela, sorrindo, os olhos brilhando intensamente.
 Ele esqueceu tudo o mais. Abraou-a e beijou-a com ardor, sentindo que Vanessa correspondia com todas as fibras de seu ser. Ela sentia-se flutuando no ar, e, quando 
seus lbios separaram-se, ia protestar, porm ele beijou-lhe o pescoo, junto da orelha, proporcionando-lhe uma sensao indescritvel.
 -        Eu daria qualquer coisa para estarmos num lugar mais ntimo...
- sussurrou ele, e, ao ver a carruagem ali perto, encaminhou-se com Vanessa at ela e abriu a porta. - Muito melhor, no?
 -        Muito - concordou ela, enquanto sentavam-se dentro do veculo. - Acho .que...
E ele fechou-lhe os lbios com um beijo. Quando se afastou, disse, pensativo:
-        Voc tem gosto de morango... morango com chantilly.
 Ela comeou a rir do comentrio inesperado. Sentia-se assustada com a paixo que o visconde despertava nela. Jamais gostara de beijar, mas surpreendia-se ao ver 
que gostava dos beijos dele e de beij-lo.
- Voc ainda no disse se quer casar comigo... - reclamou o lorde.
 - Achei que isso tinha ficado claro, mas se quer uma resposta formal... Aceito seu gentil pedido, milorde - disse ela, sria, de olhos baixos e ar recatado.   .
  O visconde riu, com gosto, depois abraou-a e, srio, beijou-a com tal intensidade que nenhum dos dois percebeu a porta da carruagem se abrir.
-        Oh! Desculpem! - disse o jovem Hammet, todo atrapalhado.
  - Reg, voc s vezes consegue ser terrivelmente desajeitado! - exclamou lorde Peregren. - Mas j que est aqui e gosta tanto de Vanessa, comunico-lhe que vamos 
nos casar.
- At que enfim! - gritou Reginald, entusiasmado.
 - Veja, seu irmo pediu em casamento uma solteirona sem atrativos... - provocou Vanessa.
-        Ser que voc nunca vai esquecer isso?
  -        Nunca! Se voc no tivesse dito isso, nunca teramos brigado e no nos teramos conhecido.
Ignorando o irmo, ele a beijou novamente.
- Perry - disse ele -, no quero atrapalhar, mas...
  - Ento no atrapalhe, Reg! - pediu o visconde. - Feche essa porta e v embora.
-  que se voc no andar logo, o Johann vai descobrir o sherry e...
- Que sherryl
  - Lady Margaret experimentou um sherry que o estalajadeiro tem e me pediu que viesse chamar voc, depressa.
  - Oh! No podemos deixar seu amigo levar tambm o sherry! -exclamou Vanessa. - Vamos, milorde!
  Depois de mais um beijo, ele ajudou a noiva a descer da carruagem e os trs correram para salvar o sherry da ganncia de herr Schiller.

FIM
